quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Resolução de Ano Novo



Já o disse antes, final do ano é tempo de balanço. 
Este ano, iniciei dois blogues, que me têm dado muito prazer, pela interacção, pela partilha. Mas, não há dúvida, têm-me tirado algum do pouco tempo livre que tenho disponível para outra actividade que me é querida, a Leitura. Ler é também viajar, entrar noutros mundos, conhecer pessoas e locais, viver aventuras alegres ou sombrias. Acima de tudo, para mim, a leitura é um espaço de recolhimento e reflexão que me faz muita falta.
Porque gosto dos autores lusófonos contemporâneos, tenho tentado conciliar essas leituras com o blogue, publicando aqui algumas resenhas e, principalmente, impressões pessoais.
Agora, fiz uma resolução para o novo ano. Algum visitante mais atento talvez tenha já reparado na lista que coloquei na barra lateral do blogue. Vou apontar aqui os livros que for lendo ao longo do ano. Para já, o objectivo é ler 24 livros, o que significa dois livros por mês. Não é um objectivo ambicioso, mas é exequível.
E é uma forma de me disciplinar. Continuarei a publicar algumas resenhas, especialmente dos livros escritos em português, de Portugal ou do vasto espaço lusófono. E, daqui a um ano, farei um novo balanço.
Para já, coloquei na lista o livro que estou a ler e terminarei já no novo ano, seguramente: Expiação de Ian McEwan. Se alguém quiser comentar as minhas leituras, esteja à vontade, comentários e opiniões são sempre bem vindos.
Bom ano e boas leituras!








segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Um triste balanço






O final do ano é, tradicionalmente, a altura de fazer balanços. Pensamos sobre o que correu bem ou mal, procuramos explicações, fazemos novas resoluções. Isto é válido para nós, individualmente, mas também enquanto membros de uma sociedade. Como mulher, custa-me particularmente o balanço anual sobre a evolução da violência doméstica em Portugal.
É difícil dizer se a situação, em Portugal, tem evoluído no sentido positivo ou não, porque há um número crescente de queixas, que nos leva a pensar que muitas situações que ficariam ocultas, são agora denunciadas. Em Portugal há mais de 20 mil queixas por ano, registando as forças policiais uma média de 2.312 queixas mensais (dados do Relatório Anual de Segurança Interna de 2008). É mais do que antes? É menos? Seja como for, é muito. Especialmente se pensarmos que, em média, e segundo um estudo norte-americano, as mulheres só denunciam a situação de violência após 35 incidentes. Porquê? A presidente da Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, Teresa Féria, explica que a demora em denunciar o crime se deve ao medo, pois o agressor é normalmente o homem em quem já se confiou e amou e, muitas vezes, o pai dos filhos. O medo mistura-se com a esperança de que "as coisas vão mudar", daí o tempo decorrido até se denunciar a situação, refere João Lázaro, secretário-geral da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, que acrescenta que "há todo um relacionamento e carga afectiva envolvidos".
Muitas vezes, a denúncia chega tarde demais. Neste ano de 2009, desde Janeiro até Novembro, foram mortas 25 mulheres em Portugal, vítimas de violência doméstica, o que dá uma média um pouco superior a duas mulheres assassinadas por mês. Impressionou-me também o facto de serem cada vez mais jovens. Segundo dados da União de Mulheres Alternativa e Resposta, as 25 mulheres assassinadas este ano, até Novembro, tinham menos de 35 anos. Isto deve fazer-nos pensar. O que está a fazer a sociedade? E a Escola? Que valores estamos a transmitir aos nossos jovens? 
Eu sei que este problema não é de agora. Nem é apenas do nosso país. Mas é altura de encarar seriamente as questões que se relacionam com a igualdade de género e o uso e abuso da violência. Numa época em que as mulheres acedem em massa ao mercado de trabalho, em que repartem as responsabilidades da esfera pública com os homens, em que a escolarização é idêntica à masculina (no nosso país, a percentagem de raparigas no ensino universitário é até ligeiramente superior à de rapazes), há situações que já não podem admitir nem desculpar.



(Em memória das mulheres assassinadas por violência machista
 Léon-Espanha Agosto de 2009)

(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

sábado, 26 de dezembro de 2009

Dia Mundial da Poesia?

Pronto, lá passou mais um Natal. E, depois daquela azáfama toda dos últimos dias, hoje só me apetece sossego. Arrumar as prendas e os lacinhos, aproveitar um ou outro saco de Natal, comer sopa (o meu estômago resiste a qualquer outra sugestão, depois dos excessos dos últimos dias!), são as actividades do dia.
Talvez porque gosto muito de poesia, decidi procurar na minha agenda escolar a data que enaltece esta forma superior de expressão. Para minha surpresa, não encontrei o que procurava. Há Dias Mundiais para tudo, desde a Liberdade às Zonas Húmidas, passando pelo Turismo e pelos Castelos, pelo Índio e pelas Florestas. Encontrei um Dia Mundial do Relógio de Sol, que me encantou. Até encontrei um Dia Mundial da Normalização, o que me afligiu bastante, já que eu acho que as nossas diferenças é que nos tornam interessantes. Mas, Dia Mundial da Poesia, para a Editora da minha Agenda Escolar, não existe.
Felizmente, existe a Internet. Uma busca rápida informou-me que o Dia Mundial da Poesia se comemora no dia 21 de Março. Fiquei mais descansada mas, ao mesmo tempo, desiludida. Depois de tanto trabalho, não me apetece esperar até Março. Por isso, decidi que, para mim, o Dia Mundial da Poesia é hoje mesmo.
E, como gosto de ser diferente, não o vou comemorar com uma poesia, mas sim com uma pequena história do poeta brasileiro que eu mais admiro, Carlos Drummond de Andrade.






"Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez, Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pala chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça: -Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia". 


                                                (Carlos Drummond de Andrade)


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Votos de Natal


NESTE NATAL EU GOSTARIA


Que as VERDADEIRAS AMIZADES continuem eternas e tenham sempre um lugar especial nos nossos corações.

Que as lágrimas sejam poucas e compartilhadas. Que as alegrias estejam sempre presentes e sejam festejadas por todos.

Que o CARINHO esteja presente num simples olá, ou em qualquer outra frase, ou digitada rapidamente.

Que os CORAÇÕES estejam sempre abertos para novas amizades, novos amores, novas conquistas.

Que as coisas pequenas como a inveja ou o desamor, sejam retiradas de nossa vida.

Que aquele que necessite ajuda, encontre sempre em nós uma animadora palavra amiga.

Que a VERDADE sempre esteja acima de tudo.

Que o PERDÃO e a compreensão, superem as amarguras e as desavenças.

Que este nosso pequeno MUNDO VIRTUAL seja cada vez mais humano.

Que tudo o que SONHAMOS se transforme em realidade.

Que o AMOR pelo próximo seja nossa meta absoluta.

Que nossa JORNADA de hoje e de sempre, esteja repleta de flores,

paz e amor.

 
O primeiro postal de Natal
 (1.º Postal de Natal conhecido - Inglaterra Século XIX)


 Para todos os meus visitantes habituais, mas também para aqueles que aqui surgirem por acaso, votos de Feliz Natal e um ano de 2010 cheio de coisas boas!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Solstício de Inverno

O Inverno chegou hoje. E chegou com o cortejo completo, frio, chuva e neve. Para mim, que sou uma pessoa solar, custa-me um bocadinho, mas consola-me a ideia de que este é o solstício de inverno, isto é, hoje é o dia mais pequeno do ano, no hemisfério Norte. Daqui para a frente, os dias vão recomeçar a aumentar, devagarinho, quase sem darmos conta, entorpecidos que estamos pelas geadas de Janeiro. Lá diz o provérbio:


Quem em Janeiro bem contar, mais uma hora há-de encontrar.
(provérbio popular)


O que vale é que Alcochete continua lindo!



(Fotografia de Fernando Ferreira)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Pai Natal ou Mãe Natal?

Outro dia, encontrei num blogue amigo, o Blogue do Óbvio, um texto que achei engraçado. E, à medida que os dias passam, e a azáfama do Natal acelera, vou-me lembrando desse texto cada vez mais. Vejo as minhas colegas e amigas aflitas com as prendas que ainda têm de comprar, as ementas para a Ceia de Natal que ainda têm de organizar, os telefonemas e visitas que têm de fazer, as pessoas de família que não podem esquecer. E penso que, se calhar, a Marta Medeiros (jornalista e poetisa brasileira) tem alguma razão: em vez do velhinho de barbas, não andarão por aí muitas Mães Natal, disfarçadas de mulheres comuns?


Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem. Dá para acreditar que um homem vai se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família, ele que nem compra as próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco pesadíssimo, ele que reclama até para colocar o lixo no corredor? Que toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que só abandonou o marrom depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele não faria isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.



Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu trono no shopping, quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços, carrega sacolas, confere listas, lembra da sogra, do sogro, dos cunhados, dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o carro no sol e chega em casa sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?
Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em quem todos deveriam acreditar mais.


Martha Medeiros 


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Desafio de Natal

Este é um desafio de Natal proposto pelas minhas queridas amigas Fátima e Isabel, do blog Escrita Criativa. A ideia é continuar a história do Pai Natal e da sua rena Alfred. Cada um pode continuá-la no seu blog, desde que informe e ponha o link do blog Escrita Criativa, ou enviar a continuação da história directamente para o mail desse blog. O desafio mantém-se durante as férias do Natal.



Local: Pólo Norte.
Casa do Pai Natal.

Reina grande azáfama e confusão.

Todos os duendes correm em histérica harmonia… cada um sabe exactamente o que tem de fazer.
O velho Nicolau dá as últimas indicações… aproxima-se a ordem da partida!
Repentinamente, aquilo que parecia impossível aconteceu MESMO!!!
Rudolph constipou-se… muito frio!
O GPS AVARIOU!!!
- Socorro!!!- grita o velhinho, de cabeça perdida…- Há centenas de anos que ando nisto e nunca tal me aconteceu!
- E agora? Como vou levar as prendas aos meninos de todo o mundo? Estão todos à minha espera!
O Pai Natal decide arriscar e parte sem o seu precioso GPS (modernices!).
Levou uma outra rena, inexperiente, chamada Alfred, que tem um pouco de mau feitio e que decide embirrar com as indicações que o velho senhor lhe dá.
Numa curva do caminho… Alfred faz uma birra e vira por um carreiro desconhecido.
- SOCORROOOO!!! – grita o Pai Natal – O que foste fazer, desmiolada? Agora, estamos perdidos! Como vamos sair daqui? Ai o meu querido GPS!!! 


Bom… esperemos que o Pai Natal descubra como dar a volta à situação… Não lhe queres dar uma ajudinha?
Podes terminar a história e descobrir como vai o Natal poder contar com a presença do velho Nicolau em todas as chaminés por esse mundo fora.


Segue o Norte da tua imaginação...
Puxa pelas rédeas do trenó fantástico...
Viaja sem fim, pelo imaginário natalício...







quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Quentes e boas!



Esta época do ano traz consigo uma coisa fantástica: os carrinhos de venda de castanhas assadas!
Eu gosto muito de castanhas: nos assados de borrego, ou de perú, estufadas com cogumelos, cozidas com erva-doce, ou simplesmente assadas, com uma nozinha de manteiga. Pronto, eu sei que tudo isto engorda imenso, mas desde que sem exageros, sabem deliciosamente.





Mas não há castanhas que saibam tão bem como as que se compram na rua. Às vezes, estão tão quentes que nos queimam as mãos, ao descascá-las. Mas aquecem-nos as mãos e a alma. Aquele fumo que sai dos assadores não cheira apenas a castanhas assadas: cheira a manhãs enevoadas e tardes frias; cheira a casacos compridos e cachecóis de lã; cheira a lareiras acesas, a pinheiros e luzes de Natal, a chapéus de chuva e chocolate quente. Cheira a Inverno.
Este ano, os vendedores de castanhas introduziram uma inovação nos pacotinhos de castanhas. Já não compramos as castanhas num cone sabiamente feito com papel de jornal ou de lista telefónica. Agora, há uns saquinhos especiais, com duas aberturas, uma para as castanhas, outra para as cascas. Acho bem, pode ser que se deitem menos cascas para o chão. A modernidade chegou aos vendedores ambulantes de castanhas assadas.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Blogstória

Para o mês de Dezembro, a BlogGincana tem uma proposta engraçada e muito interactiva:
"tecermos contos, textos ou poemas em conjunto, como uma grande colcha de retalhos. O primeiro blog inscrito escreve até 5 frases de uma história inventada e passa a bola adiante, para o blog seguinte da lista de inscrição, e assim por diante, aumentando sempre o conto."


A minha história começa aqui... 



O homem de cinzento dissera-lhe que o dia da maldição se aproximava. O que quereria ele dizer? Ela não sabia, mas ficara nervosa. A verdade é que, desde aí, nunca mais fora a mesma. Ficava a vaguear pela casa, murmurando palavras sem nexo, pegando em objectos da sala para os deixar esquecidos no quarto ou ao contrário. Parecia ter uma fobia por espelhos. Quando passava perto da entrada, ou da porta da casa de banho, ficava mais nervosa ainda, olhava em volta como quem procurava qualquer coisa, chegava a gritar. Flávio gostaria de a ajudar, mas como? Tentou serená-la, mas não resultou. Ir ao médico estava fora de questão, a mãe gemia e dizia que não valia a pena, que o destino estava traçado. Flávio não acreditava em maldições ou encantamentos, sempre fora um homem pacato, mas agora… 





...e continua no Olhar Direito (Se quiserem seguir a história é só irem andando de blog em blog)







A fábula do porco-espinho



Enviaram-me uma estorinha deliciosa, que eu decidi partilhar aqui, porque me parece que se adequa bem ao espírito de aceitação dos outros, que deveria ser o espírito do Natal. É a fábula do porco-espinho.

Durante a Era Glaciar, muitos animais morriam por causa do frio. Os porcos-espinhos, para se aquecerem, juntavam-se uns aos outros, mas os seus espinhos, por vezes, feriam os companheiros mais próximos. Resolveram então afastar-se uns dos outros, mas voltaram a morrer de frio. 
O que fazer, então? Precisavam de fazer uma escolha difícil: ou aceitavam os espinhos dos companheiros, ou desapareciam da face da Terra.
Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam a conviver com as pequenas feridas que a relação com o outro podia causar, aproveitando e partilhando o calor da relação. E assim sobreviveram.


Moral da história: 
O melhor relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas, mas aquele em que cada um aprende a viver com os defeitos do outros, apreciando as suas qualidades.






(Porco-espinho bebé)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

As 3 Vidas

Depois de antecipar gostosamente a publicação do último livro de Saramago, a polémica que se levantou à volta do tema do livro esfriou-me o entusiasmo. Hei-de ler “Caim”, claro, mas mais tarde, quando as discussões e argumentos pró e contra não me contaminarem a leitura.
Em vez desse, comprei então outro livro “As 3 Vidas”, de João Tordo, contemplado com o Prémio José Saramago de 2009.





Que extraordinária surpresa eu tive! João Tordo é um escritor jovem, que tem trabalhado como jornalista e guionista. Este é o seu terceiro romance, embora eu não tenha lido nenhum dos anteriores.
Neste livro, João Tordo mostra um excelente domínio da língua portuguesa, escrevendo com muito ritmo e com uma clareza e um rigor notáveis.
O romance inicia-se nos princípios dos anos 80, quando o protagonista, ainda muito jovem, se vê de repente órfão de pai e com a mãe, debilitada física e emocionalmente, e a irmã mais nova, a seu cargo. A necessidade de dinheiro leva-o a aceitar um misterioso trabalho para uma tal Agência MP, do nome do seu dono Milhouse Pascal. O seu trabalho para Pascal é monótono e cheio de segredos, numa quinta do Alentejo, mas pontuado por acontecimentos terríficos, que o irão marcar para a vida inteira. Também a paixão por uma das netas do seu patrão o vai marcar, mas agora porque vai viver em função dela, perseguindo um sonho que sabe perdido antes de o atingir.
A vida que leva, entre Lisboa e o Alentejo, é subitamente alterada por uma viagem a Nova Iorque, por onde acaba por perder-se durante sete anos, qual Jacob dos tempos modernos. Através da sua ligação a Milhouse Pascal, e depois à sua neta Camila, o protagonista vai revivendo os grandes momentos da História dos últimos sessenta anos: o mundo da espionagem, durante a 2.ª Guerra Mundial e depois, durante a Guerra Fria; a queda do Muro de Berlim; o próprio ataque ao World Trade Center, em Nova Iorque, se nunca é mencionado, está subjacente ao grande ponto final da sua obsessão por Camila Pascal.
O livro é escrito pelo protagonista, na primeira pessoa, quando um leilão de livros e documentos ameaça trazer à luz toda a história que ele viveu e muito do que ele presenciou; ele escreve em nome da verdade dos factos.
É uma obra de grande fôlego, surpreendente e que nos cativa do princípio ao fim. Absolutamente, a ler!

            

domingo, 13 de dezembro de 2009

Natal na Arte Antiga



Ontem à noite, o Museu de Arte Antiga abriu as suas portas para comemorar o Natal de uma forma diferente. Depois de um concerto de Natal no átrio principal, onde se ouviram músicas tradicionais da época natalícia, o museu proporcionou visitas guiadas a peças e espaços do museu, relacionados com o Natal. Passamos pela Virgem de Belém, pelo magnífico Presépio do Marquês de Belas, pelos presépios de barro do século XVIII, pelas representações da Virgem e do Menino Jesus na pintura europeia dos séculos XVI e XVII.  Representações, relações e simbolismos foram explicados pelos especialistas, num diálogo simples com o público, que circulava entre os diversos espaços. 
No final, quem quis ainda comeu bolo-rei e bebeu chocolate quente, oferecidos pelo museu.
O museu, apesar de ser sábado à noite, estava cheio de gente de todas as idades. Numa época em que nos queixamos de que as pessoas voltam as costas à cultura, esta iniciativa é de louvar. E repetir, claro!







(A Virgem e o Menino, Memling - Museu Nacional de Arte Antiga)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Postal de Lisboa XI - O Campo dos Mártires da Pátria

Já passei por aqui, seguramente, dezenas de vezes. No entanto, só hoje me deu para pensar quem poderão ser os mártires homenageados nesta praça de Lisboa. As placas toponímicas não dão nenhuma ajuda e a dúvida impõe-se. Quem serão estes mártires? Atendendo a que este campo é enquadrado pelo Hospital de São José, de um lado, e pelo Hospital dos Capuchos, do outro, poder-se-á pensar que os mártires são os doentes. Mas eles não sofreram, nem sofrem, pela Pátria. Sofrem por si próprios, sem que a Pátria lhes possa valer. Não há indicação de que os homenageados tenham sido martirizados nos mares da China, no sertão brasileiro ou nos pântanos da Guiné. Quem serão então? Sou levada a crer que estes mártires, afinal, somos nós todos. Nós, o povo comum, o Zé Povinho, tal como o retratou Rafael Bordalo Pinheiro, que trabalha, paga impostos, se desgasta…


Bem, uma rápida pesquisa esclarece as dúvidas. Este jardim é assim chamado em honra dos conspiradores (o mais famoso dos quais o general Gomes Freire de Andrade) que, em 1817, foram condenados à morte por procurarem derrubar o governo despótico do inglês Beresford. Era bem interessante se houvesse uma pequena explicação nas placas toponímicas. Sempre se ia acrescentando alguma coisa à cultura de quem não tem a mesma paciência que eu para pesquisar estas coisas!


O Campo de Santana, assim se chamava anteriormente, é grande e bonito, com o seu lago e o seu jardim bem tratado, onde passeiam patos e pavões, com o seu café com esplanada. Mas para mim o ponto mais extraordinário da praça é a estátua ao Dr. Sousa Martins, frente à entrada nobre da velha Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa. O Dr. Sousa Martins foi um médico e professor de medicina nesta mesma faculdade, no século XIX. Ainda em vida, ganharam notoriedade as suas curas, mas ainda mais famoso se tornou depois de morto. Corria o boato de que ele efectuava curas milagrosas. Esta estátua foi levantada com dinheiros de uma subscrição pública de 1904. E ainda agora, mais de cem anos depois, o espaço em redor da estátua está coberto de flores e de pequenas placas de agradecimento pelas graças proporcionadas. São seguramente centenas de placas, algumas comoventes, que se amontoam ali. Há também uma espécie de armário para as velas, que ardem continuamente. É a expressão de uma religiosidade ingénua que não me cabe criticar, apenas registar.


Basta estar aqui, sentada num banco, durante meia hora, para me aperceber do movimento intermitente e discreto de pessoas que chegam, param frente à estátua, benzem-se e fazem uma pequena oração, antes de continuarem o seu caminho. Como atenienses frente à imagem de Esculápio, a caminho dos seus afazeres. Na verdade, não mudámos muito.

(fotografias de Teresa Ferreira)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Se queres ser alguém...

Este ano, tenho umas turmas particularmente difíceis. Uma delas é um Curso de Formação, uma turma do ensino não regular, que me tem esgotado fisica e psicologicamente desde o início das aulas. Ali cruzam-se múltiplos problemas: famílias com baixa escolarização, desestruturadas, rendimentos mínimos, desorientação, falta de concentração, de auto-confiança... Tenho dado voltas à cabeça para conceber estratégias de trabalho com estes alunos. Muitas vezes me sinto desanimada e às vezes apetece-me desistir!
Agora, é altura de balanço. Uma das últimas actividades que fizeram foi um comentário a uma frase, retirada de um filme do qual vimos um excerto. A frase era: Se queres ser alguém, acorda e presta atenção!
Aqui estão algumas das coisas que os meus alunos escreveram. Só corrigi alguns erros ortográficos, para não estragar o sentido.


Se queres ser alguém, luta pela vida, tens de mostrar que queres mudar a tua vida. E sem educação, nunca vais ser ninguém nem chegar a lado nenhum.
Se tu queres ser alguém, tens que lutar por aquilo em que acreditas, lutar para seres feliz e lutares pelo teu sonho. Tens que ter atenção às possibilidades que a vida te dá.
Não deves desperdiçar aquilo que tens com faltas de educação, porque um dia mais tarde vais arrepender-te. Tens de acordar para a vida se queres chegar a algum lado, tens de fazer por isso, não deves desperdiçar as oportunidades que aparecem, se é aquilo que tu queres fazer, mesmo que os outros não acreditem que tu serás capaz de concretizar, porque quando se quer muito uma coisa e nos esforçamos para a ter, isso pode acontecer.
Se não fores humilde e sincero nunca terás a confiança das pessoas e se ninguém confiar em ti nunca vais poder ajudar alguém a tomar as decisões certas.
Se queres ser alguém acorda e presta atenção, acorda para a vida, abre os olhos e segue o teu caminho. Se tu decides o teu caminho, podes escolher o bem ou o mal, isso só depende de ti e das tuas razões. Não depende de outros.


Gostei muito do que li. Ainda há esperança para todos os jovens que percebem que devem aproveitar as oportunidades que a vida lhes dá mas, ao fim e ao cabo, é neles próprios que devem encontrar a força para lutar, para decidirem o seu caminho, para lutarem pelo seu sonho. Para buscarem a felicidade.





(imagem de um anúncio da Benetton)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Bolo-Rei



A pensar no meu amigo Shisuii, resolvi fazer este post sobre uma das coisas mais agradáveis que traz cada época natalícia: o Bolo-Rei. O Bolo-Rei é um bolo de massa levedada, como o pão, recheado com os mais diversos frutos secos e coberto de açúcar e frutas cristalizadas.
Tradicionalmente, esconde na massa uma fava e um pequeno brinde. O brinde traz sorte a quem o encontra, enquanto a fava traz despesa, porque quem a apanha deve comprar o próximo Bolo-Rei.
Dizem que a sua origem é francesa, mas na verdade não se parece nada com a tradicional Galette des Rois que se come em França. O que se sabe seguramente é que começou a ser vendido em Lisboa, pela Confeitaria Nacional (essa maravilhosa pastelaria da Baixa que, por si só, mereceria um post!), cerca de 1860. O sucesso foi grande e, em 1890, é posto à venda no Porto, pela Confeitaria de Cascais.
O destino do Bolo-Rei esteve em perigo quando da implantação da República, já que o nome parecia uma ovação ao regime monárquico. Houve quem advogasse o final do fabrico deste bolo; outros propuseram mudar-lhe o nome para Bolo-Presidente ou mesmo Bolo-Arriaga, do nome do nosso primeiro Presidente da República. A maioria da população, no entanto, sabia distinguir as coisas e, por muito republicanos que fossem, ao bolo mais tradicional do Natal preferiam continuar a chamar Bolo-Rei. E o nome ficou, claro!
Hoje, o Bolo-Rei não pode faltar em nenhuma mesa, na Consoada. Mesmo os que não gostam muito, se rendem à tradição. Eu confesso que adoro!







(Algumas informações foram retiradas do livro "Cozinha Tradicional Portuguesa" da Editorial Verbo)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

10000!

Assim devagarinho, quase sem dar por isso, passou por aqui o visitante n.º 10000. Alguns passaram invisíveis, sem deixar pégadas. Mas muitos outros entraram, sentaram-se, beberam um cafezinho, deram dois dedos de conversa. Juntos, partilhámos gostos, leituras, indignações; às vezes, emocionámo-nos juntos. E tudo isso deixou marcas num blogue que cresceu, sem ter pretensões a "blogue grande". 
Eu sei que, às vezes, os meus olhares sobre o mundo não são muito felizes. Nessas alturas, sinto-me como os velhotes dos Marretas, de crítica pronta e certeira na ponta da língua. Mas, geralmente, tento trazer aqui uma leitura positiva do que me rodeia, nem que seja uma paisagem ou um poema, porque a beleza nos torna sempre melhores e mais ricos.
A todos os que por aqui passaram, um agradecimento e um convite: voltem sempre! Vai um chá e uma fatia de bolo-rei?





(Fotografia de Teresa e Fernando - Nova Iorque / Agosto de 2008)

domingo, 6 de dezembro de 2009

1 Km de cada vez

Todos temos os nossos heróis. Alguns são heróis de toda a gente; não conheço ninguém que não admire Martin Luther King ou Gandhi. Mas, depois, há os outros. Os nossos heróis pessoais, aqueles que, sendo pessoas comuns, admiramos mais abertamente ou mais secretamente, numa admiração feita de sonhos repartidos ou afinidades e identificações inesperadas.
Gonçalo Cadilhe está nessa minha prateleira dos heróis pessoais. Porquê? Talvez porque, aos vinte e quatro anos, teve a coragem de virar as costas a um curso e um emprego para perseguir um sonho: viajar. Não o posso fazer, nunca pude, nunca poderei. Sempre houve outras urgências e contingências que condicionaram a minha vida, como a da maior parte das pessoas. Admiro-o por isso. Mas há outras razões.
Gonçalo Cadilhe escreve livros de viagens, das viagens que faz. Não são simples descrições de lugares, são esboços emocionais. Porque os lugares agem sobre nós e tornam-nos diferentes. E nós também agimos sobre os lugares, porque não os vemos sempre com os mesmos olhos.

Não é verdade que o planeta seja redondo. É armilar. Anda-se às voltas e nunca se regressa ao mesmo sítio. A estrada, sim, passa por lá; mas o tempo também passa, e leva de nós o que fomos antes. Falta-nos o mesmo momento para podermos regressar ao mesmo sítio. Regressamos já outros, e compreendemos que o sítio já não é o mesmo.
                             (Gonçalo Cadilhe "1 Km de cada vez")

Já tenho na minha mesa de cabeceira o último livro de Gonçalo Cadilhe "1 Km de cada vez". Estou a lê-lo como li todos os livros anteriores, desde "Planisfério Pessoal". Li-os de um ápice e depois, de vez em quando, releio uma passagem, um capítulo. Relembro um local, com pessoas e sensações e pequenas histórias, lá dentro.
Faço o mesmo com este novo livro. Vou lendo, saboreando cada pequeno capítulo, cada apontamento de uma viagem que parece sem rumo, mas com muito sentido. Leio outros livros pelo meio, e depois volto. Porque não há maior liberdade do que viajar ao sabor do tempo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Desencontrado

Dizem que Portugal é um país de poetas. Alguns morrem antes de serem reconhecidos. Rui Cacho, jornalista e poeta, faleceu em 2007, deixando alguns poemas publicados. Este é um deles.



Desencontrado


Em casa não me encontrei
Depois de procurar na sala
Na divisão onde guardo livros e papéis
E até no banheiro.
Saí à minha procura
Entrei em vários cafés
Não estava em nenhum.
Telefonei a um amigo
Perguntando-lhe por mim
Respondeu-me que não me via há dias.
Consultei o relógio
Era tarde
E estranhei o sucedido.
Reflecti onde encontrar-me
Mas não atinei…
E desinteressei-me momentaneamente
Da minha pessoa.


(Rui Cacho 1932 - 2007)





(Fotografia Teresa Ferreira)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Natal na Quinta

(Continuação da saga iniciada na primeira edição da Fábrica de Letras)


E o Natal chegou outra vez à quinta. Já havia luzinhas penduradas no estábulo e no galinheiro e, dia sim dia não, o coro dos gatos de telhado ensaiava os seus cantares natalícios. O Preto também fazia parte do coro e chegava a casa inspirado, ainda a cantarolar “I’m dreaming of a white Christmas”, o que fazia sempre a Branca soltar uma gargalhada. “Para que queres um Natal branco? Para te verem melhor?”
A Branca, pelo contrário, não cantava, só fazia contas. “Tenho de encomendar as postas de atum fresco para a Ceia! Está tão caro o atum!” comentava com as outras gatas da quinta. Além disso, havia que comprar as prendas. Os três filhos, agora já crescidinhos, tinham feito a lista para o Pai Natal. O Máximo, o mais velho, queria uns ténis caríssimos e passava o dia a resmungar que o tempo do Gato das Botas já lá ía há muitos anos! O mais novo, o Mínimo, queria uma “Playfarm” e insistia, que todos os amigos tinham uma, que queria jogar também!... E o do meio, o Manuel António, queria uma anilha nova, topo de gama, como as dos amigos pintos. E estava a ser difícil explicar-lhe que os gatos não usam anilhas!
As vizinhas da rua de trás, do galinheiro, também não ajudavam. Cada uma queria fazer melhor figura do que a outra e então, punham-se a pendurar fitas brilhantes e bolas coloridas nos poleiros, até o galinheiro parecer mais um circo do que um galinheiro. E, enquanto penduravam as bolas e as fitas, davam bicadas umas às outras. O Galo, às vezes, fazia de conta que não ouvia as galinhas. Quando o barulho começava a ser exagerado, fugia com o gato Preto para o coro, desculpando-se: “Parece que precisam lá de um tenor!”
Até que a Branca miou mais alto: “Basta! Estou cansada desta confusão toda! Quero aqui a família toda para a ceia, mas sem confusão e sem pintos à mistura!” Ficaram todos em silêncio e em sentido, porque quando ela se zangava ficava uma leoa.
E assim chegou a noite de Natal. E comiam todos sossegadamente o seu atum, lambendo os bigodes, quando ouviram um leve arranhar na porta. O Máximo foi abrir e viu uma galinhola, deitada na soleira da porta, com uma asa e uma pata feridas. Arquejava, mas foi explicando: “Peço desculpa por incomodar, mas fiquei presa numa armadilha lá para os lados do açude e não consigo voltar para casa. Já fui bater à porta do galinheiro, porque os pintos ainda são meus primos, mas eles estão tão entusiasmados a festejar que não me ouvem!” A Branca já estava a ajeitar mais um banco, junto do lume. “Venha para aqui, está mais quentinho!” E, enquanto partilhavam os lugares e os manjares da ceia, a Branca pensava que ali o Natal estava mais vivo do que no galinheiro, todo enfeitado.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dezembro, mês do Natal!

E pronto, chegou Dezembro!
Aproveitamos o feriado que comemora a nossa independência face a Espanha, para mergulhar no espírito natalício. As luzes já piscam nos centros comerciais há um mês, as ruas já têm também as suas iluminações de Natal. As músicas natalícias já se ouvem; são sempre as mesmas, mas isso até nos sabe bem, faz parte da época. Tudo está preparado para nos atrair para o essencial: as Compras de Natal!
Onde ficou o Natal da minha infância, simples e ingénuo, onde as prendinhas eram ainda oferecidas pelo Menino Jesus? De resto, onde ficou o próprio Menino Jesus, universalmente destronado pelo Pai Natal? Onde ficou a Missa do Galo, a Ceia sem exageros alimentares, a verdadeira alegria da partilha, que se contabiliza em amor e atenção, e não em tamanho ou preço de prendas?
Ao longo do mês, irão aparecendo umas campanhas de solidariedade. Vamos participar nelas com entusiasmo, para fingirmos que nos preocupamos verdadeiramente com os outros, os outros que nos são indiferentes durante o resto do ano. Assim, ficaremos de consciência tranquila para mergulharmos alegremente no mar de consumismo.
Esta imagem é duma loja no norte do país. Parece que até a cotação do Pai Natal está em queda!