domingo, 31 de janeiro de 2010

Assim sou eu!


A BlogGincana propôs uma brincadeira engraçada e original para este mês. Passo-lhes a palavra.



Tarefas de Janeiro (as inscrições ficam abertas de 15/1 a 10/2):
1 - Postar no seu blogue uma fotografia com 10 objectos diferentes, numa composição estética livre. Será desejável que cada um dos participantes se identifique com um dos objectos expostos, dando à composição uma identificação mais personalizada e psicologicamente mais íntrinseca.

Hoje foi dia de cumprir a tarefa. Mas este conjunto de objectos precisa de uma "legenda" (excepto para quem me conhece)! Então, vamos à explicação dos objectos e da sua ligação comigo.



1 - A pasta da escola. Com ela passo a maior parte dos meus dias.
2 - A mala de viagem. Porque adoro viajar.
3 - O velho álbum de fotografias. Porque preservo e acarinho as memórias familiares.
4 - A boina. Porque gosto de usar coisas na cabeça.
5 - O colar de fantasia. Faz parte das quinquilharias que eu gosto de usar.
6 - Os óculos. Os meus óculos do mundo.
7 - Os livros. Neste caso "A misteriosa chama da Rainha Loana" de Umberto Eco, mas podia ser outro. Não podia era não haver livros. Também dois livros de poesia, Eugénio de Andrade e José Luis Peixoto. Porque... sim.
8 - O CD de música. Porque é difícil viver sem música. Neste caso, é "O'stravaganza", uma fantasia de Vivaldi com música celta. Mas podiam ser muitos outros.
9 - O passaporte. Porque estou sempre pronta para novos voos.
10 - O meu terraço, onde tirei esta fotografia. Porque é o meu balcão sobre a natureza. E é o meu sítio preferido da casa.

E pronto, eu também sou os meus objectos. Sou assim!
(Se apetecer aos meus visitantes ouvir O'Stravaganza, e vale a pena, está aqui um pedacinho, só para abrir o apetite!)





sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Postal de Lisboa XII - O Animatógrafo do Rossio

O velho Animatógrafo do Rossio

A vinte metros do Rossio, por trás do Arco Bandeira, precisamente no n.º 229 da Rua dos Sapateiros, situa-se o Animatógrafo do Rossio. Fundado em 1907 pelos irmãos Ernesto Cardoso Correia e Joaquim Cardoso Correia, era, à época, o mais luxuoso cinema de Lisboa, o primeiro a oferecer uma lotação de 100 lugares para assistir às novas variedades que vinham de França e dos Estados Unidos da América: as fitas de cinema.
Abriu a 8 de Dezembro, com a estreia do filme "A Aventureira". A partir daí, teve as suas vicissitudes: foi palco de teatro de variedades, foi sede de companhia de teatro infantil, mas, durante a maior parte da sua vida, foi um cinema. Em 1984, estando então fechado devido à morte dos seus proprietários, a Associação Portuguesa de Realizadores de Filmes propõe este espaço para sua sede, mas tal intenção nunca veio a concretizar-se. Em 1994, reabre com espectáculos eróticos. Hoje, é a Sexilândia, com anúncio público na Internet. Sex-shop e Peep-Shows.
Fiz este pequeno historial do Animatógrafo do Rossio para que se perceba que é um espaço com uma história que se cruza com a própria história da cultura da cidade de Lisboa. Mas posso acrescentar que, além de tudo isto, o Animatógrafo do Rossio é um dos melhores exemplos de decoração urbanística no estilo Arte Nova que a cidade possui. Os relevos exteriores são executados em madeira esculpida e os azulejos que se encontram entre as portas e a bilheteira, são ornamentados por figuras femininas e motivos florais. Ainda hoje  é um edifício bonito e vêem-se frequentemente turistas a admirar e fotografar a bela fachada. É claro que, hoje, se arriscam a fotografar, por engano, algum dos frequentadores da Sexilândia, que ali entram e saiem a qualquer hora do dia. As cortinas vermelhas não enganam, e as letras em neón, que desfeiam a fachada, também não.
Não sei se é pedir muito, mas não seria boa ideia dar um destino mais digno a uma das mais antigas e luxuosas salas de cinema de Lisboa? Dra. Maria João Seixas, já que tomou conta da Cinemateca, não poderia também tomar ao seu cuidado este espaço, que bem merece voltar a ter funções na arte para que foi fundado há mais de cem anos? Tenho a certeza de que não faltariam ideias, desde a já pensada sede da Associação Portuguesa de Realizadores, até um espaço museológico dedicado à 7.ª arte.
E quanto aos lisboetas, estou certa que gostariam de passear pela Baixa e não encontrar um espaço tão cheio de história e beleza entregue a uma realidade tão... nua e crua!


Pormenor da fachada do Animatógrafo

(Fotografias de FAires)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Faz hoje 65 anos que foi libertado o Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau. Esta data, que nos relembra um dos episódios mais ignóbeis da história da humanidade, foi aproveitada para a comemoração do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. 
Houve algumas comemorações, embora, de um modo geral, a efeméride tenha passado despercebida. Podem algumas pessoas argumentar que os factos do Holocausto são já bem conhecidos e que não vale a pena andar sempre a falar da mesma coisa. Não concordo. O Holocausto Nazi foi a manifestação mais fria e desumana do desprezo pela vida humana. Foi um exemplo prático do ponto, sem retorno, a que pode chegar o ódio, o fanatismo e a intolerância. Acho que nunca é demais falar sobre isso, estudar e ensinar estes acontecimentos, reflectir sobre eles. Independentemente de quem foram os carrascos e de quem foram as vítimas, o fenómeno do Holocausto deve ser visto como um paradigma da violência do Estado sobre o indivíduo, da indiferença em relação ao sofrimento do outro. E essa reflexão tem uma dimensão universal.
Dizia o professor Hermenegildo Fernandes que não há reflexão sem memória. A miopia da memória oculta-nos a realidade. Ou deforma a visão que temos dessa realidade. Não podemos permitir que isso aconteça.



(Fotografia de crianças num campo de concentração - Museu da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho de Genève)



(Copiado do blogue Canetas Coloridas, da Paula)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

No dia em que eu gostei de um jogo de futebol!

Dita por mim, esta frase tem o peso de um "No dia em que os animais falaram!" ou outra coisa idêntica, de pasmar. Eu tenho com o futebol uma relação difícil, não distingo um fora de um livre, não percebo porque é que têm de chamar mister ao treinador, quando toda a gente se levanta e grita eu preciso de ouvir o locutor da televisão para perceber se foi golo ou penalty. Na verdade, não tenho paciência para ver um jogo inteiro (acho que nem no Euro 2004 o consegui). Só fui uma vez a um estádio ver um jogo a sério e distraí-me a ver o espectáculo das claques, já que não conseguia interessar-me pelo que se passava no relvado. Na generalidade, acho as claques um bando de gente abstrusa e com um fanatismo pelo seu clube, para mim totalmente incompreensível. Pronto, sou do Sporting, mas mais pelos meus meninos que lá jogam.
Posto isto, e bem definida a minha posição futebolística, admito: ontem, quase gostei de ver o jogo que opôs o Benfica All-Stars aos amigos de Zidane e Ronaldo. Não houve empurrões nem pontapés, não houve ofensas ao árbitro nem declarações dramáticas pós-jogo. Não houve problemas nas bancadas nem nos túneis. Houve aplausos e sorrisos. Houve respeito e homenagens aos mais velhos. Enfim, houve festa. Claro que era por uma boa causa, era o Jogo contra a Pobreza, a favor das vítimas do sismo no Haiti, e todos sentiam um coração solidário a bater no peito. Mas o respeito e o desportivismo não deviam ser a regra e não a excepção?







(Não acredito que acabei de escrever um post inteirinho sobre futebol!)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Apontamento de Alcochete

Alcochete é a minha aldeia.
Talvez por ter nascido e crescido na cidade grande, sinto Alcochete como a minha aldeia. Dizem que é uma vila. Mas tem mentalidade de aldeia.
Também dizem que toda esta água que a rodeia é o estuário do rio Tejo, aqui na sua máxima extensão. Mas, para mim, é o mar de Alcochete, de largos horizontes.
Aqui, o rio namora descaradamente as casas, em cada esquina. E as gaivotas pousam no pátio da minha escola, a apanhar os pedacitos de pão que os miúdos deixam cair. De tanto olhar para elas, já sei distinguir as gaivotinhas que nasceram este ano, de penas escuras e bico cinzento, das gaivotas mais velhas, que já mudaram as penas e pintaram o bico de cor-de-laranja. Já sei distinguir as rolas-da-Índia, que voam misturadas com os pombos. Sei reconhecer as garças e os alfaiates, que debicam nas salinas, por entre os flamingos.
Sei tanta coisa que não sabia, antes de vir morar aqui! Estamos sempre a crescer por dentro!





 (Fotografia de FAires)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Gosto bué de ti!

Aqui há tempos, andou a circular na internet uma carta de amor muito engraçada, endereçada a um tal Jorge Daniel. Mas agora os putos já estão muito à frente e já perceberam que as novas tecnologias é que estão a dar!
Ora, o Luis, que eu não conheço pessoalmente mas que me conquistou sem reservas, resolveu declarar o seu amor directamente no YouTube. Não sei o que pensou disso a rapariga dos seus sonhos, mas eu quase chorei... a rir. Vale mesmo a pena ver, até ao fim!
Boa sorte, Luis!


sábado, 23 de janeiro de 2010

O melhor e o pior da raça humana

As catástrofes tendem a revelar o que de melhor e de pior tem a raça humana. A terrível catástrofe que se abateu sobre o Haiti não foi excepção.
Não sou daquelas pessoas que vêem lados negros em tudo. Emocionou-me o sofrimento tremendo de todo aquele povo e, se imaginasse que alguém me poderia dar uma resposta, apetecia-me perguntar: "Como é possível acontecer uma desgraça destas num país que já é um dos mais pobres do mundo? Adicionar uma catástrofe natural a um país que já vive em estado de catástrofe social?" Enfim, os sismos não fazem cálculos de prejuízos. Acontecem, simplesmente.
Também me emocionou a prontidão e a entrega com que as equipas internacionais se lançaram às tarefas, todas elas difíceis, de tentar resgatar sobreviventes, de levar comida, água, cuidados de saúde, a uma população carente de tudo e em estado de choque, de tentar manter a ordem e a operacionalidade no aeroporto, nas ruas, nas distribuições de alimentos. 
Todos vimos equipas multi-nacionais, espanhóis com cubanos, americanos com bolivianos, sul-africanos com australianos, abnegadamente, horas a fio, a trabalhar para salvar mais uma vida.
Esse é o lado melhor da raça humana, que nos leva a unir esforços para ajudar quem está em dificuldades.
Mas, depois, há o lado pior, que se revela também. Os gangs que já controlavam Port-au-Prince antes do sismo, continuam a espalhar o terror. As próprias equipas de resgate sofrem ataques, tenta-se roubar qualquer coisa que possa ter algum valor. 
Dei por mim a pensar no Marquês de Pombal que, após o grande terramoto que arrasou Lisboa em 1755, não só "enterrou os mortos e tratou dos vivos", como ergueu patíbulos na Praça da Alegria para castigar exemplarmente aqueles que, nessa altura como agora, se dedicavam à pilhagem.
Infelizmente, receio que o pior ainda esteja para vir. Temo que o dinheiro agora solidariamente angariado vá chegar com muita dificuldade ao seu destino, isto é, à reconstrução do Haiti. Pelo meio, como sempre, haverá mãos corruptas a desviar em seu proveito esse dinheiro.
Imagino o aumento do tráfico de crianças, nas mãos de pessoas sem escrúpulos que, a coberto da adopção internacional, irão transformar a tragédia daquelas crianças num negócio bem rentável.
Enfim, antevejo um Haiti a sobreviver a esta tragédia com os mesmos problemas de sempre. Um Estado falhado, incapaz de assegurar estruturas mínimas de apoio aos seus cidadãos. Uma população que continuará a viver nos limites da pobreza, apenas mais carente, com mais orfãos, mais mutilados, mais gente sozinha e vulnerável.
Assim que os holofotes internacionais se afastarem do Haiti, assim que a atenção dos meios de comunicação for atraída por outro assunto, tudo voltará à mesma.
Até nós, absorvidos pelo pequenino mundo à nossa volta.
Lá diziam os velhos Beatles, há mais de 30 anos: "Living is easy with eyes closed"!



Um bairro da lata, em Port-au-Prince (Fotografia de 2008)


Imagem do The New York Times

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Carta de Condução

Não consigo explicar qual a razão pela qual ainda não coloquei aqui no blogue um poema de José Luis Peixoto. Creio que é um dos escritores e poetas mais interessantes e originais do panorama português actual. Gosto dele por muitas razões, todas especiais. Escolhi este poema. Podia ter escolhido outro. José Luis Peixoto tem o condão de nos tocar e emocionar em cada palavra.


Carta de Condução


Já tive um carro da cor dos teus olhos. Deixava-o
estacionado à frente de prostíbulos onde alugava
quartos com vista sobre o quintal dos vizinhos.


Esperava por semáforos, sem saber que esperava
apenas por ti. No auto-rádio, a tua voz cantava
fados demasiado velhos até para a minha mãe.


A segunda circular era uma manifestação pacífica
de pára-brisas, as palavras de ordem eram simples
porque ainda não sabia que já me tinhas escolhido.


Quando os outros rapazes folheavam revistas de
carros nas aulas de matemática, eu apenas me
interessava por unicórnios e farmácias abandonadas.


Agora, os meus olhos contam quilómetros nos teus,
procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e
tenho tanto medo que me vendas em segunda mão.


(José Luis Peixoto, Gaveta de Papéis, 2008)





quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Lisboa, de regresso

Escrevia Carlos Carneiro nesse livro, que é uma autêntica injeção de leveza e boa disposição, chamado "Até onde vais com 1000 euros?": A melhor sensação de viagem é saber que temos sempre alguém à nossa espera. Eu acrescentaria: outra boa sensação de viagem é saber que temos um sítio à nossa espera, um sítio que nos pertence porque nós lhe pertencemos, um sítio que reconhecemos e onde nos reconhecemos.
Regressei, como muitas vezes acontece, de avião. Da minha raivinha aos aviões, e da ligeira claustrofobia que aí me ataca, já dei conta noutra crónica. Não vou voltar a falar disso. Mas apetece-me falar da emoção que toma conta de mim sempre que regresso e vejo, lá de cima, a minha cidade.
Lisboa padece de vários problemas, todos o sabemos. Mas quase o esquecemos quando olhamos, da janelinha do avião, e a vemos cá em baixo. Parece tão organizada, com os seus bairros e as suas ruas e avenidas convergindo para praças centrais! Lá de cima, não vemos lixo nem degradação. Vemos os monumentos, como pecinhas de Monopólio. Vemos o rio, as duas pontes, belíssimas, imponentes, o Cristo Rei. Enxergamos barquinhos iluminados sulcando o rio. 
Acima de tudo, reconhecemos os espaços que são nossos. O sítio onde vivemos tem o encanto do que é familiar. Cada rua, cada pedra, conta histórias que nós conhecemos. 
Gosto muito de viajar. Mas também gosto tanto de regressar! 




Um velho cacilheiro do Tejo (Foto de Teresa Ferreira)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Pausa

Por razões de força maior, este blogue vai fazer uma pequena pausa.
Mas eu voltarei, prometo.



(Sesta, Almada Negreiros)

domingo, 10 de janeiro de 2010

All you need is love!



Ora aqui está uma iniciativa internacional que é de aplaudir.
No dia 7 de Dezembro de 2009, pessoas de 156 países diferentes uniram-se ao cantarem a mesma canção, exactamente à mesma hora. Este é o video que junta pedacinhos da contribuição de todos esses países.
O objectivo era alertar para a Sida em África. Não sei se alertou alguém para a Sida, mas o facto de pôr pessoas de todo o mundo em relação, a interagirem por um objectivo comum, parece-me que já é suficientemente importante.
Porque realmente, neste nosso mundo tão egoísta, "all we need is love"!



sábado, 9 de janeiro de 2010

Mensagens nos céus



Aqui há tempos, encontrei num blogue amigo um texto interessante sobre a forma como os povos antigos interpretavam o céu  e as estrelas. Uma dessas interpretações espantou-me e encantou-me. Segundo parece, os índios norte-americanos consideravam que o firmamento era um livro de sabedoria, e as estrelas os ensinamentos que os primeiros homens aí tinham fixado.
Lembrei-me disto ao rever as fotografias da passagem de ano. Desde a Nova Zelândia, a primeira a festejar, até às ilhas do Pacífico, durante quase vinte e quatro horas, assistimos pela televisão a uma sucessão de festejos, todos com um ponto em comum: o fogo de artifício. Por todo o mundo, à hora da passagem do ano e, neste caso, da década, estrelejaram nos céus cascatas de luzes, explosões de cores. Alguns destes espectáculos são magníficos e famosos no mundo inteiro. Outros são mais modestos, para consumo caseiro, e são lançados no largo da praça da vila mais modesta, como nas baías dos grandes centros turísticos. Mas estão sempre lá, presentes. O que nos leva a associar estes acontecimentos aos fogos de artifício?





Não há dúvida que os festejos de passagem de ano estão ligados ao renovar da vida, a um recomeço que se deseja cheio de coisas boas, de saúde, de paz, de alegria, da concretização de milhentos pequenos sonhos. Renovam-se votos, esperanças, propósitos. Talvez os nossos votos e as nossas esperanças se espelhem nos céus, em cada uma das pequenas estrelas coloridas do fogo de artifício. Talvez elas sejam mensagens que escrevemos nos céus, como acreditavam os índios norte-americanos.
Este ano, que mensagens mandámos para o céu? O que escrevemos no firmamento, com pólvora e cores brilhantes? O que lemos no nosso céu?




(Fotografias de FAires)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ágora

Como sabem os que por aqui me seguem já há algum tempo, gosto de aproveitar as nossas "interrupções lectivas" para pôr um pouco em dia o meu gosto pelo cinema e ver um ou outro filme que não tenho tempo de ver noutras alturas. Aproveitei então e fui ver, por sugestão da Ana, o filme "Ágora", que retrata os últimos anos da matemática e filósofa Hipátia, na cidade de Alexandria. O filme, realizado por Alejandro Amenabar, começa em 391, isto é, no ocaso do Império Romano, na época em que o Imperador Teodósio declara o Cristianismo a religião oficial do Império Romano. Tenho uma simpatia clara por Hipátia, é a primeira mulher matemática numa cidade fascinante, a Alexandria helenística, centro do conhecimento e da multiculturalidade mediterrânica.
A veracidade histórica é bastante razoável. Os personagens principais são figuras históricas, desde o pai de Hipátia, Theon, até ao Bispo Cirilo. Parece que Hipátia era mesmo uma mulher assumidamente independente e celibatária num mundo predominantemente masculino. Terá ajudado o seu pai em cálculos matemáticos e feito, ela própria, estudos de matemática e astronomia. No entanto, fiquei intrigada com os tremendos avanços que o filme retratava e resolvi consultar um especialista na matéria. Nuno Crato, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, explica neste texto que efectivamente as descobertas astronómicas que, no filme, são feitas por Hipátia, não são reais, terão de esperar quase mil e quinhentos anos, até serem reveladas por Kepler.
Não obstante estes erros históricos, o filme faz-nos reflectir sobre questões essenciais. Hipátia é realmente morta por uma multidão em fúria, que não aceita o seu papel de protagonista na sociedade e exige que ela se remeta a um papel silencioso de esposa e mãe. Mas também a famosa Biblioteca de Alexandria é destruída pela turba furiosa, que não aceita outra fonte de sabedoria que não o seu Livro Sagrado. Como é que um grupo religioso, barbaramente perseguido durante séculos, se transforma ele próprio num cruel perseguidor? O fanatismo e a intolerância são sempre iguais e com resultados igualmente desastrosos, em qualquer época ou latitude.
Esteticamente belo, mas principalmente provocador e reflexivo, é um filme que retrata o momento em que a ágora deixou de ser um espaço público de discussão. E faz-me pensar como poderia ter sido, se a ágora tivesse podido continuar a fomentar o pensamento crítico e o uso da razão.
Quem quiser conhecer melhor a figura histórica de Hipátia, poderá ler Hipátia de Alexandria, um estudo de Maria Dzielska, editado pela Relógio d’Água.

 

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Laços

Fui agora de manhã aos Correios buscar uma encomenda do Brasil. É um livro, que me foi enviado por uma amiga que conheci através deste blogue. Também lhe enviei um livro, mas sei que ainda não chegou. Conheci-a, como conheci outras pessoas, a partir do acaso de um clique, ou de algum aspecto de me despertou a curiosidade no blogue de algum amigo comum. Mas o acaso terminou aí. Só continuamos a ler e a comentar os nossos blogues respectivos porque assim o escolhemos. 
Ultimamente, tenho lido muita coisa na blogosfera acerca dos blogues e das amizades virtuais que aí se constroem, assim como nas outras redes sociais da Internet. Desde pessoas que se acham detentoras da verdade absoluta sobre blogues, e o que eles devem ser, e o que devem conter, até pessoas que só utilizam a blogosfera para a sua promoção pessoal, encontra-se de tudo. Há aquelas pessoas que nos vêm comentar e nem se dão ao trabalho de dizer uma palavra sobre o nosso post, porque o objectivo é a promoção do seu próprio blogue. Há os que são ofensivos ou ordinários no que escrevem ou nos comentários que deixam.  Mas nós temos sempre a escolha de publicar ou não um comentário, e mesmo de bloquear um seguidor que não nos agrada. Há quem diga que um blogue expõe a nossa vida privada. Mas nós só nos expomos até onde queremos. E, confesso, até acho esse comentário divertido nesta época de exposição despudorada de acontecimentos e sentimentos que nos entra em casa diariamente, através dos meios de comunicação social (e mais ainda através das revistas cor-de-rosa, para quem se dá ao trabalho de as comprar).
Eu acho que tive muita sorte. Em menos de um ano de vida blogueira, encontrei muitas pessoas extraordinárias, que não conheceria de outra forma, quer vivam do outro lado do Atlântico, quer vivam do outro lado da cidade. Encontramo-nos porque partilhamos interesses comuns, gostamos de ler, ou de escrever, ou de viajar, ou de animais, ou de música, ou de fotografia, ou de cinema... Nada mais do que isso, e tanto que isso é!
Criei laços. Este livro é a prova carinhosa.
E os laços de carinho, virtuais ou não, são exactamente aquilo que devemos cultivar, neste mundo apressado e um bocado louco que é o nosso.





(Fotografia de FAires)

sábado, 2 de janeiro de 2010

Momento

(Este texto integra-se no tema "Beleza", proposto para o mês de Janeiro pela Fábrica de Letras)







A mulher abriu a porta do automóvel e dirigiu-se com dificuldade para a entrada do hospital. No guichet, a funcionária perguntou-lhe:
- Está muito aflita? Traz acompanhante? Precisa de cadeira de rodas ou acha que consegue andar? Diga-me só o nome e a morada.
Respondeu às perguntas e explicou que vinha com o pai. O marido tinha ficado em casa, com os dois filhos mais velhinhos.
- Pode entrar, o elevador é ali à direita. Sai no 2.º andar, eu vou avisar, a enfermeira já vai estar lá à sua espera.
Lá foi, andando com passos pequeninos, parando a cada contracção, tentando controlar-se. Eram 4 horas da manhã, o hospital estava vazio e os seus passos hesitantes ecoavam no corredor. No 2.º andar, a enfermeira já a esperava. Com os seus evidentes anos de experiência como enfermeira-parteira, tomou logo as rédeas da situação.
- Vamos ver como está a dilatação. Já tem três dedos de dilatação, já deve estar com bastantes contracções. Dê-me os exames, as ecografias. Vai à casa-de-banho e depois directamente para a sala de preparação. Vamos ligar o CTG.
Na sala de preparação, outras duas mulheres lutavam pelas novas vidas que se preparavam para nascer. Nem se olharam, cada uma concentrada na sua própria luta.
A mulher sentiu as águas rebentarem, uma torrente de águas quentes que parecia sair da própria dor que começava a cortá-la ao meio. Sentiu, mais do que ouviu, a voz familiar da sua médica obstetra. “Esta rapariga está cheia de vontade de nascer! Quase não me dá tempo para vestir a bata!” Tentou sorrir, mas só conseguiu suspirar de alívio pela presença da médica. Percebeu que a mudavam para outra maca, percebeu que estava na sala de partos, percebeu que lhe prendiam os pés nuns suportes elevados, percebeu que a auxiliar lhe calçava umas meias. “Não sabemos o tempo que isto vai demorar, não queremos que lhe arrefeçam os pés, não é?” A auxiliar apertou-lhe a mão, com carinho. “Isso, pode gritar à vontade!” Isso não tinha percebido, que estava a gritar. Onde estava a mulher que costumava ser, sempre tão controlada?
A enfermeira exclamou: “Não faça força! Não faça força ainda!” A mulher pensou que não estava a fazer força, era a filha que estava com pressa. “Agora vamos cortar um bocadinho, para a bebé não rasgar, está bem? Vá, agora é que é para fazer força!” Mas onde estavam já as forças? Pensou: “Não consigo! Já não consigo fazer força!” Cada dor era mais violenta e não a deixava concentrar no que precisava de fazer, que era fazer força. Um último esforço. “Pronto, já está. Muito bem, mãe, portou-se muito bem!”
Olhou pela primeira vez para a filha, ao colo da enfermeira. Chorava alto e estava vermelha e enrugada do esforço que fizera para nascer. No alto da cabeça, uns tufos de cabelo escuro, desgrenhado. A mulher pensou que não se parecia com ninguém. Só daqui a algum tempo ia começar a vislumbrar parecenças. “Tem os olhos da tia Joana” ou “O sorriso é igual ao do avô Eduardo”.
A enfermeira colocou a bebé sobre o peito da mulher, o que a fez sossegar e deixar de chorar. A mulher apertou-a docemente e sentiu que uma onda de ternura a avassalava e transbordava para aquele corpinho, tão pequeno, tão vermelhusco e enrugado, tão indefeso, tão seu, tão belo!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

É tempo de...


Chegou um Novo Ano



É tempo de refazer os sonhos ainda não realizados
e acreditar que iremos conseguir concretizá-los.

É tempo de aprender com os erros do ano que passou
e brindar o ano que chegou com um sorriso.

É tempo de pegar em todas as derrotas do ano que passou
e transformá-las em pequenas batalhas que este ano tentaremos ganhar.



Bom 2010!