terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Os inimigos públicos

Como toda a gente sabe, foram finalmente terminadas as obras de  restauro da belíssima Igreja de São Vicente de Fora. É uma igreja muito ligada à minha família, por diversas razões, e fiquei feliz com a sua reabertura ao público.
E, no entanto... houve uma notícia que, positivamente, me esmagou. Durante as obras de limpeza, foram removidas dos telhados da Igreja de São Vicente de Fora, nada mais nada menos do que quarenta toneladas de excrementos de pombo. 40 toneladas!
De repente, assaltou-me a imagem das nossas cidades cobertas de excrementos de pombo. Os nossos edifícios coroados de fezes, as nossas estátuas manchadas de descargas intestinais. Lembrei-me de uma entrevista que li, há tempos atrás, com um vereador brasileiro de Curitiba que enumerava as doenças eventualmente transmitidas pelos nossos amigos pombos, com os quais eu até simpatizo, e que iam da salmonelose à ornitose, passando pela transmissão dos piolhos de pombos, ácaros que vivem nos seus corpinhos penugentos. Afirmava ainda o dito vereador que as fezes dos pombos, contaminadas por fungos e bactérias, podem causar doenças respiratórias e afectar o nosso sistema nervoso central. 
Quantas toneladas de excrementos de pombo estarão espalhadas sobre os telhados das nossas cidades? Será que o nosso sistema nervoso central foi afectado? Poderá ser esta uma explicação para a apatia cívica que por aí encontramos?
Será por isso que a nossa Ministra do Ambiente se chama Pássaro?

domingo, 23 de janeiro de 2011

Eleições e cupcakes

Se bem me apercebi, houve hoje milhares de pessoas que tiveram dificuldades em saber o seu número de eleitor e, portanto, conhecer a sua mesa de voto. Na verdade, confesso que, por mim, não estava muito preocupada. Há trinta e três anos que sou eleitora, e uma eleitora assídua e responsável. Nunca falhei um acto eleitoral, consciente de que o meu voto, como o de todos, é importante e faz a diferença. E no entanto, este ano, a desmotivação tomou conta de mim. Seria a crise, anunciada desde há anos, e que, de tão insidiosamente instilada no nosso espírito, nos deixa sem capacidade de reacção a todos os abusos que vimos sofrendo? Seria a falta de perspectivas de melhoria, a quebra da esperança? Seria o aumento dos preços de todos os bens e serviços que não posso deixar de utilizar, por vezes sem o entender cabalmente, como no caso da gasolina? Seria a visão confrangedora do meu recibo de vencimento deste mês? Bom, talvez fosse tudo isto junto. A verdade é que não me apetecia ir votar. Pela primeira vez, em trinta e três anos.
Mas o meu filho votava pela primeira vez. E queria fazê-lo, achava importante exercer o seu direito de escolha, de expressar a sua opinião. O problema esteve no Cartão de Cidadão. Por qualquer razão inexplicável, não tem lá inscrito o número de eleitor. Nas mesas de voto, nas Juntas de Freguesia, não há um descodificador que permita conhecer esse número. O sistema informático da Comissão Nacional de Eleições bloqueou, não dando resposta. E o sistema da mensagem por telemóvel? Bem, esse funcionou, embora com horas de atraso. O meu filho lá soube o seu número de eleitor cinquenta minutos antes das urnas fecharem!
Pela primeira vez, não me apeteceu ir votar! Fui, com o meu filho, a escassos minutos do fecho das mesas eleitorais! Não me apeteceu pensar nas eleições, nem nos candidatos, nem nos resultados. 


Em vez disso, fui fazer cupcakes. E acho que foi uma boa alternativa e uma forma mais proveitosa de aproveitar o dia das eleições.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Gripe!

Pois é, tenho a  mania que sou uma mulher forte, que sou eu que determino o que me acontece, que sou o agente do meu próprio destino. Mas, de vez em quando, aí está a Natureza a mostrar quem verdadeiramente manda. 
Algures, no final da semana passada, um vírus, silencioso e dissimulado, instalou-se no meu organismo. Começou a enviar pequenos sinais, um ligeiro mau-estar, uma cabeça pesada. A partir de domingo à noite, instalou-se a gripe, daquelas à antiga portuguesa, com todo o seu cortejo de sintomas desagradáveis: uma febre persistente, dores em todos os ossos, músculos, articulações, mesmo aqueles que eu não desconfiava que tinha, ataques intermináveis de tosse!... Há anos que não me lembro de ter uma gripe assim! Por mais que quisesse, o corpo não obedecia ao espírito, também ele bastante nublado!
Só me apetece enrolar sobre mim própria, como os gatos, e ficar sossegadinha à espera que passe o mau tempo.
Então, senhora que tem a mania que é forte, afinal quem é que manda?

domingo, 2 de janeiro de 2011

Carminda

Não tinha nada que jogasse a seu favor. Era velha, preta e gorda. E cada um destes adjectivos tinha uma carga negativa colada, era um rótulo recheado de preconceitos e ideias feitas. No entanto, Carminda era muito mais do que isso. Carminda, ou Minda, como lhe tinham chamado durante tanto tempo, tinha uma história de vida, sentimentos e emoções. Tinha uma família que não lhe ligava tanto como ela desejava, tinha um senhorio que lhe vinha pedir pontualmente o dinheirinho da renda, tinha duas vizinhas com quem trocava umas conversas sobre as doenças e o estado do tempo. Tinha recordações de tempos mais felizes. Também tinha pouco dinheiro, que gastava na mercearia, na farmácia e com o doidivanas do neto mais velho, que volta e meia lá ía a casa e que a conquistava com as gargalhadas súbitas que deixava espalhadas pela casa.
Carminda arrastava os pés pela rua, na direcção da paragem do autocarro. Carregava apenas o saco que tinha ido encher à Instituição onde recebia o almoço diário, que lhe dava para o dia inteiro. Passava por pares de namorados, grupos de jovens sorridentes e ruidosos, famílias atarefadas. Gostaria de se sentar, mas era como se ninguém a visse, ninguém lhe cedia um lugar no banco de espera. Sentia-se transparente. Um rapaz levantou-se e atravessou a rua a correr, numa súbita urgência, e Carminda aproveitou para se sentar, com um suspiro. A senhora que estava sentada ao lado mudou a carteira de sítio, com um olhar desconfiado. Carminda encolheu-se, como que a pedir desculpa por ali estar.
O autocarro chegou e todos se chegaram à frente. Um miúdo mais apressado empurrou-a e logo um amigo o puxou para trás: “Cuidado com a velha, pá!”  Carminda fingiu que não tinha ouvido nada e avançou pelo corredor do autocarro, com o seu passo cansado, novamente à procura de um lugar. Não sabiam nada sobre ela; só conheciam os seus rótulos.


(Este texto foi construído para o desafio de Janeiro da Fábrica de Letras,
 com o tema "Preconceito")