domingo, 29 de novembro de 2009

O leão dentro de nós



Fui convidada para fazer uma comunicação sobre (imaginem!) O Gato na História. No meio das minhas pesquisas na internet por umas fotografias engraçadas de gatos para embelezar a apresentação, encontrei esta imagem.





Achei muito interessante e fiquei a pensar no que ela significa. Hoje em dia, somos massacrados pelo peso da imagem. Vivemos no império da aparência, em que a pergunta omnipresente parece ser: o que pensam os outros de mim? Segundo os estudos que estão sempre a enfiar-nos nos ouvidos, a imagem condiciona o sucesso profissional, a selecção do parceiro sexual, a vida social, e por aí fora.
Mas há outra pergunta tão ou mais importante do que essa: o que é que eu penso de mim próprio? Que imagem é que eu tenho de mim? Quando, de manhã, me levanto e me olho no espelho, o que é que eu vejo (além de alguém com ar obrigatoriamente estremunhado)? Vejo um vencedor ou um vencido? Tenho confiança nas minhas capacidades? Acho que consigo ultrapassar os desafios que cada dia traz?
Essa confiança em si próprio chama-se auto-estima e é um ingrediente fundamental das nossas iniciativas e sucessos. Lembro-me de uma aluna que tive que achava que não era capaz de fazer análise documental, mesmo em exercícios simples. Precisava que eu fosse ao pé dela e lhe dissesse: "Eu sei que tu és capaz!" E ela lá ía fazendo. Um dia, distraída com as dificuldades dos outros alunos, não cheguei à mesa onde ela esperava por mim. Ao fim de um bocado, a minha aluna levantou-se, veio ao pé de mim e disse: "Ainda não me foi dizer que eu era capaz!" E eu nunca mais me esqueci dela.
Não devíamos precisar que os outros nos dissessem de que é que somos capazes. Devíamos ter força para tentar sempre fazer melhor. Na nossa sociedade actual, os que nos rodeiam estão mais prontos a criticar do que a aplaudir, a menosprezar do que a incentivar. O que fazer, então?
O melhor é mesmo olhar para o espelho e procurar o leão que há dentro de cada um de nós.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Os Queen em versão marreta



Freddie Mercury, nome artístico de Farrokh Bommi Bulsara, nascido na ilha de Zanzibar, em Stone Town, faleceu em 24 de Novembro de 1991. No dia anterior tinha anunciado ao mundo que tinha SIDA. Quem não o conhece? É um dos ícones dos anos 70 e 80 e são da sua autoria algumas das canções mais emblemáticas dos Queen, como esta Bohemian Rapsody, considerada pelo público britânico a melhor canção do século XX. Não sei se é ou não, sei que gosto muito. É uma das canções mais vendidas, reproduzidas e cantadas até hoje. Para celebrar, ou melhor, para relembrar Freddie Mercury quando passou mais um aniversário da sua morte, os Marretas fizeram a sua própria e muito especial interpretação deste enorme êxito dos Queen. 
Para quem gosta dos Queen e para quem gosta dos Marretas.
Vale mesmo a pena ver e ouvir.


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sugestão para o jantar!



A Campanha internacional "Meatless day", ou Dia sem Carne, acontece desde 1986, como forma de consciencializar as populações para a forma como os animais são abatidos. Acaba por funcionar como um dia de compaixão pelos animais e de preservação de todas as formas de vida. Encontrei esta indicação no blogue Luz de Luma, e não resisto a transcrever a sua última frase:
"Neste dia, não coma nada que sangra para morrer. Ao invés de se alimentar de um animal, alimente um animal!"
Achei a ideia interessante. E agora, o que fazer para o jantar?
Já decidi: Cogumelos com ovos, que toda a gente gosta cá em casa!
Deixo aqui a sugestão culinária, para quem quiser celebrar o dia e esteja com pouca imaginação.


Cogumelos com ovos


300g de cogumelos frescos
6 dentes de alho
3 colheres de sopa de azeite
1 pãozinho (carcaça) seco
1/2 chávena de leite
3 ovos
 sal e pimenta


Lave os cogumelos e corte-os em quartos. Descasque os alhos e corte-os muito finos. Coloque numa taça o leite quente e deixe o pão cortado aos bocados a amolecer.
Bata os ovos e tempere com sal e pimenta.
Num tacho, deite o azeite com os alhos e os cogumelos, e mexa durante 3 minutos. Depois, tape e deixe-os cozer mais 5 minutos. Torne a destapar para o líquido se evaporar. Junte o pão escorrido e mexa até este ficar desfeito. No fim, deite os ovos e torne a mexer, até cozerem.
Sirva com um arroz branco e uma boa salada.


Demora só 20 minutos e dá para 4 pessoas. Termine com fruta da época.
E pronto! Bom apetite!





sábado, 21 de novembro de 2009

Ninguém me quer encontrar?




A cantora Avril Lavigne cedeu esta canção para servir de banda sonora deste pequeno filme, que tem como objectivo a sensibilização para a problemática dos animais abandonados que são, todos os anos, encerrados em canis ou gatis e sujeitos a eutanásia, ou, dizendo de uma forma mais simples, mortos.
O abandono dos animais é uma triste realidade que nos envergonha, enquanto seres ditos civilizados. Vale a pena ver o video, embora eu não o recomende a pessoas muito sensíveis. Eu confesso que fiquei com uma lagriminha nos olhos, mas eu gosto muito de cães, não é?
Agora que se aproxima o Natal, e andamos todos a dar voltas à cabeça a pensar nas prendas, porque não dar uma prenda diferente? Vá a um canil e traga um novo amigo para casa. Vai ver que é um amigo para a vida inteira. A escolha é difícil porque é imensa.





quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Fumar ou não fumar, eis a questão



No passado dia 17 de Novembro, comemorou-se mais um Dia do Não Fumador. Sem grande pompa nem circunstância, devo referir. Talvez o assunto comece a estar estafado. No entanto, lá surgiram alguns programas e reportagens sobre as doenças associadas ao tabagismo, a evolução do número de fumadores e fumadoras, e outras coisas idênticas. Entre as viagens de carro e o tempo que passo a fazer o jantar e arrumar a cozinha, tenho ouvido algumas dessas reportagens. E houve uma que me pôs a reflectir!...
Falava-se de um estudo sobre a idade dos fumadores. E a conclusão era: a maioria dos fumadores começa a fumar entre os 15 e os 17 anos; deixa de fumar entre os 40 e os 45 anos. Dei comigo a pensar. Já sabemos que começar a fumar funciona como um rito de passagem para a idade adulta. Será que deixar de fumar é um sinal de passagem para a maturidade?





quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Postal de Lisboa X - A Fonte Luminosa

Os lisboetas continuam a chamar-lhe Fonte Luminosa, embora eu já não me lembre da última vez que a vi iluminada ou a deitar água. Quando eu era pequenita, sim, recordo-me desta grande cascata de água a cair e até, por vezes, em alturas especiais, iluminada por holofotes de várias cores, que lhe davam um ar fantástico, em que os cavalos e as sereias navegavam no meio dos arco-íris. Ia jurar que ainda tenho fotografias minhas, a brincar no grande relvado fronteiro à Fonte Luminosa.


Depois do 25 de Abril, secou. Nas grandes manifestações que aí decorreram, na época da Revolução, já não me lembro de a ver com água.
A Fonte Luminosa foi construída em 1940; ainda lá tem a placa comemorativa da inauguração pelo presidente Óscar Carmona. Foi uma das obras emblemáticas do regime e ainda hoje é um bom exemplo daquilo a que chamamos, geralmente, a arquitectura do Estado Novo. As linhas direitas, as figuras monumentais, são típicas da época e dialogam na perfeição com o Instituto Superior Técnico, construído na mesma altura no lado oposto da Alameda Afonso Henriques.
A Fonte tem um ar abandonado e eu interrogo-me porquê. É por ser uma obra do Estado Novo? E então? Será preciso abandonar ou destruir as obras das épocas que nos antecederam, só porque já não nos revemos nos seus valores? Os cavalos monumentais e os baixos-relevos poderão já não estar na moda, mas devem continuar como testemunhos do passado. Haverá melhor maneira de celebrar o presente do que preservando as obras passadas e fazendo-as brilhar de novo?



Hoje, a zona da Fonte Luminosa tem como principais frequentadores os reformados da zona. Tendo em conta a evolução demográfica da cidade, e da sociedade em geral, parece-me pertinente colocar à disposição dos nossos seniores equipamentos diversificados, que lhes permitam manter-se activos. Aqui, sob as árvores, foram armadas umas quantas mesas com cadeiras à volta. Aí se disputam animadíssimos campeonatos de sueca e dominó. Há tantos jogadores como espectadores e todos discutem, com ar profissional, as jogadas e as cartas que vão sendo batidas sobre a mesa. O espaço está sempre cheio de gente, principalmente homens. Tornava-se, com certeza mais vivo ainda com o som da água a jorrar novamente da Fonte Luminosa que, estou certa, gostaria de voltar a ser fonte, mesmo que só episodicamente luminosa.


(Fotografias de Teresa Ferreira)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Tolerância


Hoje é o Dia Internacional da Tolerância.
Tolerância que não encontramos muito, nas nossas relações pessoais, profissionais, internacionais! Apesar dos discursos e dos enunciados de intenções. 
Encontrei esta imagem, linda, no blogue Conversas Daqui e Dali, juntamente com um desafio que aqui deixo, para quem tiver a coragem de responder a estas perguntas, só aparentemente fáceis. Eu já respondi.


1 – O que significa ser tolerante.


Para mim, ser tolerante significa simplesmente aceitar o outro e aceitar que o outro tem direito a ser diferente de mim.

2 – Em que situações tenho dificuldade em praticar a tolerância.



Tenho muita dificuldade em tolerar a intolerância, a infalibilidade ideológica, o desprezo pelos direitos individuais. Também me custa a tolerar a mentira, mesmo as mentirinhas pequeninas. Mas francamente o que me custa mais a tolerar é a arrogância da estupidez.


3 – Tolerância será abrir mãos das próprias convicções? Porquê?


Acho que não tenho de prescindir das minhas convicções para respeitar as convicções dos outros. Não há nada tão estimulante como uma boa discussão de ideias, honestamente esgrimidas.

domingo, 15 de novembro de 2009

O Preto e a Branca

(Este texto é uma resposta ao desafio lançado pela Fábrica de Letras)


Era uma vez uma quinta onde viviam dois gatos: um grande gato preto, chamado, sem grande imaginação, Preto; e uma bela gata branca, chamada, imaginem se conseguirem, Branca. Eram casos raros na quinta, onde imperavam os castanhos, os vermelhos, os azuis e todos os tons de verde. Tal como acontece frequentemente com aqueles que não se conhecem, passavam um pelo outro de largo, com desconfiança, mirando-se como quem não está a olhar.
Um dia, encontraram-se em cima do telhado. Não havia muito por onde andar e tiveram de fazer conversa. “Olá! O meu nome é Preto!” adiantou o gato. “Preto como o carvão. E eu sou Branca como a farinha!” miou a gata. O gato encurvou os bigodes em sinal de interrogação e ela continuou: “Era uma poesia que o meu dono lia aos filhos, quando eles eram pequeninos.” O gato estendeu a enorme pata, enquanto preparava o seu discurso sedutor. “Branca como a farinha, como a luz da Lua, como as nuvens que correm no céu!”
Estava criado o clima para as confidências. Dali a pouco, trocavam desilusões e expectativas. “O meu pêlo é um horror, suja-se imenso!” lamentava-se a gata Branca. “Posso lambê-lo por si!” O gato Preto aproveitava a deixa. “E estou farta de tanta brancura. O que mais gosto em mim são as orelhas, porque são cor-de-rosa!” lamentava a Branca . “Nisso, eu compreendo-a, também estou cansado de ser tão preto. Imagine que há pessoas que fogem de mim, porque dizem que dou azar!” A gata indignou-se: “Que ignorantes!”
Palavra puxa miado, começou a surgir um plano. Se juntassem a brancura da gata Branca com o negrume do gato Preto, o que aconteceria? Na poesia, os gatinhos nasciam todos aos quadradinhos! Valia a pena experimentar!
Dito e feito! A noite estava boa e passaram rapidamente das palavras aos actos. E quando os gatinhos nasceram, não eram todos aos quadradinhos, mas sim dos mais belos e diversos cambiantes de cinzento.





"Se quiser falar ao coração dos homens, há que se contar uma história. Dessas onde não faltem animais, ou deuses e muita fantasia. Porque é assim - suave e docemente - que se despertam consciências". (Jean de La Fontaine).

sábado, 14 de novembro de 2009

Uma aldeia como tantas outras

No fim de semana passado, quase por acaso, fomos descobrir uma aldeia interessante e pitoresca, do interior de Portugal. Chama-se Póvoa Dão e localiza-se perto de Carregal do Sal, próximo da antiga Estrada da Beira.





O drama da maioria das aldeias portuguesas, longe dos grandes centros, fora dos circuitos turísticos habituais, é o isolamento, o abandono, a desertificação. Parte o coração passar por muitas dessas aldeias e não ver ninguém, ou ver apenas meia-dúzia de velhos, porque os mais jovens já foram embora, em busca de uma vida mais fácil. Não é simples alterar o destino dessas aldeias. Mas foi o que aconteceu em Póvoa Dão. Parecia destinada ao abandono e ao esquecimento mas, em vez disso, está cheia de movimento, de conversas e de risos. 





Segundo apurámos, a aldeia ficou abandonada, como tantas outras. Foi então que um empresário do Centro do País decidiu comprá-la. Assim, comprou uma aldeia inteira. E começou a recuperar as casas. Iniciou um negócio de turismo de habitação e, paralelamente, de venda de casas de campo, para segunda habitação. O negócio deve ter corrido bem. Hoje, ao passear pela aldeia, vemos um número razoável de casas com um pequeno letreiro que refere "Vendida". Há outras para alugar, para férias ou fim de semana. Mas estão todas lindas, bem recuperadas, com os pequenos confortos a que estamos habituados e de que já não estamos habituados a prescindir. 





Podemos calcorrear a antiga estrada romana, que passava no meio do povoado. Podemos seguir as indicações e fazer diversos percursos pedestres, que nos levam pelas margens do rio Dão ou a outros locais pitorescos das redondezas. Podemos simplesmente sentar-nos a apreciar os verdes e amarelos e vermelhos e castanhos da bela paisagem do outono. Ou podemos também entrar no excelente restaurante e apreciar um dos bons pratos tradicionais que aí se servem.





O restaurante, só por si, merece uma visita. Todo o ambiente, as ementas, a decoração, nos remetem para outros tempos, para sabores mais ricos e antigos, para um modo de viver em que o tempo passava mais devagar. Estava cheio de clientela.
Gostei de descobrir Póvoa Dão. Aponta um caminho para sair do círculo vicioso do isolamento e do abandono. Pode e deve haver outros caminhos. Mas este é seguramente um bom caminho. 





terça-feira, 10 de novembro de 2009

Uma história de vida

Quando estive em Israel, no Verão passado, tive o privilégio de encontrar alguns sobreviventes do Holocausto nazi. Um deles foi Albert Neuwirth, sobrevivente do gueto de Budapeste. Contou-nos a sua história de sobrevivência, desespero, perseverança.



(A Grande Sinagoga de Budapeste)


O pai tinha emigrado para a América Latina, para abrir um talho de carne “kosher” ( carne de animais mortos e preparados segundo os preceitos da religião judaica), na Argentina. Quando a situação lho permitiu, enviou bilhetes de barco para a mulher e os filhos se lhe reunirem. A uma semana do barco sair, a guerra deflagrou, os portos fecharam-se e, tal como tantos outros judeus, Albert ficou preso numa Europa que não lhes permitia viver livremente, mas que também não lhes permitia partir. A Hungria era então aliada do Terceiro Reich hitleriano, e os judeus foram encerrados em guetos, para agradar ao poderoso vizinho. Até 1944, foram sobrevivendo, com a ajuda de diplomatas estrangeiros, como Raoul Wallenberg, que passavam mantimentos clandestinamente para dentro do gueto. Albert recorda com tristeza que não podiam contar com a solidariedade dos húngaros: uma ocasião, uma sua vizinha conseguiu fugir com o filho; apanhados por uma brigada de “flechas cruzadas”, tiraram as calças ao rapazinho e mataram-nos ali mesmo, ao descobrirem que eram judeus, já que ele era circuncidado.



(Objectos de Culto no Museu de História Judaica, em Budapeste)


Em 1944, os Alemães ocuparam a Hungria e até a pouca comida que entrava no gueto começou a faltar. Com doze anos, o trabalho de Albert era andar com uma carreta pelas ruas, recolhendo os cadáveres dos que morriam das mais varidas doenças ou, simplesmente, de fome.
Quando as tropas russas libertaram Budapeste e abriram o gueto, distribuíram as suas rações de combate pelos seus esfomeados habitantes, que muitas vezes morriam da abundância, quando tinham conseguido sobreviver à fome, já que os seus sistemas digestivos não estavam preparados para uma refeição normal.



(Cemitério judaico de Budapeste - Este muro representa os milhares de cadáveres não identificados)


Encerrado num campo de refugiados com a irmã, Albert conseguiu finalmente reunir-se ao pai, na Argentina, depois da guerra.
Ao ouvi-lo falar, sente-se a raiva e a revolta por uma infância violentada, mas também a força e a teimosia de quem lutou pela sobrevivência e agradece todos os dias o milagre de estar vivo.





(Monumento memorial do Holocausto, em Budapeste - Nesta árvore de metal, cada folha tem o nome de uma família atingida pelo Holocausto)


(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A Queda do Muro

Faz hoje vinte anos que caiu o Muro de Berlim. Já vinte anos! Lembro-me bem desse dia, em que todos assistimos, pela televisão, à avalanche de pessoas que se precipitava sobre o Muro, frente à face atónita dos guardas da Alemanha de Leste, paralisados pela surpresa e por um vento de liberdade que soprava, por aqueles tempos, por toda a Europa de Leste, das Repúblicas "populares" e "democráticas". Hoje, Berlim e a Alemanha estão de novo unificadas, mas as marcas psicológicas ainda irão demorar algum tempo a desaparecer.
O século XX assistiu à ascensão e queda de duas ideologias totalitárias, o fascismo, derrubado no final da Segunda Guerra Mundial, e o comunismo, que caiu ao mesmo tempo que o Muro de Berlim, permitindo ver o que estava do outro lado.
Os canais televisivos já disseram tudo o que havia a dizer sobre esta efeméride. Só quero acrescentar os meus parabéns à Alemanha e à Humanidade.


BRIDGE THE DIVIDE from ABOVE on Vimeo.

sábado, 7 de novembro de 2009

Os Anagramas de Varsóvia



É o título do último livro de Richard Zimler. Para quem não conhece, Zimler é um americano radicado há muito aqui em Portugal, mais precisamente no Porto. De origem judaica, toda a sua família materna morreu no vendaval nazi que varreu a Europa dos anos 30 e 40. Essa origem judaica perpassa na sua obra, desde O Último Cabalista de Lisboa, editado já em 1996, e que decorre na Lisboa do início do século XVI, no momento em que acontece o primeiro grande ataque aos judeus em Portugal. Continua com Goa ou o Guardião da Aurora, um dos livros da minha vida, que retrata a actuação da Inquisição goesa, ou com À procura de Sana, que tem como pano de fundo a angústia do conflito israelo-palestiniano.

Também o livro Os Anagramas de Varsóvia nos leva atrás no tempo, ao gueto de Varsóvia, onde milhares de judeus são encerrados, em condições cada vez mais penosas, até à Solução Final. Basicamente, é um livro policial. Erik Cohen, um velho psiquiatra, com a ajuda do seu velho amigo Izzy, tenta descobrir a causa da morte e amputação do seu sobrinho-neto de nove anos. Tudo no livro é ambíguo. Erik pode estar morto ou mentir sobre a sua identidade. Os habitantes do gueto podem não ser o que parecem. Erik interroga-se sobre tudo, até a natureza humana. E se o assassino do pequeno Adam e de outras crianças do gueto, assassinadas em circunstâncias idênticas, for um judeu, libertado de tabus pela própria ocupação alemã? Qual o valor da vida humana?

            “Não é assim tão difícil matar um homem. Uma polaca cheia de raiva silenciosa ensinou-me isso. (…)
            A polaca abriu uma fenda tão funda na testa do nazi que ainda consegui entrever um clarão de osso branco, antes de a ferida se inundar de sangue. A vida escorreu-lhe pela cara abaixo, e em seguida entrou pela terra dentro. (…) o que acha que pensará um jovem quando sabe que nunca mais verá a sua casa, e os cinquenta anos de futuro com que contava desaparecem para sempre?
            Não, também não sei. Fui ao encontro da morte quando já era velho. As expectativas são outras. (…)
            A mulher estava sozinha no mundo com o Izzy e comigo. Os três partilhávamos o crânio partido de um jovem cujo nome nunca saberíamos. Com os olhos, passámos a irreversibilidade da sua morte entre nós, como uma crosta de pão duro.”

A morte banaliza-se, no gueto, e as pessoas tentam continuar a viver a sua vida, como sabem ou podem.

            “Não perguntei ao sucateiro se sabia o nome dela, nem que profissão tivera no Tempo Anterior, nem quantos bebés pusera cá fora, embora soubesse que devia tê-lo feito, porque nenhum homem mulher ou criança deveria morrer sem ter o seu nome nos lábios de alguém que gostaria que não tivessem sofrido – mesmo que esse alguém seja um estranho.”

Apesar de, em muitos aspectos, ser um livro sombrio, Zimler tem uma escrita cativante, comovente, com muito ritmo e, até, com traços de humor.  Penso que não pretende ser um livro sombrio, pretende apenas que a memória seja preservada. Seja como for, é seguramente o melhor livro que li nos últimos tempos.

            “Diga-lhes como morri. Diga que estava no campo de trabalho quando fui enforcado. Diga-lhes que estava pronto para partir. Dê-lhes um beijo por mim e garanta-lhes que fui ao encontro da morte com as mãos nos bolsos, que não tive medo.”


            

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Postal de Lisboa IX - A Feira da Ladra

A Feira da Ladra é parte integrante do imaginário da cidade de Lisboa. Espalha-se pelo Campo de Santa Clara e é preciso lá ir para entender Lisboa e os lisboetas.
A localização diz-nos logo algumas coisas sobre as misturas que lá vamos encontrar: a meio caminho da Graça; paredes-meias com Alfama; encostada ao Patriarcado, na Igreja de São Vicente de Fora; ao virar da esquina do Panteão Nacional, ex-obras de Santa Engrácia.



É um espaço multifacetado, onde se encontra de tudo e toda a espécie de pessoas. Há que percorrer as ruas e caminhos com vagar, observar e ouvir as pessoas. Vem-me à memória Sérgio Godinho:

É terça-feira, Feira da Ladra,
Abre hoje às cinco da madrugada
E a rapariga
Desce as escadas quatro a quatro,
Vai vender mágoas ao desbarato.
Vai vender juras falsas,
Amarguras, ilusões,
Trapos e cacos e contradições.

Continua a ser um espaço onde se podem comprar e vender todas as coisas que nos possam vir à cabeça. Há alguma organização, percebe-se isso. Há a zona dos coleccionadores, onde se encontram as bancas das moedas e dos selos, dos discos antigos e dos isqueiros. Na pastelaria em frente, um senhor de idade avançada e vetustos cabelos brancos, abre a pasta e mostra aos amigos, com orgulho, dois discos de 45 r.p.m. Afirma: “São primeiras edições, eu sei distinguir!”

Depois, há a zona do pronto-a-vestir. Não tem história, estas tendas são iguais em todas as feiras, de norte a sul do país. Dos fatos de homem aos vestidos de praia, passando pelos sapatos, podemos sair dali com a toilette completa.


A zona mais interessante, no entanto, é a da venda livre. Quando eu era jovem, tinha colegas que lá iam vender as roupas usadas para arranjar dinheiro para as férias. Hoje, não fariam grandes férias com os proventos das vendas. Há pilhas de roupas usadas, a 1 € a peça, sapatos a 5 €. Mas continuamos a encontrar senhoras idosas que chegam, com grandes sacos, e espalham no chão, sobre um lençol que já foi branco, “trapos e cacos e contradições”… São velhas molduras, travessas esbeiceladas, chávenas desemparelhadas. Alguém lhes compra aquilo? Alguns jovens mostram pilhas de livros de quadradinhos, ou atlas, livros sobre o corpo humano, Histórias de Portugal, daquela idade ingrata em que nem são novidades nem adquiriram ainda o estatuto de antiguidades. Há artesãos que vendem as suas obras, peças únicas, pedaços de sonhos.


Também há a zona das antiguidades, claro. Essa tem direito a pequenos espaços virados para a rua, no antigo mercado. Aí encontramos os alfarrabistas, onde me apetece perder. Aí se vendem velhos cadeirões, já cansados de baloiçar, manequins que exibem a sua nudez ingénua, mesas de cabeceira com tampo de mármore e portinha para esconder o bacio. Há bonés e galões da Marinha ao lado de um grande pára-quedas, encostado a uma parede, com ar perdido.
Saio do Campo de Santa Clara contente e tranquila, acompanhada pelo som de um acordeão. A cidade continua viva.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Bucólica



O meu post anterior, sobre as brincadeiras da infância, fez-me recordar muitas coisas. Por exemplo, lembrei-me de um livrinho de poemas que recebi como prémio escolar na minha 3.ª classe, portanto com 9 anos. Consegui descobrir esse livrinho e voltei a sentir a mesma emoção. É um livrinho pequeno, de 1965, com poemas de grandes autores portugueses, explicados em palavras simples, para serem entendidos por crianças de 9, 10 anos. Li-o e reli-o muitas vezes. Com ele, aprendi a amar o som, o ritmo das palavras, naquilo a que chamamos poesia. Com ele, conheci Luis de Camões e Fernando Pessoa, Sebastião da Gama e Teixeira de Pascoaes. Das poesias que então lia e amava, escolhi uma de Miguel Torga para partilhar aqui.

Bucólica


A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
à espera de movimento;
de searas onduladas
pelo vento;
de casas de moradia
caiadas e com sinais
de ninhos que outrora havia
nos beirais.


De poeira;
de sombra duma figueira.
De ver esta maravilha:
meu pai a erguer uma videira
como uma mãe que faz a trança à filha.
                 
               (Miguel Torga)




A vida é feita de miudezas, coisas vulgares e, no entanto, cheias de significado. Não pode um homem estar erguendo uma videira com o amor, o cuidado, o jeito, com que uma mãe faz a trança a uma filha? Quantas coisas vulgares à nossa volta que, vistas com os olhos do amor ou da poesia, se tornam maravilhosas!







domingo, 1 de novembro de 2009

Brinquedos e brincadeiras

(Este texto insere-se na Blogagem Colectiva de Novembro do "Vou de Colectivo!")


Quando me lembro da minha infância, automaticamente vêm-me à memória os momentos de brincadeira. E eram muitos! Eu vivi até aos dez anos numa casa antiga, com um quintalzinho nas traseiras que, por sua vez, dava para um quintal muito maior, com galinhas e árvores de fruto. Quando os donos se mudaram e o quintal ficou ao abandono, a minha aventura predilecta era saltar o pequeno muro e explorar aquele mundo, que parecia só meu! Já não havia galinhas, mas havia muitos gatos e um ou outro cão rafeiro que por lá aparecia. Também havia figueiras, a que eu trepava para comer os figos.
Quando eu era pequena, a vida na cidade não era tão complicada e insegura como hoje, e eu brincava muito fora de portas. Eram tardes inteiras a jogar à macaca, ou a saltar ao elástico! Os pais não precisavam de pôr os miúdos no ginásio, nós fazíamos muito exercício por nossa própria iniciativa.
Também passava muito tempo a ler, os livros sempre foram um componente importante da minha vida.
Mas o meu brinquedo favorito era um bebé-chorão (lembram-se deles? antepassados dos Nenucos, com as carinhas rechonchudas e os corpos de pano?), para quem eu preparava fatinhos e papinhas, com a ajuda da minha mãe e das minhas tias-avós. Só gostava daquele boneco, que andava sempre comigo. Os outros bonecos que eu tinha, só serviam para pôr em filas no corredor, enquanto eu fingia que lhes dava aulas. A vocação de professora já vinha de longe!

Para os mais novos, ou aqueles que já não se lembram bem, vou dar uma ajuda e relembrar as regras do Jogo da Macaca. É muito simples, e continua a ser excelente para jogar na rua, no parque ou na praia.






Tira-se à sorte quem vai começar. Cada jogador, então, lança uma pedrinha, chamada patela, inicialmente na casa número 1, devendo acertar dentro dos limites. Em seguida salta, com um pé só nas casas isoladas e com os dois nas casas duplas, evitando a que contém a pedrinha.
Chegado ao céu, pisa com os dois pés e retorna pulando da mesma forma até às casas 2-3, de onde o jogador terá que apanhar a pedrinha do chão, sem perder o equilíbrio, e pular de volta ao ponto de partida. Não cometendo erros, joga a pedrinha para a casa 2 e assim sucessivamente, repetindo todo o processo.
Se perder o equilíbrio, e tocar com a mão no chão ou se pisar fora dos limites das casas, o jogador passa a vez ao próximo, recomeçando a jogar na sua vez, no ponto em que errou.
Ganha o jogo quem primeiro alcançar o céu.