sexta-feira, 30 de março de 2012

Slow Blog


A ideia surgiu no NY Times, com um manifesto chamado "Blogging at a Snail's Pace". Surgiu da ideia de recusar a blogagem rápida que, como a "Fast food", destruidora de tradições e alimentação saudável, também não favorece a reflexão e a estruturação do pensamento. Surgiu do movimento "Slow Food", contra o imediatismo, a pressa, a favor da reflexão, da preparação, da exposição de uma ideia sem pressas nem cortes, amadurecendo as ideias antes de as expor.
Achei muito interessante esta ideia. Sinto também esta contradição entre as postagens rápidas, em que se baseiam as redes sociais, e o gosto pela escrita, pela explanação de uma ideia, de um raciocínio, de uma análise da realidade. Não se consegue analisar muita coisa em 140 caracteres. Não que eu seja contra o Facebook, ou qualquer outra rede social. Todas têm o seu lugar e, se existem e têm sucesso, é porque são de algum modo necessárias. Também estou no facebook e gosto de lá passar, ver as fotos dos amigos, deixar um comentário ou uma piada a propósito de qualquer coisa. Mas o blogue é outra coisa. 
Se não tiver nada para dizer, não blogue. Não tem o compromisso de postar todos os dias. Mantenha alguma regularidade, pode postar todas as semanas ou todos os meses, mas o único compromisso é consigo próprio.
Aos adeptos do Fast Blog, aconselho o Twitter (140 caracteres por mensagem, ou tweet) ou o Facebook. Mas, para quem gosta de aprofundar as ideias, como quem mastiga muitas vezes um alimento, então é preciso outra coisa: um Slow Blog!

Leia aqui o Manifesto Slow Blog:
http://luzdeluma.blogspot.pt/2008/12/slow-blog.html


terça-feira, 27 de março de 2012

Os Sexalescentes

Recebi, através da internet, um texto que achei muito interessante. Não sei quem o escreveu, por isso limito-me a reproduzi-lo tal como o recebi. Trata de uma nova realidade: a das pessoas que, estando agora na faixa etária à roda dos sessenta anos, têm uma atitude nova perante a vida, o trabalho, as relações familiares e amorosas, o lazer, a imagem que fazem de si próprias. É uma realidade quase revolucionária, mas de que mal nos apercebemos, uma revolução silenciosa. Na geração dos nossos avós, os sessenta anos representavam o limiar da velhice. Agora, representam o limiar de uma nova disponibilidade para o mundo, mais refletida, mais madura, mas nem por isso menos plena. Vale a pena ler.


Está aparecendo uma nova faixa social: a das pessoas que andam à volta dos sessenta anos de idade, os sexalescentes: é a geração que rejeita a palavra "sexagenário", porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer. Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica, parecida com a que, em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa de jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.
Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta, teve uma vida razoavelmente satisfatória. São homens e mulheres independentes que trabalham há muitos anos e que conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram durante décadas ao conceito de trabalho. Que procuraram e encontraram, há muito, a atividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.
Talvez seja por isso que se sentem realizados... Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram, gozam plenamente cada dia, sem medo do ócio ou da solidão, crescem por dentro, quer num, quer na outra. Desfrutam a situação, porque, depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabem bem olhar para o mar, sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro da janela de um quinto andar...
Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e ativas, a mulher tem um papel destacado. Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer, e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar. Esta mulher sexalescente sobreviveu à bebedeira de poder que lhe deu o feminismo dos anos 60. Naqueles momentos da sua juventude, em que eram tantas as mudanças, parou e refletiu sobre o que, na realidade, queria. Algumas optaram por viver sozinhas, outras fizeram carreiras que sempre tinham sido exclusivamente para homens, outras escolheram ter filhos, outras não, foram jornalistas, atletas, juízas, médicas, diplomatas... Mas cada uma fez o que quis: reconheçamos que não foi fácil, e, no entanto, continuam a fazê-lo todos os dias.
Algumas coisas podem dar-se por adquiridas. Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos "sessenta", homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe (e veem-se), e até se esquecem do velho telefone para contactar os amigos: mandam e-mails com suas notícias, ideias e vivências. De uma maneira geral, estão satisfeitos com o seu estado civil e, quando não estão, não se conformam e procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos sentimentais. Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos. Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflete, toma nota, e parte para outra ...
Partilham a devoção pela juventude e suas formas superlativas, quase insolentes de beleza; mas não se sentem em retirada. Competem de outra forma, cultivam o seu próprio estilo... Os homens não invejam a aparência dos jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de uma modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.
Hoje, as pessoas na fase dos sessenta estreiam uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos, e agora já não o são. Hoje têm boa saúde, física e mental; recordam a juventude, mas sem nostalgias porque a juventude, ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas. Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios... Talvez por alguma secreta razão, que só sabem os que chegam aos sessenta no século XXI.
 (Fotografia tirada em Alfama, em 2010)

domingo, 25 de março de 2012

Do ramo mais alto da árvore


Como fazia todas as manhãs, Pongo saltou para a árvore e trepou até ao ramo mais alto. Acomodou-se, esticou as patas, lambeu o dorso. Gostava daquele poleiro, um miradouro privilegiado sobre a quinta, de onde via tudo sem ninguém dar por ele. Não que lhe prestassem muita atenção quando andava lá por baixo: um gatarrão cinzento, de meia idade, sem muita paciência para as brincadeiras dos mais novos, não era uma companhia muito solicitada! Assim, acomodava-se ali em cima e observava tudo.
Via as brigas dos cães e o alarido que faziam quando passava uma bicicleta pelo portão da quinta. Via os melros que depenicavam as sementes e os botões dos malmequeres. Ria-se com as manobras das lagartixas, que se escondiam atrás dos vasos de flores. Apreciava as brincadeiras dos gatitos mais pequenos, que por ali brincavam. Sim, porque havia sempre gatinhos pequenos na quinta. Uns desapareciam, outros cresciam e tornavam-se gatarrões como ele. Pongo gostava de observar as suas brincadeiras. Achava-lhes graça, embora já não tivesse paciência nem energia para andar a correr com eles atrás das borboletas. Havia uma gatita de quem ele gostava mais do que de qualquer outro: a Bia. Lembrava-se do seu nascimento, numa tarde chuvosa. A mãe tinha ido para um recanto abrigado do telhado e aí tinham nascido, a Bia e um irmão que não sobrevivera a uma queda do telhado escorregadio. Bia era mais prudente e só de lá descera em segurança, com a mãe. Além de prudente, era linda, com manchas de três cores, brancas, cor de laranja e castanhas escuras. E Pongo embevecia-se a vê-la descobrir o mundo, lá em baixo.
Pongo deu por si a sonhar. Imaginava que corria com Bia pela quinta, a subir às árvores e a saltitar pelo prado. Ele havia de lhe ensinar tantas coisas! Podia ensiná-la a apanhar moscas com a pata, ele era um especialista. Ou mesmo iniciá-la naqueles miados tremidos, que pareciam trinados, e que tinham significados muito especiais! E passavam-lhe pela cabeçorra cinzenta muitas outras coisas, enquanto a via correr e brincar. Um dia, também havia de correr com ela atrás das borboletas, por cima dos muros da quinta. Haviam de se divertir tanto, até ficarem cansados e adormecerem, enroscados um no outro. Imaginava-lhe o pelo luminoso, com as manchas da cor do sol, protegido pelo seu grande corpo cinzento. E dormitava feliz, embalado pelo seu sonho.
Mas Bia nem dava pela presença de Pongo. Cresceu, na companhia dos outros gatos e, quando chegou a altura de arranjar um companheiro, a sua escolha natural foi o Sebas, com quem tinha partilhado tantas brincadeiras e caçadas! E o Pongo ficou lá em cima, no ramo mais alto da árvore, de coração apertado, a vê-la namorar e constituir família.
Os sonhos não vencem batalhas, pensava Pongo imerso na sua tristeza. Tinha perdido uma guerra, sem sequer ter travado uma batalha.

(Fotografia retirada do Google Images - Possível imagem do Pongo)

sábado, 24 de março de 2012

Foi há 50 anos

Há 50 anos, o Salazarismo continuava instalado de pedra e cal aqui na capital do império. Após a convulsão provocada pela vitória dos regimes democráticos na 2.ª Guerra Mundial, o regime português conseguira manter-se no poder e os brandos costumes continuavam. No entanto, os ventos da História sopravam em direções diferentes. A Guerra Colonial já incendiava Angola e os jovens portugueses começavam a interrogar-se e ao seu futuro.
Faz hoje 50 anos, em 24 de março de 1962, os estudantes universitários de Lisboa pretendiam comemorar o Dia do Estudante, como já se fazia há anos. Mas o ambiente mudara. Desde o mês de novembro anterior que havia manifestações contra a Guerra Colonial, repressão e prisões de estudantes, embora pontuais. E, naquele dia de março, decidiu-se que as comemorações iriam decorrer, mesmo sem autorização do Ministério da Educação. O regime respondeu com o encerramento da Cantina e a invasão da Cidade Universitária. Centenas de estudantes foram espancados e presos. E foi decretado o luto académico e a greve às aulas.
Marcelo Caetano era, na altura, Reitor da Universidade de Lisboa. Tentou negociar uma solução para o problema mas foi desautorizado e acabou por se demitir. E a agitação estudantil continuou, repetindo-se os confrontos com a polícia em Lisboa, no Porto e em Coimbra.
Será que os jovens estudantes de hoje em dia são muito diferentes dos de há 50 anos? Nessa altura, lutava-se pelas liberdades e garantias individuais, a liberdade de expressão e de associação, a democracia. Hoje, garantidas que estão essas liberdades individuais, os jovens preocupam-se com questões materiais básicas, arranjar um emprego, conquistar um salário justo e um futuro digno. Mas, quando a crise económica alastra, será que as liberdades individuais continuam garantidas? A História ensina-nos que a resposta não é assim tão simples.
E o que fizeram pela democracia os que lutaram nesse dia de há 50 anos? Onde estão eles, os seus filhos e afilhados? Que democracia acabaram por construir? 
A revista Expresso (passe a publicidade!) traz hoje uma reportagem interessante sobre a crise académica de 1962. Para ler e refletir. 

(O cartaz de há 50 anos)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Para a minha filha

A minha filha faz hoje dezoito anos. 
Como me faltam as palavras, pedi algumas emprestadas a Sophia de Mello Breyner Andresen.


Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
...Como o florir das ondas ordenadas.



terça-feira, 20 de março de 2012

E lá chegou a primavera...

Hoje começou a primavera. Com um dia de avanço, por ser este um ano bissexto. Confesso que tenho andado tão absorvida na crise, e na gripe, e no trabalho, que mal dei pela sua aproximação. Mas a passagem das estações é completamente indiferente a essas questões e, portanto, a primavera lá chegou, pontualmente, às 5 horas e 14 minutos desta madrugada.
A chegada da primavera significa simplesmente que estamos no equinócio, isto é, um dos momentos do ano em que os dias são iguais às noites. E realmente, se não andarmos distraídos, reparamos que os dias são cada vez maiores. E que nas árvores começam a surgir os primeiros botõezinhos, ainda que envergonhados e mirrados pela seca. É a época da renovação, em que tudo renasce. Mas a crise esmagou-nos com tanta força que estamos com dificuldade em esticar os nossos ramos e renascer. A austeridade quebrou-nos a esperança. Tentamos manter as nossas raízes firmes na terra e esperamos que passe o mau tempo.
No resto do mundo também se festeja a chegada da primavera. Na Índia, é o Holi, a festa das cores. No Japão, é o Hanami, a observação das cerejeiras em flor. E o Museu do Oriente associa-se a esta data, organizando hoje e amanhã atividades para pequenos e crescidos, com base nas festividades orientais: é a batalha das cores. A entrada é livre e os únicos requisitos são roupa usada e boa disposição. Talvez seja uma solução. Vamos espantar a desesperança e a desilusão com flores de todas as cores.

(Fotografia do Sol no equinócio de primavera. Impressionante, não é?)
Foto retirada daqui.

domingo, 18 de março de 2012

Portugal colorido

Um destes dias, fui à minha costureira buscar umas calças que lá tinha deixado a arranjar. É uma rapariga russa, que veio para Portugal há uns cinco anos. É uma mulher despachada, mostra sempre boa-vontade em resolver os problemas, cumpre os prazos combinados com as freguesas. Abriu uma lojinha com um balcão, de onde emerge o seu rabo de cavalo dourado como um feixe de trigo, sempre atenciosa e educada. Fala com um sotaque característico, embrulhando os verbos e os substantivos, mesmo quando fala com os dois filhos, que andam na escola e já falam português melhor do que ela.
Depois, passei pela lavandaria. Pertence a um casal argentino, que começou este negócio com muitas dificuldades. Prosperaram graças à simpatia e à competência, sempre prontos a tentar todas as estratégias para lutar contra alguma nódoa mais difícil. A filha mais velha já trabalha com eles, a mais nova ainda anda na escola. Nunca perderam o sotaque cantado e colorido e os olhos verdes da mulher ainda refletem com nostalgia os bosques de abetos da sua Patagónia natal.
À esquina da minha rua, há uma churrasqueira. São uns rapazes brasileiros que exploram o negócio, embrulhando os frangos assados num sorriso e numa palavra simpática. Ainda lá passo antes de voltar a casa.
De frango na mão, baloiçando no saco de plástico, não posso deixar de pensar neste Portugal colorido, tão diferente do Portugal monocromático da minha infância.
Os imigrantes não nos dão apenas os impostos que pagam e que ajudam as nossas deficitárias finanças públicas, ou os filhos que têm e que contrabalançam um pouco a nossa envelhecida demografia. Muitos regressaram aos seus países de origem, mas muitos outros continuam por cá, tentando ultrapassar a crise tal qual como todos nós. E além disso tudo, também nos trouxeram um Portugal menos sisudo, menos cinzento, mais descontraído e alegre.
Pintaram Portugal com cores diferentes.

(Multidão colorida - Imagem do Google Images)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Um encantamento... para sempre

O texto que se segue é uma republicação. A Luma Rosa lançou uma blogagem coletiva com o título, sugestivo, de Amor aos Pedaços. A primeira fase é sobre o Encantamento, aquele momento em que sentimos que desperta em nós um amor incondicional, sem barreiras temporais ou de qualquer outra espécie. O momento de entrega a outro ser, um momento mágico, o início do para sempre! Este texto retrata um desses momentos: o nascimento de um filho. E aquela hora em que nos encantamos... para sempre!


A mulher abriu a porta do automóvel e dirigiu-se com dificuldade para a entrada do hospital. No guichet, a funcionária perguntou-lhe:
- Está muito aflita? Traz acompanhante? Precisa de cadeira de rodas ou acha que consegue andar? Diga-me só o nome e a morada.
Respondeu às perguntas e explicou que vinha com o pai. O marido tinha ficado em casa, com os dois filhos mais velhinhos.
- Pode entrar, o elevador é ali à direita. Sai no 2.º andar, eu vou avisar, a enfermeira já vai estar lá à sua espera.
Lá foi, andando com passos pequeninos, parando a cada contracção, tentando controlar-se. Eram 4 horas da manhã, o hospital estava vazio e os seus passos hesitantes ecoavam no corredor. No 2.º andar, a enfermeira já a esperava. Com os seus evidentes anos de experiência como enfermeira-parteira, tomou logo as rédeas da situação.
- Vamos ver como está a dilatação. Já tem três dedos de dilatação, já deve estar com bastantes contracções. Dê-me os exames, as ecografias. Vai à casa-de-banho e depois directamente para a sala de preparação. Vamos ligar o CTG.
Na sala de preparação, outras duas mulheres lutavam pelas novas vidas que se preparavam para nascer. Nem se olharam, cada uma concentrada na sua própria luta.
A mulher sentiu as águas rebentarem, uma torrente de águas quentes que parecia sair da própria dor que começava a cortá-la ao meio. Sentiu, mais do que ouviu, a voz familiar da sua médica obstetra. “Esta rapariga está cheia de vontade de nascer! Quase não me dá tempo para vestir a bata!” Tentou sorrir, mas só conseguiu suspirar de alívio pela presença da médica. Percebeu que a mudavam para outra maca, percebeu que estava na sala de partos, percebeu que lhe prendiam os pés nuns suportes elevados, percebeu que a auxiliar lhe calçava umas meias. “Não sabemos o tempo que isto vai demorar, não queremos que lhe arrefeçam os pés, não é?” A auxiliar apertou-lhe a mão, com carinho. “Isso, pode gritar à vontade!” Isso não tinha percebido, que estava a gritar. Onde estava a mulher que costumava ser, sempre tão controlada?
A enfermeira exclamou: “Não faça força! Não faça força ainda!” A mulher pensou que não estava a fazer força, era a filha que estava com pressa. “Agora vamos cortar um bocadinho, para a bebé não rasgar, está bem? Vá, agora é que é para fazer força!” Mas onde estavam já as forças? Pensou: “Não consigo! Já não consigo fazer força!” Cada dor era mais violenta e não a deixava concentrar no que precisava de fazer, que era fazer força. Um último esforço. “Pronto, já está. Muito bem, mãe, portou-se muito bem!”
Olhou pela primeira vez para a filha, ao colo da enfermeira. Chorava alto e estava vermelha e enrugada do esforço que fizera para nascer. No alto da cabeça, uns tufos de cabelo escuro, desgrenhado. A mulher pensou que não se parecia com ninguém. Só daqui a algum tempo ia começar a vislumbrar parecenças. “Tem os olhos da tia Joana” ou “O sorriso é igual ao do avô Eduardo”.
A enfermeira colocou a bebé sobre o peito da mulher, o que a fez sossegar e deixar de chorar. A mulher apertou-a docemente e sentiu que uma onda de ternura a avassalava e transbordava para aquele corpinho, tão pequeno, tão vermelhusco e enrugado, tão indefeso, tão seu, tão belo! Para sempre!

quinta-feira, 15 de março de 2012

Postal de Lisboa XIX – Os Panteões Nacionais


(A Igreja de Santa Engrácia vista de São Vicente de Fora)

Diz o dicionário que o Panteão é o conjunto dos deuses, ou o local onde se presta culto aos deuses, mas, atualmente, é o nome dado ao edifício consagrado à memória dos homens ilustres e onde se depositam os seus restos mortais.

Há em Portugal dois mausoléus aos quais foi dada a designação de Panteão Nacional: o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, porque aí se encontram os túmulos dos dois primeiros reis de Portugal, D. Afonso Henriques e D. Sancho I; o outro é a Igreja de Santa Engrácia. Esta Igreja começou a ser edificada em 1682, mas as obras só terminaram em 1966, dando origem à expressão “obras de Santa Engrácia” para algo que nunca mais acaba. O edifício é recuperado para Panteão Nacional em 1916, em plena Primeira República, colocando aí os túmulos dos nossos presidentes da República e de escritores portugueses. Aí estão sepultadas personagens tão diferentes como os nossos primeiros presidentes, Teófilo Braga e Manuel Arriaga, mas também o efémero e contraditório Sidónio Pais; o presidente do Estado Novo Óscar Carmona, tal como o opositor ao regime, Humberto Delgado; os escritores Aquilino Ribeiro, João de Deus, Almeida Garrett, Guerra Junqueiro, e até a fadista Amália Rodrigues. São também aí evocados, através de cenotáfios, as personalidades de Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Nuno Álvares Pereira, Vasco da Gama e do Infante D. Henrique, ainda que os seus corpos não estejam presentes.

 (O túmulo de D. João IV)

A Igreja de Santa Engrácia, a que chamam então Panteão Nacional, fica situada na freguesia de São Vicente de Fora, a mesma onde se situa o Panteão dos Braganças. Sem nada que o identifique externamente, quase escondido no edifício do Patriarcado, ao lado da Igreja de São Vicente, sem espaços grandiosos nem mármores coloridos, mas com muita dignidade, encontramos o Panteão onde se encontram sepultados todos os nossos reis da dinastia de Bragança. Desde D. João IV, o rei que restaurou a independência de Portugal, até ao último, D. Manuel II, que morreu no exílio. Aí estava D. Pedro IV, primeiro Imperador do Brasil, líder dos liberais na guerra civil, que entretanto foi transladado para Ipiranga, no Brasil. Aí estão ainda D. Pedro II, o rei da nossa primeira fase de industrialização; D. João V, o nosso Rei-Sol; D. Pedro V, o criador do Curso Superior de Letras e modernizador do país; D. Maria II, a educadora; e todos os outros, até D. Carlos e o seu filho D. Luis Filipe, assassinados em 1908. Lá está também uma impressionante figura de mulher (representando a rainha D. Amélia, ou a nação?) chorando pelo marido e pelo filho mortos.

 (A Nação chorando junto aos túmulos de D. Carlos e de D. Luis Filipe)

Compreendo que a República tivesse medo da Monarquia. Mas hoje já não se justifica esta distinção tão injusta. O Panteão Nacional, tal como o espaço onde se integra, uma igreja que nunca o foi, é um panteão muito pouco nacional. Quanto muito, é o Panteão da República. Porque, quanto à notoriedade dos que lá estão sepultados, o Panteão dos Braganças é, claramente, um panteão mais nacional, representativo de três séculos da nossa história. Não é considerado Panteão Nacional porquê? Era interessante refletir sobre isso.

terça-feira, 13 de março de 2012

As madrugadas

É de madrugada que as tempestades assolam os quartos, onde tentamos dormir. É a hora de todos os pesadelos, quando os fantasmas rodopiam e se instalam à nossa volta.
Li em algum lugar, algum dia, que não há mais escuro do que a meia-noite. Mas há, sim. Há aquela hora que não é noite nem dia, nem ainda madrugada. A hora dos nevoeiros, das figuras que passam fantasmagóricas na rua. A hora em que cada ruído assume um significado colossal, que nos deixa alerta, nem sabemos bem para quê. A hora em que cada pensamento que arredamos durante o dia, regressa, triunfante. Sim, porque os pensamentos indesejáveis fogem do sol como o diabo da cruz. Mas, a coberto das madrugadas, voltam e sentam-se à nossa beira. Para onde quer que viremos a cabeça, eles aí estão, repetindo as mesmas ideias, como uma ladainha que nos enreda e da qual não conseguimos sair. É a hora das tempestades. 

 (Van Gogh Noite Estrelada - Imagem retirada da WikipediaCommons)

domingo, 11 de março de 2012

Memória de celulóide


Entrou no bar com a fotografia na mão como se fosse uma bússola, que a orientasse na procura do caminho. Parou um pouco à entrada, olhou as mesas cheias de gente que bebia, ria e tagarelava. Viu uma mesa pequenina livre e dirigiu-se para lá. “Uma Cuba libre, se faz favor.” Voltou a olhar para a fotografia, onde sorria um belo rapaz, de cabelos encaracolados e olhos claros. O padrão e o feitio da camisa datavam-na dos anos 70. Era a única fotografia que tinha restado de um verão, feito de banhos de mar e beijos salgados, muita risota entre sumos naturais na esplanada da praia, danças apaixonadas nas noites de discoteca. Depois do verão, as aulas e o afastamento. Ficou um nome e aquela fotografia, a demonstrar que tinha sido real.
“Olá! És a Laura, não és?” Reconheceu logo a voz. E os olhos claros, embora agora escondidos atrás de uns óculos de armação escura e rodeados de papos.
Trocaram sorrisos. As palavras não saíam com tanta facilidade como no chat do facebook, onde se tinham reencontrado há um mês atrás.
“Tu estás exatamente na mesma!”
Claro que não era verdade. Tinha pelo menos mais vinte quilos do que no tal verão em que se tinham namorado. E os primeiros cabelos brancos tinham-na decidido a tornar-se loira. No entanto, arranjou coragem para responder:
“Tu também! Não mudaste nada!”
Claro que também não era verdade. Os quilos a mais estavam totalmente concentrados numa barriga que descaía sobre o cinto. O cabelo que faltava sobre a testa sobrava-lhe atrás, enrolando-se em caracóis grisalhos. O belo sorriso de outros tempos destapava agora as faltas de dentes laterais.
Fizeram conversa de circunstância durante mais algum tempo. Despediram-se, com muitas juras de encontros no facebook.
Quando Laura saiu do bar, deu uma gargalhada tão sacudida que teve de se sentar nas escadas que levavam à rua principal, onde tinha o carro estacionado. Depois levantou-se, ainda a sorrir, rasgou a fotografia e deitou-a no primeiro caixote do lixo. Não passava de uma memória de celulóide.


(Esta postagem integra-se na proposta da Fábrica de Letras para o mês de março, com o tema Fotografia)

sexta-feira, 9 de março de 2012

As Meninas do Calendário

Provavelmente, a única vantagem de estar doente é poder ler ou ver televisão com descanso e tempo.
Ontem, dia internacional da Mulher, aconteceu, seguramente não por acaso, que passaram na televisão dois filmes muito interessantes e simbólicos da evolução da situação da mulher no último meio século.
Durante a tarde, a FoxMovies (passe a publicidade) ofereceu a quem o quis ver "O Relatório Kinsey", um filme muito menos polémico do que o livro que lhe deu origem. O Relatório Kinsey foi provavelmente o primeiro grande estudo científico sobre a sexualidade e os comportamentos sexuais humanos. Só por isso, já merecia destaque. Mas o professor Kinsey atreveu-se a dedicar todo um livro apenas à sexualidade feminina, tratando com objetividade e naturalidade temas tabus como o orgasmo ou a masturbação nas mulheres. Na época, gritou-se "Escândalo!" e foi acusado de faltar ao respeito à mulher americana, lançando sobre ela esse olhar. Mais tarde percebeu-se que quem não respeitava a mulher, eram aqueles que a consideravam simplesmente como uma procriadora ou o recetáculo do prazer masculino; havia que conhecer e dar lugar às necessidades e ao prazer feminino, também.
À noite, o canal Hollywood presenteou-nos com o filme de 2003 "Calendar Girls". Confesso que não conhecia e só fiquei a ver porque a atriz principal era a Helen Mirren, que eu aprecio imenso. Mas foi uma boa surpresa. O filme parte de uma história verídica. Em Yorkshire, Inglaterra, um grupo de senhoras respeitáveis, de meia-idade, pertencentes a um clube feminino ligado à igreja, resolve de repente fazer algo completamente inesperado: um calendário artístico, onde as estrelas que aparecem despidas são... elas próprias! O objetivo é angariar dinheiro para a unidade de tratamento da leucemia do hospital local, onde o marido de uma delas tinha morrido recentemente. Explorando com graça e leveza os problemas de aceitação das famílias, da comunidade, e até das próprias mulheres, o filme leva-nos a pôr muitas interrogações sobre a nossa relação com o corpo e sobre o que é artístico e o que não o é. Acima de tudo, mostra que uma mulher de meia-idade não tem de se contentar com a confeção de bolos ou de toalhas de renda; pode ainda assumir-se como um ícone de beleza e de desejo, tudo dependendo da forma como é olhada e da forma como ela se olha a si própria.
Parabéns a todas as mulheres pelo caminho já percorrido. Os parabéns não vêm atrasados. Se as mulheres quiserem, todos os dias são dias das mulheres.


sábado, 3 de março de 2012

Há gripes e gripes!

E cá estou eu com gripe outra vez!
Entre espirros e gemidos, dei por mim a refletir sobre a Gripe A. A famosa, temível, incontornável Gripe A que, qual peste negra, se anunciava como um flagelo irremediável em todos os telejornais do inverno de 2009. Andou meio mundo a comprar líquidos para limpar as mãos de todos os germes, que se traziam na carteira, e apareceram recipientes com gel para limpeza em todos os espaços públicos, desde casas de banho a aeroportos. Na minha escola, os miúdos utilizavam-no logo de manhã para pôr no cabelo, era uma alegria! Lançaram-se folhetos com indicações da mais elementar higiene, como deitar no lixo os lenços de papel usados. A Direção Geral de Saúde divulgava comunicados, com conselhos, explicações sobre os tipos de gripe, tabelas de óbitos a nível mundial. Aconselhava-se o uso de máscaras e a vacinação em massa. As escolas tiveram de fazer planos de contingência. E, afinal, chegou-se à conclusão de que aquela mortífera gripe, nesse inverno, tinha sido responsável por menos mortes do que a gripe do costume, nos anos considerados normais.
Neste ano de 2012, as estastísticas mostram-nos que a mortalidade tem atingido picos pouco habituais, especialmente entre os mais idosos. Timidamente, os responsáveis admitem que a gripe tem sido uma das responsáveis, particularmente a Gripe A. Alto! Houve aqui qualquer coisa que me escapou! Este ano houve mais mortes devido à Gripe A, e só agora se fala disso? Não houve planos de vacinação, quarentenas, linhas de aconselhamento especiais? Esteve tudo tão silencioso. Será que as indústrias produtoras de vacinas e de gel para esterilização já não precisam de escoar produtos? Se calhar, eu não entendo isto porque sou loira. Ou então, é por estar com gripe.