quarta-feira, 31 de março de 2010

Portugueses: Heróis Adiados

O texto que se segue foi escrito por Fernando Pessoa, há quase um século, ainda nos tempos da Primeira República, que agora comemoramos. Será que é um retrato correcto dos Portugueses? Será que continuamos assim? Será que mudámos alguma coisa?

O Português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D. Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.
Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.




segunda-feira, 29 de março de 2010

Sistema Informático para mulheres do século XXI

Quando várias mulheres se encontram, invariavelmente as conversas giram à volta de alguns temas; um dos mais recorrentes é o tema maridos. Quase sempre há queixas relacionadas com a falta de apoio nas tarefas domésticas, falta de romantismo, e por aí fora. 
Atenção: estamos no século XXI e temos de evoluir! As novas tecnologias de informação e comunicação podem dar-nos uma ajuda!

Sistema informático para mulheres do Sec. XXI 
UPGRADE DE NAMORADO 5.0 PARA MARIDO 1.0
 
Caro Apoio Técnico, 
No ano passado fiz um upgrade do NAMORADO 5.0 para o MARIDO 1.0 ,  (ou seja: casei!!!) e notei uma redução significativa de performance, principalmente nas aplicações FLORES e JÓIAS, que operavam sem falhas no NAMORADO 5.0 . 
Além disso, o MARIDO 1.0 desinstalou outros programas importantes como ROMANCE 9.5 e ATENÇÃO AO QUE EU DIGO 6.5 e instalou aplicações indesejáveis como JOGO DE FUTEBOL 5.0. 
Também não tenho conseguido rodar o programa CONVERSAÇÃO 8.0 e o AJUDAR EM CASA 2.5: o sistema simplesmente bloqueia. Tentei fazer correr o RECLAMAÇÕES 5.3 para corrigir esses problemas mas não consegui nada. O que faço? 
Ass.: Utilizadora desesperada. 
____________________________ 
RESPOSTA DO APOIO TÉCNICO
 
Cara Utilizadora desesperada, 
Primeiro, tenha em mente que o NAMORADO 5.0 é um pacote gratuito e de entretenimento, enquanto MARIDO 1.0 é um sistema operativo. 
Comece por fazer o download de Lágrimas 6.2 e depois digite o comando C:/EU PENSEI QUE ME AMAVAS para instalar o SENTIMENTO DE CULPA 3.0. Essa operação actualiza automaticamente as aplicações FLORES 3.5 e JÓIAS 2.0. 
Mas lembre-se que o uso em excesso dessas aplicações no Marido 1.0 pode activar alguns programas indesejáveis como SILÊNCIO TOTAL 6.1 , IR VER O FUTEBOL COM OS AMIGOS 7.0, que invariavelmente instala o CERVEJA 6.1. 
Este último é terrível, pois cria arquivos do tipo WAV da versão RESSONANDO ALTO 2.5. 
De qualquer forma, NUNCA instale SOGRA 1.0 ou reinstale qualquer versão de NAMORADO. Estas aplicações são incompatíveis e vão bloquear o MARIDO 1.0. 
Em resumo, MARIDO 1.0 é um óptimo sistema, mas ele tem limitações de memória e demora a correr certas aplicações. Para o perfeito funcionamento do sistema, sugerimos que a senhora adquira alguns programas adicionais. 
Recomendamos: 
JANTAR ROMÂNTICO3.0, LINGERIE 6.9
Muito cuidado : Algumas clientes instalam o FILHO 1.0
 para tentar dar estabilidade ao sistema e muitas vezes isso causa alguns efeitos contrários, sendo necessário, antes, uma verificação total no sistema para garantir espaço no disco e, principalmente, ter um SWAP adequado no MONEY 3.0. 
Boa Sorte. 
Atenciosamente. 
Apoio Técnico 

(recebido por mail)


quinta-feira, 25 de março de 2010

As mulheres são como os pauzinhos

As mulheres são como os pauzinhos: úteis e facilmente quebráveis. 
Os homens são as traves robustas que sustentam a casa.

Esta frase chinesa, crua e incisiva, encerra em si um ensinamento que é uma maneira de ver a vida. Há mais de mil anos que os chineses absorvem esta filosofia, esta forma de olhar os dois sexos, o homem e a mulher. O homem é o ser forte, o pilar da família. E todas as famílias desejam ter um pilar. É uma festa quando nasce um rapazinho!
A História ensina-nos que a mentalidade muda lentamente. As diversas revoluções que abalaram a China, nos últimos cem anos, transformaram-na quase de alto a baixo, de um enorme império, pobre e atrasado, num colosso económico, na vanguarda de quase todas as áreas económicas e tecnológicas. Deixou de ser um país atrasado. Não sei se as pessoas deixaram de ser pobres! Não sei também se a mentalidade acompanhou o progresso tecnológico.
Nas vastas áreas rurais, tais como nas zonas sobrelotadas das grandes cidades, as pessoas não mudaram assim tanto. A China comunista atacou o problema do crescimento demográfico explosivo com a política do filho único. Podendo ter apenas um filho, a maioria dos casais espera ansiosamente que seja um menino, para ser o amparo dos seus pais. E, se surgir uma menina? Podem aceitá-la, com algum desgosto. Outras vezes, livram-se dela, das mais diversas maneiras. E continuam à espera do varão.
Esta reportagem da revista Marie Claire que me chegou às mãos reflecte este desprezo milenar pelo sexo feminino. A história é contada por quem presenciou a cena e não conseguiu ficar indiferente.

Numa manhã de fevereiro de 2001, numa cidade da província chinesa de Hunan, vê-se uma cena de crueldade e horror inimagináveis: na sarjeta de uma movimentada rua central estende-se o corpo minúsculo e contorcido de uma recém-nascida. Ela está nua, rodeada apenas de pedaços sujos de gaze hospitalar. Ônibus e bicicletas passam rapidamente ao lado do corpo da menina, espirrando lama sobre ela.

Sem nome e indesejada, a recém-nascida foi despejada na rua em pleno inverno. Poucos pedestres olham para ela uma segunda vez. Para eles, a morte dessa menina é mais uma conseqüência da cruel política chinesa que obriga os casais e terem um único filho. "Acho que o bebê tinha acabado de morrer", diz uma mulher que foi a única pessoa a tentar salvar a criança durante as três horas que ficou ali. "Toquei na pele dela, e estava quente. O sangue ainda saía pelo nariz." Ela tentou chamar o serviço de emergência, mas ninguém apareceu. "Esse bebê foi largado perto de uma repartição pública, portanto muitas pessoas do governo passaram por ele." Também passaram por ele bicicletas, homens, mulheres, crianças. Apenas depois de três horas alguém decidiu parar e tirar o corpo daquele bebê da sarjeta: um senhor de idade pegou a criança, colocou-a em uma caixa e jogou-a dentro de uma lata de lixo. Pouco depois, a polícia apareceu. Os policiais não mostraram nenhum interesse em investigar aquela morte. Ao contrário: tudo o que fizeram foi levar para a delegacia a mulher que tentara salvá-la. "Eu tinha uma câmera na bolsa e tirei algumas fotos, porque tudo foi muito horrível. O mais impressionante foi que a polícia se preocupou mais com minhas fotos do que com o bebê", diz ela. Na delegacia, ela só foi liberada depois de ter entregue os filmes. 

Será que alguma coisa mudou, desde que esta cena se passou até hoje? Pressionada internacionalmente, a China acabou com a cota de nascimentos nas zonas onde vivem minorias étnicas que possam estar em perigo de extinção (esta medida abrange cerca de 3% da população). E, em algumas regiões, permite o nascimento de um segundo filho, se o primeiro for do sexo feminino. Não chega. A única solução é ensinar aos chineses que as meninas valem tanto como os meninos. Mas sabemos como a mentalidade é lenta a mudar.
Em algumas regiões da China, o desequilíbrio demográfico é tão grande (nalgumas zonas chega a ser de seis para um) que os rapazes não encontram facilmente uma mulher para casarem e formarem família. Pobres rapazes chineses! Pobres meninas chinesas!


quarta-feira, 24 de março de 2010

Estado de Guerra

Fui ver este filme porque ganhou seis Óscares, entre os quais o de melhor filme, e não porque me despertou um interesse especial. No entanto, gostei. O filme é passado no Iraque e torna-se um bocado claustrofóbico, devido à forma como é filmado, como se se tratasse de um documentário que acompanhasse o dia-a-dia de um grupo de soldados americanos desactivadores de minas, mas também devido ao ambiente, à cor de areia que rodeia e confunde tudo na mesma paisagem. Quem já esteve no Médio Oriente sabe que aquela é a cor, a cor da areia e do pó. A falta de verde é angustiante, como a falta de água.
Apesar de ser um filme totalmente rodado como reconstituição de situações de guerra, não é bem um filme de guerra, mas sim um filme sobre as emoções humanas em situação de guerra. Estão aí as constantes do filme: é o medo, a inevitabilidade da insegurança, a contagem dos dias até ao regresso a casa; é a tensão elevada ao máximo, os sentidos alerta em dada situação de perigo, a concentração total (como esquecer a cena da mosca, que os soldados não afastam, tal é o seu grau de concentração?); mais surpreendente, é a adrenalina provocada pela própria situação de tensão, e que funciona como uma droga altamente aditiva. Um dos protagonistas, o sargento do grupo, não consegue já passar sem ela e, no final, sente-se mais feliz numa rua de Bagdad do que num supermercado, back home, a escolher uma caixa de cereais.
É um filme de guerra, mas não há bons e maus, nem cenas heróicas de batalha. Não trata dos horrores da guerra, mas da guerra como um hábito, quase como uma droga.
Não seria a minha escolha para o Óscar mais importante, mas é, sem dúvida, um bom filme, capaz de nos fazer reflectir sobre questões que afloram poucas vezes nos noticiários ou nos ecrãs de cinema.
E, para finalizar, fica mais uma felicitação à afirmação feminina, com a atribuição do Óscar de Melhor Realizador a uma mulher, Kathryn Bigelow, pela primeira vez.


terça-feira, 23 de março de 2010

10 Coisas que me fazem feliz!

Já há algum tempo atrás, recebi um desafio da Ematejoca, que também já tinha apanhado no blogue do Carlos Albuquerque. Depois, meteram-se outras coisas pelo meio, achei que tinha outras palavras para escrever e partilhar e o desafio foi esperando. Mas chegou a altura de responder e contar-vos um segredo: 10 coisas que me fazem feliz!
É claro que amo a minha família e fico feliz se todos estiverem bem, de saúde, e os miúdos com boas notas, de preferência. Também é evidente que me preocupo com o estado do Mundo e ficava feliz se não houvesse guerras ou acabasse a fome no mundo. Mas, hoje, apetece-me ser egoísta! O que me faz feliz, no meu dia-a-dia?
1 - O cheiro do pão fresco, logo pela manhã.
2 - Caminhar no campo, numa manhã ensolarada de Primavera.
3 - Sentar-me na praia, a ouvir as ondas.
4 - Brincar com as minhas cadelas.
5 - Rir até às lágrimas com as minhas amigas.
6 - Esquecer-me do mundo exterior, enquanto leio um bom livro.
7 - Dançar ao som das músicas da minha juventude.
8 - Ouvir música alto, quando vou sozinha no carro.
9 - Passear no mundo dos blogues e encontrar pessoas interessantes.
10 - Viajar!

Ematejoca, obrigada por te teres lembrado de mim. 
Carlos, espero que esteja a recuperar bem! 

segunda-feira, 22 de março de 2010

As palavras nas paredes

Gosto de andar no metropolitano, sempre de nariz no ar, a observar o que me rodeia. Especialmente, gosto das novas estações, bonitas, espaçosas, com lugar para a arte. Encantam-me as geometrias altivas e coloridas das Olaias, como me encantam as estátuas das mulheres de Lisboa que nos recebem no Campo Pequeno, ou os belos azulejos que nos encantam nos Restauradores. Mas, do que eu gosto mais, é das estações que têm frases ou pequenos textos para ler nas paredes dos corredores e das escadas rolantes. Rimbaud e Lao Tsé esperam-nos no Parque, enquanto a Cidade Universitária nos apresenta Sócrates e Cesário Verde.
As frases surpreendem-nos a uma esquina, acompanham-nos enquanto caminhamos, deixam a sua marca.
Gosto das frases que se encontram escritas na nova estação do Saldanha. Não são assinadas, não sabemos quem as escreveu, só estão ali para nos provocarem.
As pessoas que eu mais admiro nunca acabam, leio numa parede. Lembro-me de algumas. Como podem acabar? Mesmo quando morrem, perduram na nossa memória e no nosso coração.
Na outra parede leio Os olhos da memória vêem melhor do que os nossos olhos. Realmente, a memória coa a realidade que vai passando por nós, deixando só o essencial. Às vezes, dá-lhe um colorido diferente, mais rosado ou mais sombrio. É o filtro da memória; como numa pintura expressionista, as cores reenviam-nos para os sentimentos que experimentámos nos momentos que evocamos.
Estou tão distraída que quase me esqueço de apanhar o Metro. Olho à volta. As pessoas caminham absortas ou cabisbaixas, ou conversam em pequenos grupos. Ninguém parece dar atenção às frases que nos chamam, nos provocam, das paredes.
Será que só eu me deixo encantar desta maneira pelas palavras?


(Azulejos de Maria Keil na estação dos Restauradores)

sábado, 20 de março de 2010

Parabéns a Nós!

Isto de ter amigos dos dois lados do Atlântico é engraçado. Hoje, já vi postagens saudando a chegada da Primavera e o início do Outono, antecipando os aguaceiros e a roupa quente, antevendo os dias de praia e de sol. Assim, desejo a todos um belo início de... estação, seja ela qual for.
Mas há quem seja original. O Junior, do blogue Contatos Imediatos, um blogue cheio de energia positiva, descobriu que hoje também se comemora o Dia do Blogueiro. Tentou descobrir a razão de ser da data, não descobriu mas faz um texto muito bonito sobre a importância e a força da blogosfera, que vos convido a ler. Faço minhas as suas palavras e dou os parabéns a todos os que sabem blogar com seriedade, responsabilidade e respeito. Porque juntos somos fortes!


sexta-feira, 19 de março de 2010

A propósito do Dia do Pai

Isto deve ser do meu mau feitio, mas não gosto da forma massificada e homogénea como se tratam estas efemérides, em que é suposto lembrarmo-nos de alguém, seja o pai, a mãe, o namorado, o gato, a vizinha, as bruxas, e por aí fora.
Nas escolas, por exemplo, todas as crianças fazem postais e prendinhas para pais que, tantas vezes, nem estão presentes! Há que ter alguma sensibilidade para lidar com estas situações.
Há alguns anos, eu era Directora de uma turma de 8.º ano de miúdos ditos complicados (comparados com os actuais eram uns anjos!). Muitos deles não viviam com o pai, pelas mais diversas razões: havia alguns que eram filhos de pais separados e mal viam o pai biológico; havia um que tinha o pai na prisão, outro estava numa clínica de desintoxicação; também havia um aluno cujo pai falecera, era ele ainda pequeno.
Na aula de Formação Cívica, organizámos um debate sobre o tema "Viver longe do pai", para falarmos um pouco sobre a figura paternal e o modo como aqueles jovens a olhavam. O rapazinho que era orfão (vamos chamar-lhe J.) contou-me então uma história que não mais esqueci.
No início do 1.º Ciclo, tinha o pai morrido há pouco tempo, a professora mandou-os fazer uns postalinhos para oferecer aos pais neste dia, 19 de Março, Dia do Pai. O J. também fez, sem protestar, sem dizer nada. No dia em que a professora os mandou levar o postal para oferecerem ao pai, o J. saiu da sala de aula, arranjou uns fósforos e queimou o postal no recreio da escola. Sempre sem dizer nada. Explicou-me naquela sala, anos depois, que lhe tinha parecido a única forma de entregar o postal ao pai, envolto no fumo que subia para o céu. Todos lhe diziam que o pai estava no céu, que maneira melhor iria ele encontrar?
A professora não compreendeu e castigou-o. Eu nunca mais esqueci o que o J. me contou. E aprendi que devemos sempre tentar perceber as razões que estão na raiz dos actos que nos parecem estranhos ou deslocados.
Imagem retirada de : creativescrappers.forumeiros.com

quinta-feira, 18 de março de 2010

Casa de banho

E agora que se aproxima o Dia do Pai, é altura de ver o que se passa realmente quando os nossos homens, pela manhã, se encaminham para a casa de banho!
Muito bom! E muito engraçado!

terça-feira, 16 de março de 2010

Lisboa, uma mulher madura

As cidades são para mim como pessoas. Não sei vê-las apenas em termos de pedras, árvores, veículos, objectos. É preciso que eu lhes descubra a alma, imagine que elas me estão falando, contando como são, como foram. Sinto logo ao vê-las se me acolhem, repelem ou permanecem indiferentes. Porque as cidades têm memória e nervos, um coração que pulsa e um sangue quente a correr-lhes nas veias.
                  (Erico Veríssimo, Gato Preto em Campo de Neve)


Encontrei esta citação de um autor de que gosto muito e me acompanhou muito na minha adolescência, Erico Veríssimo, no blogue da Luma Rosa, o Luz de Luma. E fiquei a pensar.
Será que as cidades têm uma personalidade própria? Será que se assemelham a nós, seres humanos, com as nossas belezas e as nossas fraquezas? Será que podemos comparar a cidade onde vivemos a alguém, de uma forma tão completa e precisa como se a conhecessemos?
Já declarei aqui, noutras ocasiões: sou alfacinha de gema, nascida e criada em Lisboa, entre a Penha de França e Benfica. Hoje, moro a cerca de 20 km de Lisboa, mas continuo a amar a minha cidade. Se fosse um ser humano, como seria Lisboa?
Tenho a certeza de que seria uma bela mulher, já madura. Tem uma longa história para contar, visível nos monumentos e nas ruas sinuosas da parte velha. Mas essa experiência só lhe traz mais encanto, como uma janela de ferro forjado, bordada de sardinheiras, a colorir um beco antigo.
Disfarça as rugas do tempo com muita luz, azulejos e cores alegres. E avança sempre em direcção ao futuro, confiante e rápida, nas suas avenidas largas e nos edifícios arrojados das zonas modernas.
Mas esta mulher, madura e luminosa, também tem o seu lado sonhador. Senta-se com os pés mergulhados no rio Tejo, a ver os barcos que passam, sonhando com glórias passadas enquanto tece as malhas do futuro.

domingo, 14 de março de 2010

A poetisa da sensibilidade

No dia que encerra esta semana dedicada à Mulher, em que estes óculos tiveram um olhar mais feminino sobre o mundo, decidi chamar aqui Florbela Espanca. Porquê? Provavelmente, porque Florbela Espanca representa uma das características mais relacionadas com o universo feminino: a sensibilidade. 
Nasceu em 1894, registada como filha de pai incógnito, e foi baptizada com o nome de Flor Bela Lobo. Aos sete anos, escreve a sua primeira poesia e começa a assinar Florbela Espanca. Faz o liceu em Évora, torna-se professora, cursa Direito em Lisboa. Casa-se, divorcia-se, apaixona-se, separa-se. A sua vida é uma sucessão de paixões e desilusões, cada vez mais presa a uma neurastenia que a levará ao suicídio. Entretanto, vai sempre escrevendo e publicando, principalmente poesia, mas também contos. 
Ficou para sempre no nosso imaginário como a poetisa do amor desmesurado. Todos conhecemos os seus sonetos:
             Eu quero amar, amar perdidamente,
             Amar, só por amar, aqui e além.
             Este, aquele, mais o outro e toda a gente,
             Amar, amar e não amar ninguém.

No entanto, a sua extrema sensibilidade abrangeu outras facetas do mundo, a paisagem sofrida do Alentejo, os animais. Como homenagem a Florbela Espanca, e porque é menos conhecida como prosadora do que como poetisa, escolhi um excerto do seu Diário, escrito no ano em que se suicidou. Esta é a entrada do dia 22 de Fevereiro de 1930:

« O olhar de um bicho comove-me mais profundamente que um olhar humano. Há lá dentro uma alma que quer falar e não pode, princesa encantada por qualquer fada má. Num grande esforço de compreensão, debruço-me, mergulho os meus olhos nos olhos do meu cão: tu que queres? E os olhos respondem-me e eu não entendo...Ah, ter quatro patas e compreender a súplica humilde, a angustiosa ansiedade daquele olhar! Afinal...de que tendes vós orgulho, ó gentes?...»

De facto, de que temos nós orgulho, afinal?

 (Florbela Espanca, por Carlos Bottelho, 2008)

sábado, 13 de março de 2010

Uma questão de vontade

Li há tempos uma entrevista com um médico português, pioneiro no estudo da Sexologia e nas consultas desta especialidade. Dizia coisas muito interessantes, algumas das quais já não são hoje novidade nenhuma, mas que o eram seguramente na altura em que iniciou a sua actividade, lá pelos idos dos anos 60.
Dizia ele que, nessa época, as mulheres o procuravam porque não sentiam prazer sexual. Os tabus ainda eram muitos, e os estudos sérios sobre a sexualidade feminina eram poucos. Muitas vezes, era o casal que vinha à consulta, e era ao casal que o médico tinha de dar as informações e os conselhos. Essa época já lá vai há muito tempo e hoje a mulher tem liberdade para fazer as suas escolhas sexuais e tem toda a informação  que quiser à distância de um clique. Dizia o médico que, hoje, as mulheres já não vão à consulta queixar-se de falta de prazer sexual. Vão à consulta porque têm prazer mas… não lhes apetece ter relações sexuais!
 O médico explicava que, hoje, se vive muito através da imagem, particularmente da imagem televisiva. As pessoas vivem o que se passa no écran, fazendo suas as vidas que acompanham em séries e telenovelas. Compensam uma vida demasiado cinzenta e rotineira com o glamour, a beleza, a surpresa, o deslumbramento, que as novelas lhes fornecem. Isso compensa-as, mas por outro lado cria-lhes frustrações, porque a vida real não consegue acompanhar aquele ritmo frenético e fascinante. Entre o seu mundo e o mundo do sonho televisivo, há uma distância intransponível.
Como é que esta informação se pode relacionar com a primeira?  Muitas mulheres acompanham, no pequeno (ou, às vezes, grande!) écran, aquelas relações escaldantes, com olhares irresistíveis, desejos urgentes, roupa espalhada pelo apartamento, um copo antes e um cigarro depois!…  Mas a sua rotina não é essa, são dias de trabalho seguidos ainda do trabalho da casa e das crianças. São preocupações e listas de supermercado. São pilhas de roupa para passar e colegas metediços. São dores nas costas e filas intermináveis de carros. São recados da professora e advertências do chefe. São pijamas tirados à pressa e despertadores inflexíveis.
Ainda se admiram que as mulheres tenham perdido a vontade!
E ainda há quem diga que não se conseguem entender as mulheres! 


sexta-feira, 12 de março de 2010

Precious

Esta semana, iniciada com o Dia da Mulher, decidi que o meu blogue seria um blogue feminino. Evidentemente que, sendo escrito por mim, que sou mulher, parte sempre de um olhar feminino. Mas esta semana apetece-me destacar mulheres e falar de problemas das mulheres. Hoje, chegou a vez de Precious. 
Precious, ou Preciosa, Uma História de Esperança (título no Brasil), é um filme de Lee Daniels, que foi realizado no ano de 2009, e chegou este ano às salas de cinema, a tempo dos Óscares. É um filme de baixo custo e sem grandes nomes nos papéis principais. A actriz que faz o papel principal, Gabourey Sidibe, era uma desconhecida até há pouco tempo. Só nos papéis secundários encontramos nomes conhecidos, como Mariah Carey, Lenny Kravitz ou a extraordinária Mo'nique.
Mas, neste filme, isso não é nada importante, porque o que importa é fazer-nos reflectir, mais uma vez, sobre a violência que se desencadeia, por vezes, sobre os elementos mais indefesos da sociedade, as mulheres e as crianças. É um assunto que me preocupa bastante, já o estudei, já aqui falei um pouco sobre estas questões. O filme põe essa terrível realidade à frente dos nossos olhos. Não há como ignorar.
Clareece Precious Jones é uma adolescente de 16 anos. É negra, vive em Harlem com uma mãe completamente neurótica e disfuncional. É obesa. É quase analfabeta. É espancada e abusada desde criança, pelo pai, que lhe faz dois filhos, pela mãe que, em vez de a defender, colabora e prolonga os abusos, pelos outros jovens do bairro, que a gozam e maltratam pelo seu aspecto. Precious parece um caso perdido, em que a acumulação de maus tratos e abusos anula a sua própria capacidade de reacção. No entanto, ela vai buscar força a uma escola alternativa, onde aprende a ter um pouco de auto-estima, e ao filho que nasce e que ela ama e quer criar, apesar de tudo e contra todos.
É um filme que nos mostra tudo o que uma mãe não pode ser e tudo o que uma mãe deve ser. É um filme de onde o amor parece estar ausente e, no entanto, é o amor que acaba por remir e dar forças para lutar e continuar.
Li em algumas críticas que o filme não tinha grande qualidade e era lamechas. Lamechas porquê? Porque é difícil vê-lo sem chorar, é difícil ficar indiferente? Lamechas porque mostra que o amor por um filho pode dar força para lutar? Lamechas porque afirma que todos temos coisas positivas e precisamos, antes de mais, de amar a nós próprias? Lamechas porque mostra que a escola pode contribuir para o nosso crescimento enquanto pessoas? Lamechas por mostrar que todas as rapariguinhas são preciosas? Se é assim, ainda bem que é lamechas. E bem-haja por isso!

terça-feira, 9 de março de 2010

Três mulheres

Esta semana festejou-se o Dia da Mulher. Os maridos e companheiros ofereceram umas flores, houve uns jantares ou umas saídas ao cinema e, no dia seguinte, estava tudo como era antes. Provavelmente, nos locais do planeta onde a Mulher tem um caminho mais árduo ainda para percorrer até ver os seus direitos respeitados, a sua saúde preservada, a sua dignidade compreendida, este Dia nem tão pouco é festejado. Então, para que serve? 
Apesar de tudo, acho que serve para alguma coisa. Se alguém recordar o exemplo de uma mulher que deu um contributo valioso para o mundo, já vale a pena. Se daí resultar algum alerta sobre as indignidades que as mulheres sofrem em muitos locais deste nosso mundo, já é positivo. Se for lembrada a sensibilidade com que muitas mulheres contribuem para a construção de um mundo mais belo e tolerante, através da arte, já é mais um passo em frente. Se alguma mulher perceber que tem de construir o seu futuro com as suas próprias mãos, por vezes fazendo coisas novas, enfrentando preconceitos e portas fechadas, foi uma vitória. Se, em suma, contribuir para uma valorização do papel e da dignidade da Mulher, então este Dia já valeu a pena.
Em alguns blogues que vou visitando, festejou-se o Dia da Mulher recordando mulheres que ousaram ser diferentes e olhar o mundo de outras maneiras. Todas elas são exemplos do que é possível fazer, quando sacudimos a poeira dos sapatos e da cabeça. Seleccionei três, e vou aqui referi-las, remetendo para os belos textos que as homenagearam e que convido a ler.
- Maria do Céu da Conceição, uma jovem portuguesa, hospedeira de bordo, a quem o espectáculo da miséria inspirou a criação do Dhaka Project. Leiam sobre esta mulher, que nos dá orgulho de sermos portuguesas como ela, no blogue Crónicas do Rochedo.
- Catherine Hamlin, uma ginecologista que abriu um hospital na Nigéria, onde já curou o corpo e o espírito de milhares de raparigas. Uma mulher excepcional, para conhecer no blogue Papoila.
- Amelia Erhart, uma mulher muito à frente do seu tempo, que não hesitou em quebrar barreiras. Para conhecer ou recordar em Luz de Luma (luzdeluma.blogspot.com/)
Três mulheres, três exemplos. Para ler, recordar e inspirar durante este ano, até ao próximo Dia da Mulher.

(Maria do Céu da Conceição em Dhaka)

segunda-feira, 8 de março de 2010

A todas as mulheres do mundo

- Subia a rua angustiada, a arrastar os pés. Sim, foi assim que ela me disse, a arrastar os pés. Estava cansada, tinha ido quase ao outro lado da cidade para tentar arranjar um emprego. Era numa loja, ou talvez num supermercado, já não me lembro bem do que ela me disse. Mas lembro-me que disse que subia a rua a arrastar os pés. Na loja, não a quiseram nem entrevistar, que não, que o lugar já estava ocupado. Mas ela desconfiava que já a achavam muito velha para o lugar. Na altura, já tinha dois filhos crescidinhos e a experiência de trabalho não era muita. Quer dizer, experiência de mudar fraldas, lavar e passar, dar banhos, limpar o pó, bater carpetes, cozinhar e lavar louça e arrumar a cozinha, para logo a seguir cozinhar outra vez, de tudo isso ela tinha muita experiência. E também de contar histórias, e embalar no colo, e fazer puxinhos no cabelo, e empurrar o baloiço, e dar beijinhos no nariz!... Mas ninguém quer saber dessa experiência, não é?
Naquela altura, com a morte súbita do marido, as coisas tinham-se complicado muito. Não bastava a dor, e os filhos a perguntarem pelo pai, ainda apareciam contas que ela não tinha como pagar. Se ao menos tivesse um emprego! Lembro-me que ela me disse que arrastava os pés pela rua acima, de desânimo, o que não era nada dela, sempre cheia de energia. E, com a mão que levava na algibeira, amachucava o papelinho com o resultado da análise que, de caminho, tinha ido buscar ao Laboratório de Análises Clínicas, que não era longe.
Logo a seguir ao acidente, faltaram-lhe as regras e pensou: "É do choque, da emoção!" Mas os dias foram passndo, um e outro e mais outro, e a menstruação sem aparecer. Assim passaram mais de dois meses. Resolveu fazer a análise e tirar aquela dúvida que a angustiava dia e noite. E agora, ali estava o resultado, naquele papel que amarfanhava nervosamente na algibeira. Contou-me que, naquele momento, só tinha uma pergunta na cabeça: "O que vou fazer? O que vou fazer? O que vou fazer?" Ela pensava em todos os caminhos que se abriam à sua frente, ponderava as hipóteses. Já tinha os filhos mais velhinhos na escola, como ía agora organizar a vida com um bebé, ainda para mais sem marido e sem emprego? Pensou largar tudo e voltar para a terra da mãe, pensou fazer um aborto, fez as contas às alternativas que tinha!
- E o que fez ela? Conseguiu um emprego? Fez o aborto?
- Sim, acabou por arranjar um emprego, numa frutaria. E não fez o aborto, nasci eu!


Este texto, ficcionado a partir de uma conversa real, é a minha homenagem a todas as mulheres que diariamente, em todos os cantos da Terra, lutam e enfrentam o futuro com força, esperança e muita coragem.

sábado, 6 de março de 2010

Out of Africa

I once had a farm in Africa.
Quem não se lembra desta frase? A mim, ela transporta-me imediatamente para as terras quentes de África, numa viagem de aventura e descoberta inesquecível.


O prometido é devido e, finalmente, vou responder ao desafio da Vanessa e entregar o meu Óscar a um dos filmes que já alguma vez ganhou uma dessas cobiçadas estatuetas. Depois de muitas hesitações e escolhas difíceis, o meu Óscar vai para Out of Africa, com o título em português de África Minha.
Realizado por Sidney Pollack pela Columbia Pictures, ganha sete Óscares, incluindo o de melhor filme, no ano de 1985. Além desse, ganha os óscares de melhor direcção, melhor argumento adaptado, melhor fotografia, melhor banda sonora original, melhor direcção artística e melhor som. Entre 1985 e 1987, ganha ainda prémios Globos de Ouro (EUA), Bafta (Reino Unido), César (França), David di Donatello (Itália), da Academia Japonesa de Cinema e dos American Film Editors. Afinal, o que tem este filme de tão especial?
O filme é a adaptação do livro autobiográfico da baronesa dinamarquesa Karen Von Blixen que, por volta de 1914, portanto no início da Primeira Guerra Mundial, casa com o barão do mesmo nome e parte para África para desenvolver uma plantação de café. O filme trata das vicissitudes do seu estabelecimento naquele recanto do Quénia, entre os problemas da guerra e os seus próprios problemas pessoais. O filme retrata uma história de amor, entre a baronesa (Meryl Streep) e um caçador branco (Robert Redford), mas isso é muito redutor. Acima de tudo, o filme retrata a história de amor entre a baronesa e aquela terra quente de África, que a princípio rejeitou. É uma história de mudança, de aceitação das diferenças culturais, de aprendizagem e das muitas facetas do amor. Não vou contar o fim do filme, mas aconselho vivamente o seu visionamento, num destes fins-de-semana tristes e chuvosos.
Conta com interpretações de excelência de Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer e um grupo de intérpretes da zona do Quénia onde foi filmado. A banda sonora é extraordinária. Composta por John Barry, integra ainda Mozart e peças musicais e vocais tradicionais do Quénia. E é esta música que nos acompanha num cenário de incrível beleza, que nos faz viajar das praias de Mombaça ao Kilimanjaro, passando pelos campos e bosques do Quénia. Algumas das imagens deste filme irão acompanhar-nos sempre, pela sua grandiosidade, como esta sequência com que vos deixo.


I wish I had a farm in Africa

quinta-feira, 4 de março de 2010

Tinha 12 anos e tinha medo

Esta semana, um aluno suicidou-se por não aguentar os maus tratos infligidos pelos seus colegas, na escola. Já tinha ido parar ao hospital, já tinha chorado, já se tinha queixado. Não sei o que aconteceu aos colegas dele. Ele morreu. Tinha 12 anos e chamava-se Leandro.
Sou professora, já há muitos anos. Comecei no tempo em que a escola dava aos alunos ferramentas para eles seguirem o seu percurso. Mas a escola era ajudada pela sociedade, pelas famílias. Hoje, sinto que a escola, muitas vezes sozinha, não consegue ajudar aqueles que acolhe. Mais, devido a muitas perversidades desenvolvidas ao longo do tempo, abandona os mais vulneráveis e frágeis, enquanto se esgota em burocracias e planos românticos e ineficazes. 
Esta semana, o Leandro morreu. Somos todos responsáveis. Até quando vamos continuar a assobiar e olhar para o lado?

Tinha 12 anos e tinha medo 
E tinha um pesadelo
E um pântano no olhar
E o corpo numa grade
E a alma numa cela
E o sonho de um rio
Onde o medo se afogasse.
Tinha doze anos e uma escola
Que lhe ceifava as asas
E o fechava nesse medo
Que tinha e tinha doze anos!
"Tão jovem! Que jovem era?
Agora que idade tem?"
Chamava-se Leandro e era pequenino
Com um pavor tão grande
Que se abraçou às águas
No rio triste que o acolheu
Para o libertar do pântano
Onde o medo lhe tolhia
O respirar de cada dia.
E voou...
Que céu te acolhe, Leandro?
Que escola te matou?


quarta-feira, 3 de março de 2010

Um selo perfeitinho

Hoje, recebi um selo, muito bonito e perfeitinho, da Ematejoca. Já lhe agradeci, especialmente porque me ofereceu o selo sem a obrigatoriedade de responder ao desafio em que vinha embrulhado. Eu até gosto de responder a estas coisas, mas ando com tanto trabalho e tão pouco tempo livre (isto adicionado às coisas que eu imponho a mim mesma, como por exemplo: visitar o maior número possível de blogues que fizeram postagens na Fábrica de Letras!), que tudo se torna mais difícil.
Ao colocar aqui o selo, dei comigo a pensar na evolução deste blogue. Quando o iniciei, tinha um desejo, quase um sonho, que cheguei a partilhar com alguns amigos da blogosfera: ter um espaço de interacção com falantes de português, onde quer que eles estivessem. O mundo lusófono é tão grande, espalha-se por todo o mundo! Como seria bom partilhar ideias e experiências com amigos de todo esse mundo, do Brasil a Timor! A Teresa Palmira, do Ematejoca, vive na Alemanha, onde tenho outras amigas virtuais, tal como em vários cantos deste país e deste mundo. Já comuniquei com pessoas de Cabo Verde, da India, de vários pontos da Europa, além do Brasil, onde tenho alguns amigos com quem sinto uma ligação especial. Fico feliz. Ainda não cheguei lá, mas vou a caminho!


segunda-feira, 1 de março de 2010

O Faroleiro

(Este texto integra-se no tema proposto para o mês de Março pela
 Fábrica de LetrasO Silêncio)



- E incomoda-o, todo este silêncio?
O faroleiro pousou os seus olhos, azuis e transparentes, na jovem repórter que, de microfone na mão, esperava firme a sua resposta.
Quando a jovem telefonara a pedir uma entrevista, para uma reportagem que andava a preparar, pensou para consigo que não havia nada de interessante para contar. Agora, os seus olhos, de um azul límpido talvez de tanto olhar o mar, pousavam na jovem com estranheza. De facto, o que sabiam as pessoas das funções de um faroleiro?
Ele próprio não sabia muito bem, quando concorrera para aquele posto, já há quase vinte anos. Na altura, tinha vindo com a mulher e a filha, ainda pequenina, e tinham vivido todos na pequena casa junto ao farol. Tinham sido tempos de isolamento, mas também de felicidade. Depois, veio outro filho, os miúdos cresceram, precisavam de estar perto da escola, a mulher mudou-se para a vila, arranjou um emprego, e agora viam-se ao ritmo dos turnos do Farol.
Mas não era infeliz. Havia sempre muitas coisas para fazer. Já não era preciso subir os mais de cem degraus da torre, regularmente, para acender as luzes que avisavam os marinheiros dos perigos da costa. Agora, já era tudo automático. Mas havia que estar alerta, constantemente verificar se tudo estava ligado e a funcionar correctamente. Depois, havia que fazer as medições requeridas pelo Instituto de Meteorologia. Quatro vezes por dia, recolhia os dados relativos à temperatura, à humidade, à velocidade do vento, à altura das ondas, à visibilidade no mar e enviava-os. E havia sempre pequenas reparações para fazer.
Ouvia o barulho das ondas e habituara-se a distinguir os gritos das aves que nidificavam nas falésias. Às vezes, sentava-se à pesca e, se lhe fazia falta o som da voz humana, cantava alto, e os gritos das gaivotas e dos tentilhões respondiam ao seu canto. Depois, se o dia estava bonito, sentava-se numa rocha a ver o sol desaparecer na linha do horizonte, num cortejo de laranjas, vermelhos, roxos, até a noite cair.
Tinha sempre livros consigo, que trazia da biblioteca da vila. Gostava dos que descreviam aventuras no mar, marinheiros corajosos, exploradores intrépidos. Esses, lia-os uma e outra vez, e depois deitava-se, com o livro aberto sobre o peito, a sonhar de olhos abertos.
Olhou para o mar que se vislumbrava a toda a volta do farol. Havia tanta coisa que podia explicar àquela jovem jornalista. Por exemplo, podia contar-lhe que silêncio, mas silêncio mesmo, sentira-o quando os pais morreram. Entrou na casa que sempre tinha sido a sua, rodeado de pessoas que lhe diziam coisas que ele não ouvia, e as paredes cobriram-no com um silêncio espesso, que pousava nos móveis e nos objectos e os imobilizava, e lhe apertava o coração como uma garra.
De repente, percebeu que a jornalista estava a confundir o silêncio com a simples ausência da voz humana. A face distendeu-se-lhe num sorriso largo. Voltou a pousar os olhos azuis e transparentes na jornalista, que esperava a sua resposta de microfone na mão.
- Não, o silêncio não me incomoda nada.

(Vista do Cabo Sardão com o seu farol
Costa Vicentina, o "Reino da Cegonha Branca")