sexta-feira, 30 de abril de 2010

A velha fábrica de arroz


Quem disse que fora da zona de Lisboa não havia iniciativas culturais interessantes? Bem, eu já tenho dito, por vezes. Mas, desta vez, venho falar de uma iniciativa que me pareceu muito interessante e à qual vou estar atenta.


Em Ponte de Sôr, no Alentejo, a meio caminho entre o litoral e a fronteira espanhola, havia uma antiga fábrica de arroz, que ocupava vários pavilhões e que estava há muito tempo desactivada. Foi recuperada e, depois de alguns contratempos, reabriu como um Centro de Artes e Cultura. Assume-se como um espaço multidisciplinar de âmbito cultural que, por isso mesmo, integra  várias instituições, desde a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna até ao Festival Sete Sóis Sete Luas, que abrange parceiros culturais de vários países da Europa. Também tem um Serviço Educativo, claro, que coordena actividades para as crianças do concelho. Mas, muito mais interessante, alberga um Teatro, o Teatro da Terra, que revitalizou o velho Cine-Teatro da cidade. O Centro conta também com oito ateliers, que podem servir de residência temporária de artistas plásticos ou actores.


Neste momento, há algumas exposições no Centro de Artes e Cultura. Uma delas é verdadeiramente espantosa e mostra a obra de um jovem espanhol, César Molina, que, utilizando os metais como matéria-prima e, principalmente, materiais reciclados, realiza obras de grande criatividade artística e sensibilidade ambiental. As fotos que acompanham este post são de obras suas, que estão ali em exposição. Vejam se eu não tenho razão.



quarta-feira, 28 de abril de 2010

O feitio do meu coração


Hoje acordei assim.
E as notícias deste nosso país  à beira-mar plantado não têm sido muito alegres.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Neblina do Passado

Ainda à boleia do Dia Mundial do Livro, que se comemorou há pouco, resolvi dar uma olhadela aos livros que tenho lido nos últimos tempos e eleger aquele de que gostei mais. Como todos sabem, sou um tanto caótica nas minhas leituras e leio todo o tipo de coisas, desde que me despertem a atenção, por alguma razão. Geralmente, tenho um fraquinho pela literatura lusófona mas, desta vez, o meu eleito não é um autor lusófono. É Leonardo Padura e o seu livro A Neblina do Passado. Comprei-o por curiosidade, porque ganhou o Prémio Dashiell Hammett 2006, da Associação Internacional de Escritores de Romances Policiais. No entanto, A Neblina do Passado é muito mais do que um livro policial. É uma viagem pela história de Cuba nos últimos cinquenta anos e  uma visão, desencantada e realista, da vida quotidiana na Havana da actualidade. 


Havana, Verão de 2003. Passaram-se catorze anos desde que o desencantado tenente Mario Conde abandonou a polícia. Durante esse tempo, Cuba sofreu muitas alterações e Mario Conde - agora mais velho e com cicatrizes na pele e no coração - ganha a vida com a compra e venda de livros em segunda mão. A descoberta fortuita de uma valiosa biblioteca permite-lhe sonhar com um negócio magnífico, capaz de aliviar as suas dificuldades financeiras. Mas num dos volumes encontrados aparece uma folha de uma revista, na qual uma escritora de boleros dos anos 50, Violeta del Río, anuncia a sua retirada no auge da carreira. Atraído pela sua beleza e pelo seu misterioso afastamento, Conde inicia por sua conta e risco uma investigação que irá trazer à luz um passado turbulento, entaipado há mais de quarenta anos, tal como a fabulosa biblioteca. (Resenha incluída no livro, da responsabilidade da editora ASA)

Leonardo Padura nasceu em 1955, em Havana, e tem trabalhado como romancista, ensaísta, jornalista e argumentista. Foi já distinguido com diversos prémios literários, dos quais destaco o Prémio Buchkultur para o Melhor Romance Policial do Ano, atribuído na Áustria, em 2004, para o livro Ventos de Quaresma.
É uma leitura de qualidade, que recomendo a todos. Garantidamente.

domingo, 25 de abril de 2010

Dia de balanço

Passam hoje trinta e seis anos sobre a revolução de 25 de Abril. As comemorações ocorrerão, como de costume, no mesmo modelo estereotipado e esvaziado a que já nos habituámos. Como de costume, a população irá aproveitar o bom tempo para ir à praia ou tratar das suas coisinhas. Apenas um ou outro ouvido mais atento irá ouvir o discurso do Presidente da República, que costuma agitar um pouco as águas. 
Não é de admirar que a maioria da população não veja motivos para festejar. A maior parte das expectativas geradas pela Revolução não se concretizou. O Movimento dos Capitães, que fez a Revolução, tinha como objectivos os três Ds: Democracia, Desenvolvimento e Descolonização. Descolonizámos mal, desenvolvemo-nos pouco e a nossa democracia é o que se vê. O nosso défice público só tem comparação nos tempos da Primeira República e muitos dos nossos políticos não têm a grandeza necessária para porem os interesses do país à frente dos seus interesses pessoais ou partidários. Esperemos que, um dia destes, não haja conflitos na rua bem mais sangrentos do que a pacífica Revolução dos Cravos.
No entanto, esta Revolução restituiu-nos um bem precioso: a Liberdade. Brindemos a ela. Provavelmente, só lhe dá valor quem a não possui. 

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da Liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença, 
qual será ser livre aqui, 
não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondendo tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da Liberdade.

(Jorge de Sena)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Uma boa notícia no Dia Mundial do Livro

Aqui há tempos, insurgi-me neste blogue contra a destruição de livros, alguns de indiscutível valia, que todos os anos é efectuada pelas editoras portuguesas. Hoje, a Ministra da Cultura declarou que sentia vergonha dessa situação (só lhe fica bem ter vergonha!) e que, para possibilitar a doação dessas obras excedentárias, as iria isentar de IVA e Direitos de Autor. Assim, as Editoras poderão doar estas obras, sem custos para ninguém. Enfim, uma boa notícia.

E, neste Dia especial para todos os que gostam das palavras e dos livros, deixo Palavras de outros, que humildemente faço minhas. Palavras para ler e pensar.

"Toda a beleza recôndita do mundo converge na arte da palavra."
                  (Gabriele d'Annunzio)


"Que outros se gabem das páginas que têm escrito; a mim orgulham-me as que tenho lido. Não terei sido um filólogo, não terei inquirido sobre as declinações, os modos, a laboriosa mudança das letras (...), mas ao longo dos meus anos tenho professado a paixão da linguagem."
                 (José Luis Borges)

"Os livros têm os mesmos inimigos do que o homem: o fogo, a humidade, os animais, o tempo; e o seu próprio conteúdo."
                 (Paul Valéry)

"Há o hábito de pensar que se entra numa biblioteca para procurar um livro. Não é verdade. Sim, por aí se começa, mas o que na realidade se busca é a aventura."
                (Umberto Eco)

(O Livro-Árvore, de Salvador Dalí)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Dia da Terra

(Logo da Google para o dia de hoje)

Hoje é o Dia da Terra. Toda a efeméride é uma forma de lembrete e aí está ela, a Terra, a lembrar-nos como é poderosa. Nos últimos tempos, somos quase diariamente confrontados com notícias terríveis, de sismos e tsunamis, de tornados, inundações e deslizamentos de terras. Há milhares de pessoas que morrem, outras tantas ficam com as suas vidas, de repente, completamente desorganizadas, as habitações destruídas, os modos de vida alterados. Falamos das alterações climáticas e das culpas humanas. Choramos, batemos no peito e organizamos acções de solidariedade.
Ultimamente, foi o vulcão Eyjafjöll (credo, que nome difícil de escrever!), na Islândia, que entrou em erupção e, com as suas nuvens de cinza, criou o maior caos nos transportes aéreos de que há memória, superior até ao que se seguiu aos atentados de 11 de Setembro. Além do transtorno nos transportes aéreos, teve reflexos que ainda estão a ser contabilizados, na economia, devido aos prejuízos nos abastecimentos a indústrias e serviços, pelo mundo todo. Segundo a revista Visão, edição de hoje, o "espirro" do vulcão islandês levou ao desemprego no Quénia, parou fábricas no Japão, enriqueceu hoteleiros em Hong-Kong. O vulcão continua, impávido, a deitar a suas lavas e as suas cinzas. 
Hoje, Dia da Terra, é uma boa altura para recordarmos que, quando há uma catástrofe natural, nós pouco mais podemos fazer do que tentar sobreviver. Como desde há milhares de anos. Enquanto espécie e enquanto civilização, convencemo-nos por vezes de que controlamos as coisas à nossa volta. Mas não, aí está a Terra a mostrar que lhe pertencemos e precisamos de a respeitar! Aí está a Terra a mostrar quem manda!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Postal de Lisboa XIV - Os Cafés dos Poetas

Tal como noutras cidades europeias, há espaços em Lisboa que são indissociáveis dos poetas e escritores que os frequentaram.
O espaço que nos vem logo à memória é o café “Martinho da Arcada”, nas arcadas do Terreiro do Paço. As paredes estão cheias de invocações de Fernando Pessoa e dos seus amigos, com quem aí se encontrava. Ainda podemos ver qual era a mesa em que o poeta se costumava sentar. Mas encontramos também o mesmo poeta n’ “A Brasileira” do Chiado. Aí, a estátua de Fernando Pessoa senta-se comodamente na esplanada, parecendo olhar quem passa, como tantas vezes o terá feito em vida. No largo fronteiro ao Café, António Ribeiro Chiado, do alto do seu pedestal, aponta para o espaço com ar escarninho. É o poeta Chiado que, no século XVI, ao vir instalar-se nesta zona da cidade, acabará por lhe dar o nome.
Caminhando para o Rossio, encontramos a bela fachada do café “Nicola”, que o poeta Bocage frequentava e que chegou a nomear nos seus versos satíricos. Ao fundo do café, um quadro acompanhado da estátua do poeta de Setúbal não nos deixa esquecer que aqui se passou um episódio engraçado, que ficou para a História. Segundo se conta, Bocage teria sido interceptado por um polícia, em frente do café. Questionado sobre a sua presença ali, respondeu:
Eu sou Bocage
Venho do Nicola
Vou p’ró outro mundo
Se dispara a pistola!


É de salientar que, no século XVIII, o café Nicola era frequentado por um tal leque de intelectuais que tinha como alcunha “A Academia”.
Na zona alta da cidade, descendo do Príncipe Real para o Largo do Rato, encontramos a velha Pastelaria Cister, outrora frequentada por Eça de Queiroz. Numa das paredes está uma fotografia do escritor. Na pastelaria agora remodelada, a única parede que resta do Café original ostenta uma bela imagem em mármore de Eça de Queiroz, também presente num quadro do início do século XX. Aqui ele passou muitas tardes, nos tempos passados em Lisboa, talvez a caminho de Paris. Aqui escreveu ou cavaqueou com os seus amigos.
O Café é um hábito muito europeu. É, e continuou sendo por muito tempo, um dos locais de eleição para a reunião de amigos. No século XX, as mulheres apropriaram-se também desses espaços de convívio, ao mesmo tempo que se apropriavam também do seu lugar no espaço público e no mercado de trabalho.
Além destes cafés que referi, e que são bem conhecidos, em quantos outros se terão sentado, conversado, escrito, imaginado, os grandes e pequenos nomes da nossa literatura? Onde tomava o café Mário Cesariny? Onde escrevia Ary dos Santos? Onde se inspirava Al-Berto?
Na próxima vez que entrarmos num café, temos de abrir os olhos e apurar bem os sentidos. Talvez ainda se consiga ouvir algum eco poético a ressoar nas paredes.


 (Fotografia Sebenta do Nando)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Desflorestação

A desflorestação resultante das alterações climáticas e da acção humana tem os resultados mais surpreendentes. Ora vejam.



(imagem recebida por e-mail)

domingo, 18 de abril de 2010

Pesadelo blogosférico

Os autores da BlogGincana fizeram, este mês, um desafio diferente: contarmos algum problema que se nos tenha deparado no Blogger. Na verdade, nunca tive um problema complicado ou insolúvel. Desde que iniciei este blogue, os problemas limitaram-se a um comentário que não quer ser publicado, ou um tipo de letra que não quer mudar para o que eu escolho, ou uma fotografia que insiste em colocar-se onde lhe apetece. Nada de mais grave, que não se resolva com um pouco de paciência. Até à noite passada…
Acordei com uma estranha sensação de angústia. Alguma coisa me levou até ao meu computador portátil, que esperava obedientemente, como sempre, em cima da mesa do escritório. Liguei-o e logo aí começaram as anomalias. A cor do ecrã variava entre o verde e o arroxeado. Depois de um bom bocado de tempo, consegui aceder ao Blogger, mas não passei daí: o meu blogue, pura e simplesmente, tinha-se evaporado. A cada nova tentativa de o abrir, o Blogger perguntava-me simpaticamente se queria criar um blogue. Não, só quero entrar no meu blogue, onde já tenho imensas coisas editadas que não me apetece perder. Comecei a enervar-me até que, num ataque de desespero, atirei o portátil pela janela fora. As teclas começaram a saltar como balas de pistola mas, estranhamente, o computador flutuava como uma pena em frente da janela, enquanto no ecrã surgia uma mensagem que eu não conseguia ler. Esforcei os olhos, mas não conseguia perceber a mensagem. E foi aí que percebi que estava a sonhar.
Acordei, agora a sério, e corri para o computador. Liguei-o ansiosa e ele correspondeu. Apareceu a mensagem do costume “Teresa, bem vinda de volta!” Recostei-me na cadeira a sorrir, pensando com os meus botões que, este mês, o desafio era mesmo um pesadelo!

(Edvard Munch "O Grito")

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Os tijolos da amizade


A propósito do post que editei sobre a amizade entre a minha gata Sushi e o urso de peluche, uma das comentadoras ocasionais deste blogue, a Maré Alta, desafiou-me a fazer um post, precisamente, sobre o tema da Amizade. O que constrói uma amizade? Com que tijolos se edifica?
Devo dizer que o tema é difícil e ambicioso. Já se escreveram tratados sobre o assunto e outros tantos se irão escrever, sem conseguirmos chegar a acordo. Se pensarmos nas inúmeras frases e provérbios que a sabedoria popular nos oferece, espelham bem esta ambiguidade do tema. Enquanto algumas frases exaltam o valor da amizade e os seus benefícios, outras apontam antes a sua raridade. Muitas frases alertam também para a fragilidade da amizade, que pode ser quebrada por razões, tantas vezes pueris, ligadas às relações amorosas ou ao dinheiro, por exemplo.
Estou em crer que a sabedoria popular é certeira: a amizade verdadeira é rara e frágil e, como tal, preciosa. Confundimo-la vezes de mais com simples relações sociais ou de trabalho, agradáveis, mas que não passam disso mesmo. Se as pusessemos à prova, a maioria desmoronava-se com um castelo de cartas.
As imagens que ilustram este post contam a história de um cão e de um orangotango. Ambos perdidos, sozinhos, tristes. O orangotango, com três anos, tinha perdido os pais e estava muito deprimido. O velho cão andava perdido perto do Jardim Zoológico. Encontraram-se quando o cão foi levado para a sala de tratamentos do Zoo. Alguma coisa lhes disse que juntos podiam ultrapassar a tristeza e a solidão. A sua intuição mostrou-lhes que, apesar das diferenças óbvias entre eles, tinham afinidades que lhes poderiam fazer recuperar a alegria de viver. Tinham os tijolos necessários para construirem a sua amizade. Agora, são inseparáveis e os seus olhos abrem o sorriso que não conseguem fazer de outra maneira.
Afinal, que tijolos são esses? Há amizades prováveis e improváveis? O que nos liga? Ao fim e ao cabo, o que constrói uma amizade?


(Imagens recebidas por e-mail)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Viver em Veneza

Prometi ao Carlos, das Crónicas do Rochedo, eleger também a cidade da minha vida fora de Portugal. Depois de muitas hesitações, resolvi eleger Veneza como a minha cidade... fora do meu país. Há aquela razão óbvia, de ser uma cidade belíssima. Mas há também outras razões, que se prendem com os sentimentos e as emoções. Estive em Veneza por três vezes, em 1979, em 1982 e depois outra vez em 2005.  Cada uma destas vezes foi especial, embora por razões diferentes. 
Este texto é também uma republicação (peço desculpa a quem já o leu!) de um post que editei no meu outro blogue, Olhares Viajantes, onde vou alinhavando as minhas impressões de viagens.


(Vista da laguna de Veneza, a partir da Praça de S. Marcos)



Há alguns anos, no decorrer de um curso internacional, coloquei a um velho professor veneziano uma questão que há muito tempo me intrigava: "Tem automóvel?" Ele abriu os olhos, espantado, e retorquiu-me: "Para quê?"

(Um canal em Veneza, com gôndolas)

De facto, para quê? A única ilha onde se pode andar de automóvel, do conjunto de 112 que compõem a cidade de Veneza, é o Lido, a comprida ilha que fecha a laguna. Aí, há uma avenida que acompanha a praia e várias ruas transversais. Tem um casino, vários restaurantes e muitas lojas. Parece-se com qualquer estância balnear da costa italiana. Veneza é outra coisa, são as outras ilhas da laguna.

(Becos e ruelas em Veneza)

Viver em Veneza significa percorrer ruelas e becos, em sítios onde a terra firme é um bem precioso. É viver paredes-meias com uma das maiores concentrações de obras de arte que a humanidade conseguiu produzir, mas também conviver com as inundações e o perigo de afundamento. 


(Um cais / paragem do vaporetto)

É apanhar o vaporetto para circular nos canais, é entrar e sair nos pequenos cais que servem de paragens. É atravessar uma ponte para entrar em casa.

(Ruas e pequenas pontes)

É chamar um barco rápido se é necessário um táxi, chamar um barco-ambulância se é necessário ir de urgência para o Hospital. É esperar pelo barco da recolha do lixo. É integrar um triste cortejo marítimo, quando há um funeral no cemitério, na ilha San Michele.

(A entrada do cemitério na ilha de San Michele)

É assistir às regatas no Gran Canal. É ter um jardim no telhado.

(Um jardim no telhado)

Um dia, eu estava sentada numa pequena esplanada à beira do canal da ilha de Murano, a comer arancini, quando vi uma cena simples, mas que não esqueci. Chegou um barco, que estacionou entre os outros barcos, na margem do Canal. Dele, saiu um família, o pai, a mãe, e três filhos, cada um com uma mochila da escola às costas (já estavamos em tempo de aulas). Saíram, fecharam o barco e foram à sua vida. O rapazito mais velho ainda voltou atrás, tinha-se esquecido de um saco pequeno, do tipo dos sacos de ginástica. Uma família normal, a viver numa cidade que parece existir apenas num bilhete postal.

(Roupa estendida entre as casas, nos canais)

Viver em Veneza obriga a repensar as concepções de espaço urbano e a organização da vida. Provavelmente, vale a pena.
(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O primeiro Postal de Lisboa

O Carlos, das Crónicas do Rochedo, fez um desafio interessante para ser cumprido este mês: o desafio é fazer um post sobre a cidade da nossa vida. No meu caso, é fácil: acima de todas, Lisboa, claro, não a Lisboa dos centros comerciais e das filas de trânsito, mas a outra, dos recantos e encantos que só os alfacinhas sabem apreciar. Quanto às cidades estrangeiras, e depois de muita hesitação, escolhi uma cidade que, além de ser muito bela, tem para mim um significado especial por lá ter estado em circunstâncias muito particulares da minha vida. Mas só amanhã a vou divulgar.
Este post é uma republicação do primeiro "Postal de Lisboa" editado neste blogue.


(No barco, a caminho de Lisboa)






Já visitei várias capitais, grandes cidades do mundo, mas, para mim, nenhuma se compara a Lisboa. Nasci na Maternidade Alfredo da Costa, já lá vão uns anitos, cresci entre a Penha de França e Benfica. Lisboa é a minha cidade. Consigo ver o que tem de belo e o que tem de podre. Mas eu não acredito em mundos ideais, homens novos, sítios perfeitos. Lisboa é como cada um de nós, com as suas grandezas e as suas misérias.
Gosto de entrar em Lisboa a partir da margem sul: chegar por uma das pontes que cruzam o rio Tejo, por exemplo. Mas como gosto mais de entrar em Lisboa é de barco. Atravessar o Tejo num dos barcos que saem do Barreiro ou do Seixalinho, no Montijo, é uma experiência muito mais rica. A cidade desfila vagarosamente defronte de nós. Primeiro a zona oriental, com o Parque das Nações e a sua afirmação de modernidade. Depois, a zona das docas, com os navios de carga e de cruzeiro lembrando outros caminhos e outras viagens. Mais acima, os prédios de Chelas e as Amoreiras. Encontramos a Graça, S. Vicente, o Panteão Nacional. Finalmente, a bela sala de visitas da cidade, o Terreiro do Paço. Subindo o olhar, encontramos a Sé e, lá mais em cima, como um guardião da cidade, o Castelo de S. Jorge. Está um dia de sol e a cidade resplandece à beira das águas. Faz-me lembrar Veneza vista do Gran Canal, ou Lausanne vista do rio Lago Leman. Mas aqui não há barcos de recreio, cheios de turistas de máquina fotográfica em punho. Estes são barcos de gente trabalhadora, que vai diariamente para Lisboa, que já viu estes prédios e estas pequenas ondas do rio centenas de vezes. Nem levantam a cabeça, mergulhados nos seus jornais, nos seus telemóveis, nos seus pensamentos. E Lisboa desdobra-se à minha frente, como um postal ilustrado, como um filme feito só para mim.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Elogio da Sesta

Há uma característica do mundo laboral português que me irrita solenemente e que, por infelicidade, se tem vindo a afirmar cada vez mais: é a síndrome do funcionário perfeito. O funcionário perfeito é um obcecado pelo trabalho. Não tem horário de trabalho, tem objectivos a cumprir. Se o trabalho não for acabado na empresa, será acabado em casa; afinal, para que se fizeram os computadores? O trabalhador excelente não precisa de tantos dias de férias; se tem direito a vinte e dois, tira quinze, a empresa não sobrevive sem o seu contributo. Há reuniões fora de horas? Que importa? O trabalho está primeiro. O preenchimento de dez relatórios e a avaliação de vinte planos (pelo menos) é seguramente mais importante do que o tal tempo de qualidade que nos mandam ter com os nossos filhos. É preciso ir ao médico com o mais velho, ao dentista, à escola do mais novinho? Azar, não se pode faltar. Mas... está na Lei! Qual Lei? Essa lei não se aplica ao trabalhador excelente, que põe o seu trabalho acima da sua vida particular e que não quer ser olhado de lado se se põe a evocar essas minudências!
O funcionário perfeito trabalha dez, doze horas por dia. Sem se queixar, senão já nem parece assim tão perfeito. Ele sabe que tem de suportar, com os seus impostos, os gastos da Assembleia da República, as rotundas das Câmaras, os subsídios das mais variadas coisas e pessoas. Ele sabe que, noutro país, seria provavelmente mais valorizado. Mas... aqui, ele é o trabalhador excelente e isso lhe basta. Só tem um problema: quando chega ao final do dia, está tão esgotado que tem uma nítida quebra de produtividade!
O que fazer, então? Eu acho que descobri a solução: instituir a hora de sesta obrigatória. Os meus pacientes leitores que chegaram a este ponto, estão agora a rir e a abanar a cabeça com comiseração. Mas isto tem lógica. Já era do conhecimento geral que as pessoas que dormem a sesta têm menos probabilidade de morrer de ataque cardíaco. Agora, os investigadores da Universidade Berkeley, na Califórnia, apresentaram na reunião anual da Association for the Advancement  of Science, um estudo que mostra inequivocamente as vantagens desse soninho a meio do dia. Segundo parece, refresca o hipocampo, melhora o desempenho motor e, não só nos permite recordar melhor o que aprendemos antes da sesta, como nos deixa mais predispostos para a aprendizagem. 
Portanto, se bem entendo, esta horinha de relaxamento a seguir ao almoço não é tempo perdido, mas sim um investimento na produtividade. Não é boa ideia?


quinta-feira, 8 de abril de 2010

Baterias Solares

Já o tenho dito, funciono a baterias solares. Este inverno deixou-me com as baterias em baixo, mas agora recomeço a recarregá-las.
Amo estes dias ensolarados de Primavera. A paisagem ainda não tem aquele ar cansado e sujo do fim do Verão, tudo tem um aspecto jovem, radioso, cheio de vida.
Apetece-me agarrar o verde vivo das árvores, os tapetes de florinhas brancas, amarelas, azuis, roxas, que despontam por todo o lado. Sinto-me capaz de beber o azul puro e límpido do céu. Encho os olhos com os milhentos pontinhos brilhantes que cobrem as águas preguiçosas do mar. Tenho vontade de rodopiar, de braços abertos, enquanto o sol me bate na cara. Só não o faço porque não pareceria nada bem, numa senhora com um aspecto respeitável. Mas a minha alma rodopia, sem ninguém ver.


quarta-feira, 7 de abril de 2010

Postal de Lisboa XIII - As Vilas Operárias

Um dos aspectos mais interessantes de Lisboa são os antigos bairros operários, as chamadas Vilas. Os Pátios ou vilas têm origem na civilização árabe, que tanto nos marcou, e permitem uma convivialidade intimista entre vizinhos, muito típica das sociedades mediterrânicas e também da sociedade lisboeta.

(Arco de entrada da Villa Bertha)

Voltam a surgir na capital nos finais do século XIX, princípios do século XX, durante o surto de industrialização que caracterizou esse período. Na verdade, agrupavam os operários que vinham trabalhar nas novas indústrias da cidade e, por isso, encontramos estas vilas nas zonas humildes ou periféricas, como por exemplo a Graça ou Alfama.
Há várias que ainda existem, outras desapareceram. Recordo-me, quando era miúda, de brincar com amiguinhas que moravam na Vila Cândida, que se situava na mesma avenida onde eu morava. Ainda hoje existe a Vila Maia, a Vila Souza, o Bairro Grandella. 
O que têm de especial, de diferente, é o facto de serem espaços quase fechados, habitações de trabalhadores, às vezes apenas de uma empresa, com uma única entrada e saída para a rua. Podia ser um pequeno bairro, uma rua, um prédio que ocupava um quarteirão. É o caso da Villa Souza, um grande prédio de renda económica, organizado à volta de um pátio interior. Segundo parece, aqui teria sido filmado o célebre filme dos anos 30 "O Pátio das Cantigas" que também, de um certo ponto de vista, retrata a vida simples dos alfacinhas da classe operária dessa época.

(A Villa Souza, hoje prédio de habitação)

Um dos meus preferidos é a Villa Berta, com as suas casinhas caracterizadas pelas varandas e mezanines à moda italiana.

(As casinhas da Villa Bertha)

Mas, sem dúvida, o mais extraordinário é o Bairro Estrela d'Ouro. Foi construído por Agapito da Serra Fernandes, industrial de confeitaria oriundo da Galiza, para habitação dos seus trabalhadores mediante uma renda. Situado entre a Rua da Graça e a Rua da Senhora do Monte, está bem identificado pelos painéis de azulejos e pelas estrelas calcetadas nos passeios. As estrelas de cinco pontas, ou pentagramas, fazem suspeitar das simpatias maçónicas do industrial.

(O Painel de azulejos da entrada do Bairro Estrela d'Ouro)

O Bairro continha tudo o que ele achava ser necessário para uma vida simples mas com qualidade. As casinhas organizam-se em U, à volta de pequenos espaços de entrada. Havia uma escola, uma capela, e até um cinema, o Cine Royal, onde se passou o primeiro filme sonoro em Portugal. Hoje, é um supermercado!

(As casinhas do Bairro Estrela d'Ouro)

Actualmente, algumas destas antigas zonas operárias da capital estão revalorizadas e é agradável viver aqui. Muitos destes bairros e vilas continuam a ser habitados, muitas vezes pelos descendentes dos antigos trabalhadores, que compraram e remodelaram as casas. São vestígios de outro tempo, um tempo em que os grandes empresários entendiam o valor da proximidade e da responsabilidade social. Talvez, em alguns aspectos, devessemos aprender com eles.
(Fotografias de Teresa Ferreira)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Amizades improváveis

Tenho uma gata chamada Sushi. Nasceu no quintal de um vizinho e eu apaixonei-me por aquela bolinha de pêlo branco e dei-lhe o nome (não sei bem porque é que decidi chamar-lhe Sushi!) ainda antes de saber se era rapaz ou rapariga. 
No início, era muito tímida e arisca. Passou os primeiros dias debaixo dos armários da cozinha, a espreitar cá para fora com ar desconfiado. Depois, pouco a pouco, foi tomando posse da casa. E de nós todos, claro! Segue-me como um cachorrinho pela casa toda. Adora deitar-se ao meu colo ou, se estou  a trabalhar no computador, junto às minhas pernas. Também gosta de passear pelo meu quintal. Nunca se afasta muito, observa os melros e os pardais, brinca com as lagartixas, tenta apanhar as borboletas. Quando quer voltar para casa, mia para lhe abrirmos a porta. Tem um invejável reportório de miados diferentes, que utiliza conforme os desejos e as ocasiões e que já nos habituámos a distinguir. É uma companhia tranquila.
Agora, arranjou um novo amigo. É um urso de peluche, grande e fofo, que pertenceu à minha filha. Massaja-lhe vagarosamente a barriga de pêlo castanho, depois deita-se entre os seus braços abertos e dorme descansadamente. Quem sabe o que pensa ou o que sente? Há amizades assim, improváveis, mas igualmente saborosas.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

In memoriam

(Texto produzido a propósito do desafio de Abril da Fábrica das Letras, com o tema Abismo)


Foi andando cada vez mais devagar, até parar o carro junto ao murete de protecção da ponte. Abriu a porta e acercou-se da balaustrada, ainda sem a certeza do que queria ou não fazer. As águas cor de tinta-da-China, correndo numa forte torrente de princípio de Primavera, lá em baixo, chamavam-no, como um apelo à liberdade. Sentia a atracção do abismo, daquele abismo.
Ninguém se desfaz da vida como de uma camisa velha. Mas ele olhava à volta, com os olhos da alma, e não encontrava outra saída. Tinha cinquenta anos e uma vida de procura. Não é simples “fazer a vida”. Os pais, os amigos diziam-lhe “Tens de fazer a tua vida”. Isso significava o quê? Desistir da música, dos sonhos? Arranjar um emprego a fazer, todos os dias, coisas de que não gostava? Sim, tinha-se convencido de que era essa a solução para “fazer a sua vida”. Tinha feito um curso superior, mas não tinha encontrado um emprego e, afinal, era da música que tinha chegado a oportunidade: dar aulas de Música. Primeiro, ficara entusiasmado. Mas depressa a realidade abafara o entusiasmo. Os alunos eram mal educados e cruéis. Especialmente, aqueles, daquela turma!
Voltou a olhar o abismo que se abria para a torrente de água, e que o chamava lá do fundo. Quantas vezes fizera queixa dos alunos daquela turma? Já perdera a conta, já deixara também de o fazer. Mas eram pedidos de socorro, como quem diz: “Por favor, ajudem-me, não estou a ser capaz de lidar com isto! Tenho cinquenta anos, mas sou só um professor contratado, um homem à beira do desespero! Não consigo um emprego estável, não sei fazer a minha vida! Sei que sou tímido, às vezes não sei lidar bem com as situações. Mas mereço algum respeito, não? Sei que posso ensinar música, é disso que eu gosto. Não gosto que não me respeitem, que não se calem quando eu estou a explicar qualquer coisa, que gozem com o que eu digo, com o que eu visto. Não gosto que me chamem parvo, não gosto que me chamem cão!”
As lembranças fizeram-no trepar pela balaustrada. Não, não era um cão. Talvez fosse diferente, mas não era um cão e não ia permitir que o tratassem assim. Antes morrer! Lembrou-se dos colegas, demasiado atarefados com os seus próprios problemas. Alguns deles, demasiado preocupados em mostrar que eram excelentes, que conseguiam controlar os alunos e dar as matérias e fazer até o pino, se fosse preciso, porque a avaliação estava aí! Como perder tempo a apoiar um colega?
Agarrou-se com força à balaustrada e pensou nas alternativas. Será que amanhã conseguia entrar na escola e voltar a enfrentar tudo outra vez? E devagarinho, como quem se abandona no colo da mãe, deixou-se cair no abismo das águas.

Este texto, ficcionado, é uma singela homenagem ao meu colega Luis, da Escola de Fitares, que se suicidou atirando-se da Ponte 25 de Abril, no passado mês de Fevereiro.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Figuras de Lisboa

Todas as cidades têm a sua história, que não é construída apenas com as pedras, as ruas, as casas. Também é feita pelas pessoas que lá vivem e trabalham e que, com as suas características, dão à cidade a sua personalidade particular, a sua cultura, a sua face humana.
O Museu da Cidade decidiu, e muito bem, organizar uma exposição, a que chamou "Lisboa tem Histórias". Aí, mostra vivências, histórias e costumes protagonizados por figuras míticas, anónimas ou pouco conhecidas, mas que deram o seu contributo para a singularidade lisboeta. Ontem era o último dia e eu lá consegui ir até ao Museu da Cidade, no antigo Palácio Pimenta, no Campo Grande.
Havia animações teatrais. Fui recebida pela Madame Villaret, modista do Chiado no século XIX, perita em espartilhos e mamas postiças. Atrás, a leiteira de Alfama, Albertina de Jesus, dava o toque popular e ensinava os pregões tradicionais. Ainda me lembro de ouvir alguns pregões, quando era pequenita, como o "Ó viva da costa!" Não me imaginava (e quem me conhece, se calhar, também não!) a gritar um pregão. Mas, ontem, lá fui no ambiente e apregoei o melhor que consegui o pregão que me calhou em sorte: "Mexilhão, para o almoço da criada e do patrão!" , que, como é evidente, desencadeou uns quantos comentários brejeiros!
A exposição mostra-nos uma quantidade de figuras que fizeram parte da história da cidade, algumas bem singulares, como o Luciano das Ratas, que recolhia objectos valiosos e matava ratazanas nos esgotos da Baixa, para onde entrava na maré vazia (fez isto ao longo de vinte anos, até 1903). Ali encontramos Mateo Agustin, o aguadeiro galego, Madre Paula, a religiosa do Convento de Odivelas que era amante do rei D. João V, as Manas Perliquitetes. Conhecemos a Estanqueira do Loreto, que tinha a sua loja de tabacos junto à Igreja do Loreto e tinha um nariz tão grande que o poeta Bocage a incluiu entre as suas "sete maravilhas do Chiado". Figura excêntrica e escandalosa da Lisboa do início do século XX, a Preta Fernanda nasceu em Cabo Verde, mas veio para Lisboa, foi modelo de escultores, e acabou a frequentar os círculos sociais mais exóticos, a participar em touradas, enfim, a escandalizar meia-cidade. Por fim, não podia faltar nesta exposição o arquitecto e fotógrafo Victor Palla, que publicou em 1959 o livro "Lisboa, Cidade Triste e Alegre", que se tornou uma referência internacional. 
Todos estes personagens (e muitos outros que não referi) contribuiram para criar a personalidade da cidade. Parabéns ao Museu da Cidade por os dar a conhecer aos lisboetas e os devolver à vida, por alguns momentos.