segunda-feira, 31 de maio de 2010

Seis coisas inéditas

Que tarefa difícil me atribuiu o Valdeir, do blogue Ponderantes: contar seis coisas inéditas sobre mim, coisas que a maioria dos meus leitores não conheça. Bem, há coisas privadas, claro! Das outras, que posso contar, lembrei-me destas.

1 - Quando era jovem,queria ser hospedeira de bordo, devido à minha atracção pelas viagens, mas a minha fraca figura (não chego bem ao metro e sessenta de altura!) e os óculos, tiraram-me rapidamente as ilusões.

2 - O meu primeiro namorado, ainda na escola primária, foi o filho dos vizinhos do 3.º andar, mais velho três anos do que eu. Namorávamos aos gritos, tardes inteiras, eu no quintal, ele na varanda do 3.º andar. Quando nos encontravamos na rua, não nos falavamos!

3 - Quando acabei o curso, com 22 anos, ganhei uma bolsa de estudo em Perugia, Itália. Aproveitei para passear por lá, de mochila às costas, a acampar onde calhava (até na praia!). Foi um tempo muito feliz, que me marcou para sempre.

4 - Tive muitas dificuldades para engravidar e ter o meu primeiro filho. Tive, inclusivamente, de fazer tratamentos de fertilidade. A minha filha veio depois, foi um presente que a vida me deu.

5 - Tenho uma relação de dependência com as palavras. Todos os dias tenho de ler, de me isolar uns momentos para ler, nem que sejam algumas páginas. Também sinto uma grande necessidade de escrever. Às vezes, as palavras brotam de dentro de mim com tamanha força que, se for preciso, tenho de me levantar da cama para escrever.

6 - Tal como penso na vida, também penso na morte. Não muito, sem drama nem ansiedade. Não sei quando nem como será, evidentemente. Mas os meus filhos sabem que quero ser cremada, ao som do The Great Gig in the Sky, dos Pink Floyd. E essa ideia dá-me uma extraordinária tranquilidade.

Bem, basta de confissões por hoje.
Vou passar este desafio à Teresa Palmira, é o meu presente de aniversário, porque eu sei que ela gosta de desafios. E não faço mais nomeações. Quem quer continuar e contar coisas inéditas sobre si próprio? Fico à espera!


sábado, 29 de maio de 2010

Leis obsoletas

Muitas vezes queixamo-nos de que esta ou aquela lei é desajustada, ou antiquada, ou simplesmente idiota. E, muitas vezes, temos razão. O que dizer então destas leis que a seguir se apresentam? 

Em Novembro de 2007, o canal televisivo inglês UKTV Gold divulgou os resultados de um inquérito feito a partir de uma pesquisa sobre leis antigas que, apesar de obsoletas, nunca foram revogadas. Os promotores da iniciativa criaram uma lista e pediram aos espectadores que votassem nas que consideravam mais absurdas. Eis aqui algumas das mais votadas:

- Em Inglaterra é ilegal morrer no edifício do Parlamento.
- Em França, é ilegal atribuir a um porco o nome de Napoleão.
- No Vermont, EUA, as mulheres têm de obter por escrito o consentimento dos maridos para poderem usar dentadura.
- Na Indonésia, a masturbação é punida com a morte por decapitação.
- No Bahrein, os médicos do sexo masculino só podem examinar os órgãos genitais de uma mulher através do reflexo de um espelho.
- Na Suíça, os homens não podem urinar de pé depois das dez da noite.
- No Reino Unido, é ilegal entrar nos edifícios dos parlamentos com uma armadura vestida.
- Em York, é permitido matar escoceses, desde que estes se encontrem dentro dos limites das antigas muralhas da cidade e estejam armados com arco e flecha.
- No Reino Unido, uma mulher grávida pode fazer as suas necessidades fisiológicas onde bem entender, nem que seja no capacete de um agente da polícia.

(Será que é escocês? Poderemos matar à vontade?)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Artes do Claustro

Eu sei que não devia fazer este post agora, no fim de Maio, quando estamos todos a pensar como havemos de recuperar as linhas perdidas durante o ano, para apresentarmos um corpinho mais ou menos jeitoso nos areais deste verão. Mas, não me importo, toda a gente sabe que eu sou irremediavelmente gulosa.
Vem este dasabafo a propósito da mostra de doces conventuais que decorre, a partir de hoje, no Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa. Eu não vou perder a oportunidade de passar por lá e provar estas delícias. 





Passo a palavra:

"A partir de amanhã, e até domingo, dia 6 de Junho, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, decorre a 1.ª Mostra de Produtos Conventuais. Bolachas, compotas, licores e também objectos religiosos, ícones, pinturas, esculturas, artesanato e outros estarão à disposição dos interessados em conhecer o que se faz nos mosteiros e conventos portugueses.



Para já, são 14 as ordens e congregações religiosas (mais um seminário e um centro de espiritualidade) participantes nestas Artes do Claustro. A ideia começou por ser pensada só para a área de Lisboa, mas rapidamente foi alargada a todo o país, se bem que ainda a um âmbito reduzido.

"Vamos ver e, se correr bem, será para continuar", diz ao PÚBLICO Sandra Costa Saldanha, directora do Serviço de Património do Patriarcado de Lisboa. O ritmo anual e o alargamento da participação ao maior leque possível de mosteiros e conventos são as duas ideias em perspectiva.

A mostra será inaugurada às 12h30, está aberta todos os dias (excepto segunda) das 12h às 22h (sextas e sábados até às 24h). Nos dias 29 de Maio, 1, 3 e 5 de Junho, haverá chá no mosteiro, às 17h, servido pelo Convento dos Cardaes. Sábado, dia 5, às 19h30, há um concerto de cravo com Flávia Castro e na sexta-feira, dia 4, um outro com o coro da Universidade Católica."

(informação retirada daqui :lisboasos.blogspot.com/2010/05/doces-conventuais-em-sao-vicente-de.html

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Uma bacia de cerejas

Dizia Mário de Andrade:
   Quando temos uma bacia cheia de cerejas, comemos com displicência. Quando já temos poucas cerejas, até lhes roemos o caroço.

Tenho dado comigo a pensar nesta frase e em como a bacia de cerejas se assemelha à nossa vida. Quando somos jovens, sentimos que temos toda a vida pela frente. Fazemos experiências e vivemos o dia-a-dia com displicência, temos a sensação de que podemos tudo e temos tempo para tudo. Se não for naquele momento, será noutro. Se daquela maneira não resultar, experimentamos outra.
Depois, os anos passam. Começamos a perceber que já temos menos cerejas na bacia do que aquelas que já comemos. E passamos a apreciá-las melhor. Cada pormenor, cada sensação, cada dentada na cereja é importante. 
Sinto isto mesmo em relação à vida. Cada pequena coisa é valiosa. Uma palavra carinhosa, um gesto. Um chá com uma amiga, uma gargalhada, uma confidência. Um pôr-do-sol, um raio que espreita inesperadamente pelo meio de uma nuvem. A primeira flor que desponta no jardim. Uma gaivota que plana, junto ao mar. Uma música que ouço, um quadro de que gosto, um livro que me emociona. Uma partilha, uma cumplicidade, uma recordação, uma descoberta.
Por isso, já não estou disponível para me aborrecer com coisas que não o merecem. Não estou disponível para birras, esquisitices, amuos ou quaisquer outras manifestações idênticas. A vida é demasiado preciosa. 


terça-feira, 25 de maio de 2010

Aniversário

No dia 24 de Maio de 1959, um jovem casal lisboeta comprou bilhetes para ir ao cinema. A senhora, grávida, começou a sentir dores de parto nessa altura, mas decidiu que não ia perder a sessão de cinema. Quando o filme acabou, dirigiu-se à Maternidade Alfredo da Costa, porque havia uma rapariga cheia de vontade de nascer. E nasceu mesmo, por pouco nascia no corredor. Eram quase três horas da manhã de 25 de Maio. 
Já passaram uns aninhos e, apesar da crise que nos cerca, gosto da vida, e procuro ver as coisas belas e positivas. No entanto, continuo uma ICD - uma Inquieta Cidadã Do Mundo. 

Parabéns a mim!



Nem Tanto...
Conheço bem sua história...
Seus defeitos, suas qualidades,
seus amores, seus medos,
seus dissabores...
Sei o que gosta de calçar,
de vestir, de comer, de beber...
E que verde
é a sua cor favorita.
Conheço seu pai, sua mãe,
sua filha,
sua neta, seus sobrinhos,
toda a sua família.
Acredito que saiba
quem são
seus amigos...
Conheço seus escritores,
seus poetas,
seus compositores, -
seus artistas preferidos.
Talvez
eu seja a pessoa
que mais sabe
da sua vida...
E ainda assim,...
nada sei.
Mas, admito:
a mulher que vejo
ao espelho
é bem parecida
comigo...


ju rigoni (2002)

Obrigada à Ju por fazer versos em que eu me revejo tanto, neste dia.
Obrigada à Teresa Palmira, que foi a primeira amiga virtual a dar-me os parabéns! É tão bom saber que se lembram de nós!
E para quem pede que eu ponha aqui uma fotografia minha, aí estou eu, no quintal lá de casa, com dez meses.


Que bela pose, não é?

domingo, 23 de maio de 2010

Máscaras em Lisboa

Ontem, Lisboa encheu-se de máscaras. Encheu-se de caras risonhas, assustadoras, animalescas. Encheu-se de cores vivas e de brincadeiras. Encheu-se de bombos, gaitas de foles e chocalhos. Foi o desfile da Máscara Ibérica.


Depois de uma alegre concentração na Praça do Município, os grupos de mascarados desfilaram pela Rua Augusta até ao Rossio. Milhares de pessoas assistiram, fascinadas, a esta demonstração da cultura popular ibérica; fotografaram, riram, participaram nos sustos e nas brincadeiras.


Estes grupos, que se afastam totalmente da ideia de Carnaval que tem vindo a expandir-se nos últimos anos e que se associa exclusivamente ao samba e ao Carnaval brasileiro, vão buscar tradições muito antigas, por vezes anteriores ao Cristianismo. Estão associadas aos interesses e necessidades das comunidades agro-pastoris da região que é hoje o Norte de Portugal e de Espanha e espelham as suas raízes célticas.


Foi alegre, colorido, genuíno. E foi uma tarde bem passada.
Acabámos a tarde nas tendinhas montadas no Rossio, a comprar queijo e linguiça de Trás-os-Montes e a beber um toupeirinho de Óbidos. A propósito, alguém sabe o que é? É uma bebida de vinho com sumo de frutos, vertida sobre uma azeitona verde. E é uma delícia, bem geladinha, num dia de calor!


(Fotografias de FAires)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Dia da Biodiversidade



A ocupação desordenada de áreas naturais, a exploração predatória dos recursos da natureza e a poluição são algumas ações humanas que têm originado sérias consequências, levando o planeta a perder cada vez mais espécies animais e vegetais.

Para chamar a atenção para o problema, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2010 o Ano Internacional da Biodiversidade. Em todo o mundo, têm sido levadas a cabo várias iniciativas, para relembrar a importância da diversidade das espécies na manutenção dos ecossistemas.

Amanhã, 22 de Maio, celebra-se o Dia da Biodiversidade. Entre a crise financeira e as medidas de austeridade, cada vez nos lembramos menos da natureza, embora ela, de vez em quando, nos mostre o seu poder soberano (achei pertinente usar esta palavra que, ultimamente, só aparece ligada à dívida pública; apesar de tudo, é bom perceber que é a Natureza quem, realmente, manda).

Para reflectirmos, trago uma frase de Pavan Sukhdev, sobre o eventual esgotamento dos recursos piscícolas, a nível mundial, em 2050:
Se as várias estimativas que temos recebido se concretizarem, em 40 anos ficaremos sem peixe.
Pavan Sukhdev é economista e consultor da ONU. Deve saber do que fala.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Como comemorar o Centenário da República?

Há pessoas com ideias verdadeiramente fabulosas.
Neste ano em que se festeja o centenário da Implantação da República em Portugal, duas deputadas independentes do PS, Maria do Rosário Carneiro e Teresa Venda, encontraram uma maneira diferente de comemorar a data: acabando com o seu feriado.
Neste ano em que o Governo se prepara para gastar cerca de dez milhões de euros para comemorar o 5 de Outubro de 1910, estas deputadas propõem acabar com esse feriado, em nome da produtividade portuguesa.
O que dizer desta criatividade e deste sentido de oportunidade?´

(Postal comemorativo da Proclamação da República)

Além deste feriado, a proposta abrange outro feriado civil (o 1.º de Dezembro) e dois feriados religiosos (o Corpo de Deus e Todos-os-Santos). Não percebo qual o critério de escolha, sinceramente. Mas penso que esta questão ainda vai fazer correr muita tinta!

terça-feira, 18 de maio de 2010

O Farol Museu de Santa Marta

Porque hoje, 18 de Maio, é o Dia Internacional dos Museus, achei oportuno destacar e divulgar um dos nossos mais recentes espaços museológicos: o Farol Museu de Santa Marta, em Cascais.


Este farol situa-se num pequeno forte com o mesmo nome, erguido na década de 50 do século XVII num esporão rochoso que avança sobre o mar e fez parte da defesa marítima de Cascais até ao século XIX.
Tenho de confessar que tenho um fraquinho por faróis. Acho-os de uma beleza quase cinematográfica, pelo modo como se elevam nas falésias, mas também pelas cores ou padrões que geralmente enfeitam as suas torres, e que os tornam mais visíveis, mesmo de longe. Fascinam-me os jogos de espelhos que aumentam a sua capacidade luminosa, os focos de luz que varrem a noite, os alarmes sonoros que avisam os marinheiros em dias de nevoeiro.


E, depois, há a sua imensa carga simbólica, da luz que nos guia no meio dos escolhos da costa e da escuridão.
É todo esse mundo, misterioso e fascinante, que pode ser agora compreendido um pouco melhor, através das salas que compõem este pequeno museu. Aí encontramos os instrumentos utilizados no Farol. Podemos assistir a um filme sobre a história dos faróis na costa portuguesa. Mas também aí vislumbramos um pouco da vida solitária e quase desconhecida dos faroleiros.
A visita ao farol-museu, que se situa à saída de Cascais, junto à marina, é livre e gratuita, embora a subida à torre do farol não se efectue todos os dias. As instalações de apoio são modernas, com acesso à internet, casas de banho e um pequeno bar.


Este farol está desactivado, mas saúdo a iniciativa que o fez voltar à vida, dando-nos a conhecer o mundo, quase ignorado, dos faróis.   
                                 

(Fotografias de Teresa e Fernando)

domingo, 16 de maio de 2010

Dia de mimos

Hoje é dia de pôr em ordem os prémios e mimos. Esta semana, recebi dois selos. 
Um é da Ematejoca Azul e diz que Este blog é um clássico. Fico sempre contente quando se lembram de mim e, por isso, agradeço. Ainda por cima, a tarefa é fácil. Primeiro, tenho de dizer qual é a minha flor preferida. Podia dizer que são todas e não mentia, gosto de cor e gosto de todas as flores, desde a florinha de campo mais humilde até à orquídea mais rara. Mas, se tiver de escolher apenas uma, então é esta a minha flor: junquilhos amarelos.


Também tenho de indicar uma mezinha doméstica que eu utilize. Esta é fácil, porque não utilizo mezinhas. Se tenho qualquer problema, voo até à farmácia mais próxima. 


O outro selo, recebi-o do Junior Vilanova, que me estraga com mimos, e afirma que Este blog é espectacular. Este tem regras mais complicadas. Vamos lá!



1. Enumerar 3 Sonhos:

- Ter tempo para escrever;
- Ter tempo para sonhar;
- Viajar sem destino e sem data para regressar (mas com dinheiro na conta bancária!)

2. Enumerar 3 pecados/tentações: 


Acima de todas, a tentação dos doces! Sou horrivelmente gulosa!
Pecados (não sei se o são), a impaciência e o pessimismo!

3. Comentar no blogue criador do selo:

Vou tentar comentar no endereço que está indicado no selo, já que o Junior só mo passou.

4. Nomear 14 blogues espetaculares. Bem, desta vez, resolvi utilizar outro critério e nomear blogues que, para mim, têm sido referências na blogosfera, pelas mais diversas razões, e com os quais tenho aprendido muito. Sei que alguns não aceitam selos, mas isso não me preocupa. Ficam aqui como um sinal do meu apreço.

Pela beleza tranquila, o Perfume de Jacarandá e o Outsider.

Pela interacção que criam entre os viajantes deste blogobairro, além da qualidade e acutilância com que nos brindam, o Grifo Planante, o Expresso da Linha e o Crónicas do Rochedo.

Pela extraordinária beleza dos seus textos, Conversas Daqui e Dali, Zambeziana e Histórias com Mar ao Fundo.

Pelos olhares que nos vão trazendo de outras paragens, Crónicas de um Vagamundo, Um olhar sobre e Intentando Recorrer el Mundo.








Por fim, embora se calhar devessem estar no prim
eiro lugar, três blogues que espalham  carinho, compreensão e gentileza: Flor de Lis, Vendo as Cores da Vida e Why not now?



Todos estes blogues são espectaculares!

sábado, 15 de maio de 2010

Será que sou TOC? Ou ICD?

Tarefa de Maio da Bloggincana:


QUEM É TOC?
 CONFESSE TUDO: VOCÊ É PORTADOR DE "TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO"? SIM, VOCÊ É UM PERIGOSO TOC? COLECCIONA, GUARDA, ARQUIVA COMPULSIVAMENTE? NÃO DEITA NADA FORA? RETÉM COISAS QUE NÃO SERVEM PARA NADA SÓ PORQUE PODEM SERVIR PARA ALGUMA COISA? LAVA AS MÃOS SUCESSIVAMENTE, VERIFICA AS PORTAS E JANELAS SEM PARAR? LEVANTA-SE PARA VERIFICAR O GÁS? CONFESSE... VOCÊ É TOC?

Bem, esta é uma boa pergunta. Será que sou TOC? 

Realmente, eu volto atrás para verificar se fechei o carro, porque o faço automaticamente e depois não me recordo. Também guardo imensas coisas inúteis, porque as deixo num sítio que depois não me lembro qual é. Mesmo as coisas úteis, às vezes, se tornam inúteis, porque não as encontrei quando me eram verdadeiramente úteis! 
Acho que sou mais ICD. Alguém sabe o que é?

Vou dar uma ajuda: Irremediável e Compulsivamente Distraída!


sexta-feira, 14 de maio de 2010

No tempo em que os animais falavam II



Quando Salomão nasceu, Salomé já tinha a idade suficiente para todos os outros animais da quinta a consolarem: “Deixe lá! Ter filhos não é a coisa mais importante do mundo!” Mas, para ela, era muito importante! Ela não sabia explicar porquê, mas sentia-se menos feminina, como se lhe faltasse qualquer coisa. Ao cair da tarde, quando se juntavam junto ao muro, todas as outras fêmeas da quinta falavam das gracinhas da ninhada. Excepto ela. Até que um dia, apareceu lá na quinta um canzarrão castanho e branco, ganiu-lhe umas frases doces ao pé da orelha, e Salomé ficou rendida. O romance não durou muito. Um dia, assim como tinha chegado, o canzarrão desapareceu. Mas Salomé não lhe sentiu a falta. Sentiu, sim, que dentro dela se agitava a vida.
Salomão nasceu num dia chuvoso. Era o maior de três irmãos, e muito parecido com o pai. Havia um pequenino, que morreu antes de Salomé se afeiçoar a ele. Também nasceu uma cadelinha, parecida com a mãe. E Salomé revia-se nos seus dois cachorrinhos. Passava o tempo a cuidar deles, a alimentá-los, a lambê-los. E a contar as suas gracinhas às outras mães, junto ao muro, ao cair da tarde.
O tempo foi passando. Salomão cresceu briguento e caprichoso. Era um cão grande, que impunha respeito a todos os animais da quinta. Quando ele ladrava, todos faziam o que ele queria. Salomé achava-o maravilhoso. Para ela, ele não era briguento, era brincalhão; não era caprichoso, tinha uma personalidade forte. Quando a Gata Branca se vinha queixar das brincadeiras violentas de Salomão, a mãe desculpava-o sempre. E, lá no fundo, sentia-se muito orgulhosa do seu rebento. Salomão liderava todas as brincadeiras e os outros jovens adoravam-no. Especialmente Lucky.
Lucky era um cachorrito pequeno, que vivia mais dentro de casa do que fora, com os outros animais. Era o “ai-Jesus” da dona da casa, que se passeava com ele ao colo, com fitinhas na cabeça, casaquinho contra o frio, coleira com bonecos e um osso de metal pendurado onde se podia ler Sou o Lucky, se me perder telefone para… Mas o que Lucky queria, realmente, era andar lá fora com os outros animais. O que ele queria era ser como Salomão. Mas Salomão não lhe dava importância nenhuma, tratava-o como um mosquito ou um adereço da dona, uma peúga, um chapéu velho, bom para abocanhar e distrair um bocado, nada mais. Lucky perdoava-lhe tudo, fingia-se forte, não gania, arreganhava os dentes a fazer de mau. E, se Salomão passava por ali, Lucky seguia-o respeitosamente, sofrendo-lhe as brincadeiras a troco de uns minutos de atenção.
Um dia, apareceu na quinta um cão amarelo, com aspecto de quem já não via um prato de ração há muito tempo. Coxeava de uma pata e ficou encostado ao muro a ver os outros comer, entre o cobiçoso e o resignado. No fim, foi rapar os restos e deitou-se a dormir. Foi ficando por ali e, ao fim de alguns dias, já tinha direito a uma malga de ração só sua. O Amarelo, como era conhecido, não pedia muito mais. Comia, dormia junto ao muro e lambia as mãos da dona da quinta, quando ela lhes levava a comida e punha água fresca. Os outros animais da quinta foram-se habituando à sua presença e não o incomodavam. Excepto Salomão, que lhe rosnava de longe. Mas o Amarelo não lhe dava conversa.
Lucky viu ali a sua oportunidade. Quando Salomão estava por perto, ladrava esganiçado todas as ofensas de que se lembrava: “Sarnento! Saco de pulgas! Vens encher a quinta de pulgas e carraças! Volta para a tua terra!” Ele sabia lá qual era a terra do outro, até podia ser ali ao lado, mas parecia-lhe que era uma boa maneira de o ofender. Às vezes, o Amarelo virava-se a ele, mas aí Lucky fugia a esconder-se entre as pernas de Salomão. E os dois encontraram ali um bom tema de brincadeira. Passavam os dias juntos, a arquitectar brincadeiras e maneiras de aborrecer o cão amarelo. Este tentava esquivar-se, mas quanto mais ele fugia mais aquela brincadeira parecia fascinante. Lucky andava feliz, junto do seu ídolo, e usufruindo de um sentimento de poder muito superior ao seu tamanho.
A pouco e pouco, as brincadeiras foram-se tornando mais duras. Era mais engraçado roubar-lhe os ossos do que rosnar-lhe ofensas. Era ainda mais divertido abocanhar-lhe a pata sã, quando ele estava a dormitar, e vê-lo fugir, a cambalear, apoiado na pata coxa. Lucky era quem tinha as ideias mais originais, passava parte do seu tempo a congeminar planos para aborrecer o outro cão e, ao mesmo tempo, agradar a Salomão.
Uma noite, gizaram um plano para meter medo ao Amarelo. Um de um lado, outro do outro, rosnavam e mostravam os dentes, enquanto o Amarelo se tentava esgueirar, encostado ao muro, de rabo entre as pernas. Quanto mais eles avançavam, mais o outro recuava, encolhido e medroso. Quando se sentiu perto do portão da quinta, o Amarelo deu um salto e correu, a coxear, pela estrada. Foi então que aquele carro apareceu. Os faróis varreram a estrada e o Amarelo voltou-se para fixar os focos de luz. Ainda teve tempo de olhar para o portão, onde os dois cães assistiam, surpreendidos, à tragédia, antes de sentir o embate do carro.
Lucky ergueu os olhos para Salomão, mas o cão só fitava a estrada, onde o Amarelo jazia, ainda de olhos fixos no portão. Lucky voltou para casa, cabisbaixo. Salomão também voltou, mas por outro caminho. Nunca trocaram palavra sobre o que se passou nessa noite. De resto, pouco falaram mais, um latido breve quando se cruzavam nos caminhos da quinta, um olhar de esguelha, e nada mais. Mas de noite, quando fechavam os olhos, era o olhar do Amarelo que os assombrava até adormecerem.


quinta-feira, 13 de maio de 2010

Até quando?

Ontem, fui confrontada com mais uma notícia de agressões dentro da escola. Passo a citar a fonte jornalística:


José Carlos, de 11 anos, da Escola EB de Lousada, deu ontem entrada no Hospital de Penafiel com vários hematomas no corpo, na sequência de uma agressão ocorrida dentro da escola. O menino terá sido agredido por um grupo de vários alunos mais velhos.
O menor garante que há mais de um mês que é vítima de agressões, sempre perpetradas pelos mesmos jovens. A mãe, Isabel Fernandes, já tinha apresentado queixa na escola, mas o estabelecimento de ensino nada terá feito para travar a violência. 'Disseram-me que não podiam fazer grande coisa. Não conseguiam controlar os passos de todos dos alunos'. Fonte:CM de 12/5/2010

Até quando vamos ter de saber de casos destes? Já tenho ouvido dizer: "Ora, sempre houve lutas na escola. Já no meu tempo era assim!" Não, não tem de ser assim. Os alunos mais novos, mais fracos, mais vulneráveis, não podem ser agredidos ou humilhados sem que a escola actue. A Escola não pode ser um espelho passivo da sociedade, tem de ser um factor de mudança, de aprendizagem. Na Escola, devem ser incutidos valores de sã convivência e de cidadania, não de luta livre e de "salve-se quem puder". A Escola não deve reproduzir e ensinar a Lei da Selva.
Este é um caso, como muitos outros. Será mais um caso para arquivar?
Até quando vamos ter de saber de casos destes?

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Ler devia ser proibido

Lembram-se do Book, aquele dispositivo bio-óptico inovador que vos mostrei aqui? Pois, a propósito do Book, a We enviou-me outro video, absolutamente excepcional, e que eu quero partilhar com todos. Este pequeno filme explica-nos como ler pode ser perigoso e porque devia ser proibido. Tremendamente provocador, finamente irónico, este filme faz-nos reflectir. Mas eu não vou desvendar mais nada, convido-vos a ver, e a enfrentar as consequências. Mesmo arriscando-nos a ficar tremendamente mais humanos.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Imagens que contam histórias

Neste fim de semana, aproveitando o pretexto da chuva que nos obrigava a programas dentro de portas, fui visitar a exposição da World Press Photo 2010. Gosto muito de ver esta exposição, tento não perder, porque é um retrato do nosso mundo, feito de muitos retratos. Aquelas fotografias não definem o nosso mundo na totalidade, felizmente. Há muitas coisas bonitas a acontecerem todos os dias, pequenas conquistas e vitórias, descobertas, acontecimentos felizes que dão sentido ao nosso dia-a-dia. Mas as imagens que ali vemos também são pedaços do nosso mundo, e é bom que não percamos isto de vista. Há imagens tremendamente chocantes e violentas, como a lapidação de um homem na Somália, por adultério, ou as fotografias tiradas num matadouro. Outras que nos atingem pelo inesperado da situação que retratam, como o soldado apanhado de repente numa situação de batalha, com as suas cuecas que afirmam "I love NY". Há imagens de uma grande ternura, como o soldado que se despede dos filhos. Algumas dão-nos vontade de chorar e dizer "Não quero ver isto, não pode ser verdade!", como a imagem da menina morta na Faixa de Gaza. Mas aquilo que ali vemos não é um filme de terror, não podemos desligar a televisão, nem mudar de canal. Só podemos fechar os olhos, mas é inútil, porque tudo continua a acontecer, nós apenas não o sabemos, não tomamos consciência.


A fotografia vencedora é a de mulheres que gritam, nos telhados de Teerão. Cada imagem conta uma história. Parte está lá, escrita. Outra parte da história, podemos nós imaginá-la com a nossa sensibilidade. 


Vale a pena visitar a exposição e ver estes pedaços do nosso mundo, retratados em imagens que contam histórias. No Museu da Electricidade, até dia 23 de Maio.

domingo, 9 de maio de 2010

Dardos na Blogosfera

Recebi um prémio do meu querido amigo Junior Vilanova, do blogue "Contatos Imediatos", o prémio Dardos. Segundo ele diz, "trata-se de um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc..." Só posso agradecer este prémio e estas palavras, que são um reflexo da gentileza do Junior.





Entretanto, as regras do prémio são:


A. Exibir a imagem do selo no seu blog. 

B. Linkar o blog pelo qual recebeu a indicação. 

C. Escolher outros quinze blogs a quem entregar o prémio Dardos. 

D. Avisar os escolhidos. 



Escolhi quinze blogues para entregar o meu prémio. O meu critério de escolha foi serem blogues pequenos, isto é, que não têm centenas de seguidores (porque são pouco conhecidos!), mas com qualidade. 

3 - SHE

Ora vão lá ver para onde é que eles dirigem os seus dardos.