segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

ReciclArte

Vik Muniz é um artista plástico brasileiro, nascido em S. Paulo em 1961, e tem neste momento uma exposição retrospetiva no Museu Berardo, em Lisboa. Aproveitando os tempinhos livres no meio de uma formação, durante este fim de semana, fui lá espreitar e admito que fiquei fascinada. Tinham-me dito que Vik era um fotógrafo e um artista talentoso. Mas ele é muito mais do que um fotógrafo, porque o que é fascinante é o trabalho extraordinário que está por trás de cada imagem. Ele aproveita os materiais mais díspares e inesperados, de diamantes e caviar a açúcar, arame, brinquedos, desperdícios informáticos, até lixo. É com esses materiais que ele compõe as suas imagens realistas e fantásticas ao mesmo tempo. Vale mesmo a pena dar um salto até ao Centro Cultural de Belém, passear um pouco por aquele espaço tão agradável, e ver esta exposição que, devido ao seu sucesso, vai estar patente até ao início de março. A entrada é livre e o agrado é garantido.
Depois da visita à exposição, aconselho uma breve caminhada até à Fábrica dos Pastéis de Belém, um ícone de Lisboa e da pastelaria nacional, ultimamente tão falados! Um café e um pastel de Belém ficam por 1,80 €. Uma boa sugestão anti-crise, para aproveitar durante este mês de fevereiro.

(Auto-retrato)


Nota Retificativa: Com muito pesar tenho de retificar a informação que aqui deixei. Esta exposição apenas esteve patente até ao final deste mês de Janeiro. A exposição que teve o seu tempo alargado até ao início de março é a "Arte da Guerra", também no CCB e também muito interessante. Consta de uma enorme coleção de cartazes do tempo da 2.ª Guerra Mundial, dirigidos à população civil dos diversos países participantes. Se houvesse um lema comum a todos eles seria "A Guerra começa a ser ganha em casa". 
Pela incorreção divulgada, peço as maiores desculpas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Maestro José Atalaya da minha infância

Num dos últimos posts que fiz, intitulado A Música anda por aí, mencionei um maestro que eu ouvia encantada na televisão, quando era pequenita, e que me acordou para a música chamada clássica, através das explicações e comentários que fazia das peças musicais. Algumas das pessoas que têm a simpatia de seguir este blogue e por aqui vão deixando as suas opiniões, perguntaram-me pelo nome desse maestro. Até avançaram com alguns nomes como hipótese. Confessei que não me recordava. Lembrava-me que era forte, tinha uma espessa barba escura e era um grande comunicador. A única vantagem de estar em casa com gripe é, precisamente, ter algum tempo livre para fazer leituras ou pesquisas e aproveitei para tentar encontrar na internet esse maestro que emergiu das minhas recordações de infância. Não foi preciso procurar muito. O nome tocou logo as campainhas da minha memória. As barbas espessas, agora já não escuras mas muito brancas, desfizeram as dúvidas. Era o maestro José Atalaya.
Para se perceber o impacto que estes programas tinham na nossa infância, preciso de explicar o papel da televisão, nessa época. Não havia internet, claro, nem mesmo computadores portáteis, nem mais de duzentos canais disponíveis por cabo. Mesmo a televisão começava as suas emissões ao fim da tarde (creio que por volta das 18 horas) e terminava a emissão cerca da meia-noite. Mas, nesse meio tempo, tinha uma posição central na nossa vida. Só havia um canal, que todos viam e comentavam. Por aí chegavam as notícias - lembro-me de ouvirmos atentamente os boletins noticiosos sobre a evolução da doença do Professor Salazar, ou da visita do Papa Paulo VI a Fátima. Eu ouvia-as ansiosamente, porque a seguir vinham os programas infantis, a Abelha Maia, o Carrossel Mágico. Depois, a programação seguia com documentários, filmes ou programas de divulgação. Como só havia um canal, eu lembro-me de ver tudo o que aparecia, desde o Bonanza até documentários sobre a Segunda Guerra Mundial.
Era nesse conjunto de programas que surgia o maestro José Atalaya. Eu não percebia muito de música, mas ele ensinava a distinguir os instrumentos, explicava as obras musicais e o seu entusiasmo era contagioso. Lembro-me de ficar colada à televisão e de com ele aprender alguns nomes de compositores que me iriam acompanhar no resto da vida.
Ao maestro José Atalaya deixo aqui a minha modestíssima homenagem, através deste Adagio de Samuel Barber, por ele dirigido e executado pelos jovens da Orquestra Raízes Ibéricas.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O Mundo não se fez para pensarmos nele...

E, porque depois de tanta crise não me apetece pensar mais no estado do mundo, ou talvez apenas por causa da gripe...


O Mundo não se Fez para Pensarmos NeleO meu olhar é nítido como um girassol. 
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de, vez em quando olhando para trás... 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem... 

Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras... 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do Mundo... 

Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender ... 

O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos) 
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ... 
Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar... 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema II"

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Crise

Olhou para o papel que tinha à frente e sentiu que não lhe saía nada. O papel, como tudo, não era escolhido ao acaso, era amarelado, com linhas, macio. Mas, mesmo assim, não estava a ajudar. Rodou a esferográfica entre os dedos e perdeu-se nos seus pensamentos.
Ainda ontem a mãe lhe tinha dito: "Gasto mais de cem euros por mês na farmácia. Cada vez sobra menos dinheiro da minha pensão!" Pois, também cada vez lhe sobrava menos dinheiro do ordenado. Era o supermercado e os passes para os autocarros dos miúdos. Era o dentista do mais velho, mais o médica das alergias do mais novo. Também precisava de ir ao médico, mas ía adiando, adiando, para um mês mais favorável, que parecia não chegar nunca.
Pôs o papel de lado e foi buscar o portátil. Podia ser que, no ecrã do computador, as ideias se alinhassem com mais clareza e ligeireza. Enquanto esperava pela ligação, pensou no jantar. Não tinha deixado nada preparado, lá tinha de inventar qualquer coisa, com os ingredientes mais económicos. Um empadão era uma boa ideia, rendia muito, talvez desse para o dia seguinte. Lembrou-se que, no dia seguinte, o filho mais velho ia a uma visita de estudo da escola. Ainda tinha de lhe dar dinheiro, e agora não dava jeito nenhum, tão perto do fim do mês.
O ecrã do computador estava à sua frente, mas só lá via o seu próprio reflexo, os olhos cansados, os vincos aos cantos da boca (tinha-os descoberto há pouco tempo, será que já lá estavam e só os via agora que sentia a alma vincada e enrugada?), o cabelo a precisar de uma pintura que lhe desse a ilusão de que os anos afinal passavam mais devagar...
Voltou a pegar na folha de papel, juntamente com a conta da luz, que estava por baixo e que tinha de ser paga até ao final da semana. Perdeu-se a olhar para o envelope com o logotipo da empresa de distribuição elétrica, a revolteá-lo nas mãos. Cada vez pagava mais. Já não sabia se era do aumento do IVA, se do aumento da tarifa, se daquele maldito inverno que não havia meio de terminar, e que a obrigava a ligar o aquecedor à noite, na sala, no quarto dos miúdos. Tinha de o ligar menos tempo, só um bocadinho antes deles se deitarem. Racionalizar as despesas, controlar os gastos! Difícil era saber onde racionalizar mais!
Recostou-se na cadeira, a olhar para o ecrã brilhante e vazio. Decididamente, estava numa crise. Uma crise de inspiração!


(Este texto integra-se numa blogagem coletiva promovida pela 
Fábrica de Letras, neste mês de janeiro com o tema Crise)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Coisas de tirar o sono

Por acaso, juntaram-se ontem à noite, no mesmo serviço noticioso, duas notícias, digamos, complementares. Enquanto o nosso Presidente da República justificava as suas declarações sobre dificuldades em pagar as despesas com as reformas que recebe, uma idosa de Alfândega da Fé, com um problema oncológico, declarava que não podia ir às consultas ao Porto, porque não podia pagar o transporte dos bombeiros, a partir de agora feito às suas custas.
Não vou fazer comentários aos rendimentos do Presidente da República. Na verdade, não me choca que ganhe dez mil euros; chocam-me muito mais os salários principescos de alguns gestores públicos ou futebolistas da nossa praça. Mas, será que falamos do mesmo país? Que abismo colossal em termos de "dificuldades em pagar despesas"! Os olhos daquela velhinha ficaram-me nos olhos. Refletiam incompreensões e interrogações. Aquela idosa não percebia porque é que, de repente, era ela que tinha de pagar pelos desgovernos da dívida soberana da República Portuguesa. Eu também não percebo. Não há outras hipóteses? Parcerias público-privadas? Diminuição das freguesias, dos deputados? Fundações, associações? Não há outras pessoas menos vulneráveis do que ela?
Será que os olhos dela não vão tirar o sono a ninguém?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ministros e cantoneiros

Realmente, há coisas que nos deixam a pensar!...
A revista inglesa The Economist resolveu, em 1984, fazer uma sondagem com previsões económicas para a década seguinte. Sondou grupos de pessoas, divididos por classes profissionais, entre os quais se encontravam  ministros, gestores de multinacionais, estudantes universitários e... cantoneiros da limpeza urbana. Dez anos depois, chegou à conclusão de que os que mais se tinham aproximado dos resultados corretos tinham sido os gestores e os cantoneiros. 
Agora vão repetir a experiência. Consta que o Presidente dos Estados Unidos da América já anda aflito,  porque os cantoneiros prevêm que Obama não será reeleito.
Mas o que me ocorre pensar é que os ministros andam decididamente muito mais afastados da realidade do que as pessoas comuns!

sábado, 21 de janeiro de 2012

A Música anda por aí!

Graças a uma colaboração entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a música anda por aí, por Lisboa, ouve-se nos bairros, encontra-se nos museus, espera-nos nos Palácios, até nos surpreende nos Paços do Concelho. Durante todo este mês há concertos dos solistas da Orquestra. Consegui assistir a dois. Um concerto dos instrumentos de sopro, em Benfica, e outro de cordas e flauta, no Museu do Oriente. O primeiro trouxe Vivaldi, Rossini, Gounod. O segundo foi um mergulho no génio de Mozart. Nos dois casos, os concertos foram comentados pelo musicólogo Rui Campos Leitão. No seu estilo descontraído, apresentou os instrumentos, contou pormenores da vida dos compositores e do contexto social, chamou a nossa atenção para aspetos da execução musical e das peças que, de outra forma, talvez nos passassem despercebidos. Enfim, fez-me lembrar uns concertos que eram transmitidos na televisão quando eu era pequenita, comentados por um maestro que tornava tudo tão fascinante que eu o acuso, sinceramente, de ter sido um dos responsáveis pelo meu gosto pela música.


A música anda por aí. Gratuitamente. O que me parece outra excelente proposta para ocupar os nossos fins de tarde neste inverno de crise.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A igreja mais antiga de Portugal

A lápide lá está a atestar a data da edificação: 912. O que significa que esta igreja perfaz este ano 1100 anos e,  ao olharmos as pedras e os arcos que a compõem, vemos mais do que pedras e arcos. Vemos testemunhas de correrias de cristãos e mouros que, à época, ainda antes da formação de Portugal, disputavam estes territórios. Vemos uma demonstração de religiosidade sentida e que necessita de se afirmar, numa zona recém-conquistada aos infiéis. Vislumbramos uma época de recursos escassos e soluções tecnológicas ingénuas. Mas conseguimos adivinhar também uma época de trocas económicas e culturais, visível nas influências diversas e bem heterogéneas desta pequena igreja.
Falo da Igreja de São Pedro de Lourosa, situada no concelho de Oliveira do Hospital. Podia acrescentar aqui imensos pormenores arquitetónicos e artísticos, mas o propósito deste blogue não é científico, por isso não me vou alargar em considerações que podem ser encontradas aqui ou aqui. Deixo este desafio para um passeio, neste ano de crise em que, provavelmente, todos temos limites mais apertados para as nossas opções de férias ou fins de semana. Neste domingo, celebra-se a missa que dá início às comemorações jubilares da igreja. Mas, se não pudermos lá ir no domingo, parece-me um excelente destino para um passeio na primavera que já se avizinha. Eu vou de certeza!


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ano do Dragão

Para os Chineses, começa durante este mês (mais precisamente lá para dia 23) o ano do Dragão. É um signo poderoso, ligado a coisas positivas. Segundo parece, é um bom ano para casar - esqueçam essa história de ser bissexto! Também é um bom ano para ter filhos, iniciar negócios, pedir empréstimos para lançar projetos. Tudo dará certo, porque o Dragão protege os corajosos e audazes. E este é um Dragão de Água, propiciador da felicidade.
Que refrescante saber de uma previsão para este ano que não inclui as palavras "crise", "austeridade", "cortes", ou mesmo "fim do mundo"! Ou será que as boas notícias funcionam só para a China?


sábado, 14 de janeiro de 2012

Postal de Lisboa XVIII – Árvores de Interesse Público


Quantas vezes caminhamos por Lisboa, tão apressados que nem nos damos tempo para apreciar o que está à nossa volta! Mal olhamos para os prédios, as pessoas, os nossos sentidos concentrados no trânsito, ou no trabalho que nos espera nesse dia. E, no entanto, quantas coisas interessantes esta cidade tem para mostrar! Por exemplo, as árvores. Como eu ando sempre de nariz no ar, dá-me para reparar nas árvores de Lisboa. Felizmente ainda não inundámos a cidade de palmeiras, na tentativa de a transformar numa espécie de cidade californiana ou caribenha. Mas o clima é propício e muitas árvores do mundo imenso que explorámos foram trazidas para Lisboa e aqui se desenvolveram bem. Às vezes, até nos acolhemos à sombra destas belas árvores, nas tardes soalheiras, sem nos apercebermos do valor do património que nos protege das inclemências do sol.
Algumas dessas árvores têm tanto valor que foram declaradas Árvores de Interesse Público. As razões podem variar. Podem ser árvores muito antigas (há algumas do tempo dos Descobrimentos, até da fundação de Portugal). Podem ser árvores de espécies raras, ou então de formas tão harmoniosas ou tão bizarras que merecem preservação.

(Cipreste do Buçaco, no Jardim França Borges, no Príncipe Real)
A maioria destas árvores está situada em parques e jardins da capital. No entanto, algumas encontram-se isoladas, no meio dos passeios, nas ruas, à mercê da poluição, e até do vandalismo de quem nada sabe e nada quer preservar. Uma das minhas preferidas é um belíssimo lodão-bastardo (nome científico Celtis australis L.), que se ergue indiferente aos automóveis no centro da Avenida de Berlim. 
(Lodão-bastardo, na Avenida de Berlim)
Outra, junto à Sé de Lisboa, no Largo do Limoeiro, é uma Bela-Sombra (nome científico Phytolacca dioica L); o próprio nome aponta a sua função predileta. Enorme, cheia de espaços no tronco onde apetece esconder e brincar, estende-se pelo passeio, obriga-nos a rodeá-la, mas se calhar não a cuidar dela como merecia.
(Bela-Sombra, no Largo do Limoeiro à Sé)
Das mais de 600.000 árvores que existem em Lisboa, foram classificadas como Árvores de Interesse Público 19 povoamentos (conjuntos arbóreos) e 65 árvores isoladas. A Câmara Municipal de Lisboa está a organizar circuitos para dar a conhecer esta parte do património da cidade, o que me parece uma excelente ideia.
Mas elas já aí estão, para nosso deleite. Altas e orgulhosas, de formas estranhas, frondosas e convidativas, ou antigas e decrépitas. De interesse público.
(Fotografias tiradas do site da Autoridade Florestal Nacional, Árvores Monumentais de Portugal)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Não sou Maçon!

Numa altura em que só se fala da Maçonaria e os seus membros parecem sair de baixo de cada pedra como cogumelos em tempo de chuva, tenho de fazer uma declaração: não sou Maçon! É que parece que já vamos sendo poucos! E confesso que me faz alguma impressão esta pujança de uma sociedade secreta numa sociedade que se diz livre e pautada pelos mesmos valores que a Maçonaria defende e ajudou a implantar, desde os tempos das Revoluções Liberais e republicanas. A não ser que as elites que declara recrutar tenham vergonha de ir aos Centros de Emprego da sua zona de residência e exibam este avental, em vez de um curriculum-vitae. Não sei, que eu não sou de intrigas, ao contrário de certas sociedades secretas!...
De qualquer forma, não resisto a partilhar este texto de António Marques, publicado hoje no Inimigo Público:

Portugueses percebem que Maçonaria serve para subir na vida e 700 mil desempregados deixam de fazer fila no Centro de Emprego e fazem fila na Loja Mozart

Bem dizia o grande Eça de Queiroz que Portugal é uma choldra. E não é que a secretíssima Maçonaria virou tema de conversa nos cafés, entre minis e tremoços, como se fosse o Benfica, sendo os membros da Maçonaria já tão conhecidos como Aimar, Saviola e Cardozo!
Todos os dias, surgem na TV e nos jornais, políticos e empresários com ar embaraçado, negando serem maçons e jurando a pés juntos nunca terem estado numa reunião maçónica. Porra, que exagero, até parece que são acusados de violar putos da Casa Pia na casa de Elvas! E os que se assumem maçons dizem que as reuniões se limitam ao convívio entre membros, como se a Loja Mozart fosse uma espécie de Alunos de Apolo.
É que há coisas sobre as coisas mais vale dar uma boa gargalhada!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Fumar? Onde?

Hoje, segundo parece, saiu a público outro estudo sobre o tabagismo que indica claramente que fumar à entrada dos estabelecimentos afeta também o ambiente no interior. Imediatamente se ouviram as vozes usuais, clamando pela proibição total do fumo ou, pelo contrário, clamando contra os fundamentalismos anti-tabágicos. Não tenho nenhuma solução mágica. Mas tenho observado algumas coisas que gostava de partilhar.
Mas primeiro uma declaração de interesses (agora está na moda esta expressão!):
Não fumo, mas não sou fundamentalista em relação ao tabaco. Fumei durante muito tempo, desde os quinze anos. Depois, quando engravidei do meu primeiro filho, deixei de fumar. E continuei a fumar e a deixar de fumar regularmente, até que deixei de vez. Não foi propriamente por medo dos efeitos do tabaco, mas porque com os filhos pequenos não tinha as mãos livres o tempo suficiente para pegar num cigarro! Hoje, se me apetece fumar um cigarrinho não me impeço de o fazer, o que acontece uma ou duas vezes por ano, depois de uma jantarada com amigos!
Devo acrescentar também que acredito nas liberdades individuais, até de fazer coisas estúpidas e que nos prejudicam. Já me incomoda mais que os meus impostos sejam utilizados para tratar as consequências desses atos prejudiciais livremente assumidos.
Lembro-me de, durante muito tempo, se fumar livremente nas salas dos professores. Porque efetivamente incomodava e prejudicava quem não tinha culpa nenhuma e não era fumador, essa situação foi proibida e foram criadas salas para fumadores. Na minha escola, havia uma sala anexa à sala dos professores para onde iam os fumadores. Era pequena, e eles queixavam-se de que o ambiente ficava toldado de nuvens de fumo e pesado, mesmo com as janelas abertas. Mas a escolha era deles, certo? Havia também uma saleta para os funcionários fumadores. Os alunos não podiam fumar no recinto escolar, o que não me parece mal, embora sempre houvesse alguns mais rebeldes que se escondiam a fumar atrás dos pavilhões. Tal como no nosso tempo de escola, não é?
Entretanto, há alguns anos, surgiu a proibição total de fumar dentro do espaço escolar. Fecharam as saletas dos fumadores, mas eles não deixaram de fumar, evidentemente. Então, tal como aconteceu em todo o lado, os fumadores vieram para a rua fumar. Hoje, em todos os intervalos, há grupos de professores e funcionários a fumar à porta da escola. Alunos também, claro, e cada vez são mais, ou não tivessem ali à vista o exemplo do comportamento adulto, que eles gostam de imitar embora nunca o admitam. Às vezes, são mesmo os seus professores preferidos que ali estão, figuras de referência para miúdos que tantas vezes não as encontram em casa. O espaço à volta das árvores está repleto de beatas. Um caixote do lixo, pendurado num candeeiro a dois ou três metros do portão principal da escola, foi transformado num enorme cinzeiro; a tampa é utilizada para para apagar os cigarros, que por ali ficam, a enfeitar a rua. 
Que espetáculo deplorável! Não vale a pena chamar a atenção para estes comportamentos. Depois de um olhar surpreendido, viria a conversa do costume: "Qual é o problema? A rua é livre, aqui faço o que me apetece!" Claro, sem dúvida! Mas isto deixa-me a pensar. Afinal, os fundamentalismos nem sempre têm os resultados esperados.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Vítimas colaterais

Neste fim de semana que passou, mais um tremor de terra fez estremecer o Japão. Nada de estranhar, sendo uma zona de alta atividade sísmica. Nada também que se compare com o enorme sismo que atingiu o Japão há quase um ano, no dia 11 de março de 2011. Nesse dia, eram 6h46 em Portugal quando um sismo de magnitude 8,8 na escala de Richter sacudiu as ilhas japonesas, o mais forte no Japão desde há 140 anos, o sexto mais forte no mundo desde que há registos. Houve milhares de mortos. Seguiram-se dois tsunamis, que devastaram as costas japonesas. Uma onda de 14 metros atingiu a central nuclear de Fukushima I, inundando equipamentos e provocando explosões.
Sabemos o que se passou a seguir. Lembramo-nos das imagens das populações evacuadas das áreas expostas às fugas radioativas da central, dos alimentos contaminados, do medo que se instalou de um desastre nuclear em larga escala. O governo japonês garantiu a desativação da central logo que fosse possível aceder à zona perigosa. Vários governos, como por exemplo o alemão, recuaram na aposta na energia nuclear. E a vida continuou.
Poucos falaram noutras vítimas do desastre, os animais deixados para trás na pressa da evacuação. As imagens que vinham do Japão, mostravam-nos salas de aula com pequenas mochilas abandonadas, quartos desarrumados e, ao mesmo tempo, instalações onde vacas esperavam ainda pela ordenha do dia, ou recintos onde porcos desorientados esperavam pela morte. Algumas dessas imagens podem ser vistas aqui. O que aconteceu a esses animais?
No verão passado,  a National Geographic enviou o fotógrafo David Guttenfelder para a zona de exclusão à volta da instalação nuclear de Fukushima. As fotografias vieram a público na revista de Dezembro de 2011. Encontrou, entre muitos outros destroços, animais de companhia e de quinta que vagueavam por ruas desertas de gente: vacas, porcos, cães, gatos, até avestruzes. Muitas vezes desafiando barreiras da polícia e barricadas, equipas de voluntários conseguiram salvar e descontaminar alguns animais, devolvendo-os aos seus donos. Outros foram morrendo, de fome ou de doença. Pobres animais, são vítimas inocentes de uma situação que não podem evitar. São danos colaterais de um desastre que não provocaram, mas do qual sofrem as consequências. 
Só quis que não morressem esquecidos.


(Dois cães numa rua abandonada de Okuma, perto de Fukushima. Fotografia de David Guttenfelder)

domingo, 8 de janeiro de 2012

Portugal visto pelos carteiros

Ainda se encontram iniciativas interessantes, originais, criativas!
Os CTT decidiram distribuir aos seus carteiros máquinas fotográficas descartáveis e desafiá-los para fotografarem o pequeno mundo em que circulam diariamente. E os carteiros aderiram, tirando milhares e milhares de fotografias que foram depois visionadas e escolhidas por um júri. Foram selecionadas 200 fotografias, expostas até hoje no edifício dos CTT, na Rua de São José, em Lisboa.
É uma exposição tocante, que nos mostra um Portugal esquecido e atrasado, o Portugal profundo, como se costuma chamar. Recantos isolados do nosso país, locais que parecem parados no tempo, pormenores pitorescos, rostos expressivos. Retratos de pessoas que, por vezes, têm no carteiro um dos poucos contactos com o mundo exterior, seja numa remota aldeia transmontana, seja num prédio de um subúrbio de Lisboa. Os animais que os recebem nos quintais, as caixas de correio improvisadas e improváveis. Em resumo, momentos, pormenores. Registados pelos olhares atentos e cheios de sensibilidade dos carteiros.
Para quem não conseguiu ver a exposição em Lisboa, há a boa notícia de que ela irá circular pelo país. Se, ainda assim, não for possível, resta um livro editado pelos Correios que guarda as melhores fotografias. Para memória futura.


(Fotografia premiada do carteiro Álvaro José Azevedo, de Vila Real)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Postal de Lisboa XVII – As hortas na cidade

Uma das coisas que tem graça em Lisboa é a mistura de urbanidade e ruralidade. Provavelmente, tem a sua razão de ser nas vagas de migrantes internos que, pressionados pela necessidade laboral e económica, vieram viver para Lisboa e engrossar a população da cidade ao longo do século XX. Vieram, mas trouxeram consigo a nostalgia do campo onde foram criados, o hábito da horta ao pé de casa. E criaram as suas próprias hortinhas, onde era possível, nos terrenos baldios, nas bermas das estradas, nas encostas que levam às grandes urbanizações onde vivem. Todos nós já vimos estas hortinhas, espalhadas pela cidade. Têm uma cerca mal amanhada, uma barraquinha para guardar as ferramentas e utensílios daquela pequena lavoura, umas filas de couves a separar as batatas dos tomateiros. Aos fins de semana, logo pela manhã, vêem-se por lá os saudosos dos campos, de enxada em punho. Por vezes, estas pequenas hortas compõem a pobre ementa semanal de quem faz muitas contas para chegar ao fim do mês. Confesso que até eu já pensei ter uns vasinhos com salsa, cebolinho, funcho e outras ervas aromáticas a enfeitar a minha varanda.
Esta situação não surge apenas em Lisboa, claro. Há até cidades que disponibilizam terrenos específicos para cultivo e usufruto de quem quiser. Mas aqui, em Lisboa, assume um cariz um pouco anárquico e transgressor, que tem muito a ver com o nosso próprio carácter.
Mas nada me preparava para o que encontrei, em plena rua da Baixa de Lisboa. Na Rua do Cais de Santarém a necessidade e a criatividade juntaram-se e a horticultura invadiu os próprios canteiros dos passeios. E, junto das árvores, as couves e os feijoeiros cresceram viçosos, regados pela mesma água que limpa regularmente as ruas e passeios.


As fotografias que ilustram esta pequena crónica são já do verão de 2011. Mas não posso deixar de me interrogar se, com o crescimento da crise, com o avanço da inflação, com o aumento do desemprego, não iremos assistir à conquista das ruas por essa empreendedora horticultura doméstica.
Suspeito que, neste ano de 2012 que todos insistem em nos recordar que vai ser difícil, ainda vamos ver os nossos jardins transformados em graciosas hortas e as rosas substituídas por repolhos e couves-flor.
(Fotografias de Teresa Diniz)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Esperança

Esperança -  Disposição do espírito que induz a esperar que uma coisa se há-de realizar ou suceder; Expectativa; Confiança.
(Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)

Numa iniciativa interessante e criativa, a Porto Editora desafiou os protugueses a definirem, com uma palavra, o ano que agora terminou. Sem grande surpresa, a palavra mais votada foi "Austeridade". Foi a palavra mais ouvida e mais receada, com efeitos que ainda vamos sofrer mais profundamente neste ano recém-nascido de 2012. No entanto, e aí sim, confesso que fui surpreendida, a segunda palavra mais votada foi "Esperança". Esperança de que a crise se há-de realizar? Penso que não é esse o sentido, isso já nós temos como certo. Creio que, apesar de tudo, os portugueses confiam no futuro. Com ou sem Euro. Com mais ou menos Europa. Com mais ou menos entre-ajuda. Com mais um apertão no cinto, com menos uns euros no bolso. Apesar de toda essa incerteza, continuamos a fazer a nossa vida, a fazer humor à conta da crise, e a esperar que ela passe o mais rapidamente possível.
Afinal, somos uma nação muito antiga, das mais antigas desta já velha Europa. Já ultrapassámos outras crises. Havemos de ultrapassar esta, também. Haja Esperança!
(Esperança também é uma das virtudes teologais. Mas não me parece que o forte dos portugueses seja a teologia!) 


(Caravela Boa Esperança, imagem da net)