domingo, 30 de agosto de 2009

A Viagem do Elefante

Já escrevi noutro post que as férias também servem para pôr as leituras em dia. Dos livros que li, quero destacar A Viagem do Elefante, de José Saramago, agora que se aproxima o lançamento de mais um livro do autor.

Saramago costuma partir de uma ideia original, que depois desmonta e explora. Desta vez, como no Memorial do Convento, parte de um facto histórico, para montar à sua volta todo um universo ficcional, com um olhar sarcástico sobre o mundo. O facto histórico é a oferta de um elefante indiano, feita por D. João III a seu primo, o arquiduque Maximiliano de Áustria, que se encontrava na altura a estanciar em Valladolid. O elefante, Salomão de seu
nome, encontrava-se há dois anos em Belém e vai encetar uma viagem de Lisboa a Valladolid, ao encontro do arquiduque, continuando depois até Viena de Áustria, como parte do seu séquito e claro trunfo de propaganda política. Estamos no século XVI e esta viagem, por terra, mar e rio, cruzando as áridas planícies espanholas assim como os Alpes, com as suas tempestades de neve, oferece muitos perigos e dificuldades. O que vale é que Salomão é um elefante com muito bom feitio, que até protagoniza um milagre na Basílica de Santo António, em Pádua.
Não há muitos registos históricos desta viagem, pelo que José Saramago pôde preencher todos os espaços em branco a seu belo prazer. Assim, seguimos o elefante Salomão, a quem Maximiliano da Áustria muda o nome para Solimão, até Viena de Áustria, guiado por um cornaca inteligente e com traços de filósofo, acompanhado por soldados, couraceiros, trabalhadores à jorna, cruzando-se com padres mais ou menos inventivos e populações em festa e espanto perante tal bicho. Não há personagens com grande densidade psicológica (com excepção, talvez, do cornaca), há um grupo em viagem, e é da viagem que reza o livro. No entanto, o seu maior brilho está nos diálogos entre os vários protagonistas, fantasiosos ou realistas, mais ou menos subtis ou irónicos, mas sempre de grande riqueza.
Gostei muito e se alguém ainda não leu (o que me custa a crer, pelo número de exemplares já vendidos), recomendo!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Lutas de cães e outras barbaridades

Foi ontem aprovado em Conselho de Ministros o novo regime jurídico da detenção de animais perigosos e potencialmente perigosos enquanto animais de companhia. Promover e participar em lutas de cães poderá levar a uma pena de prisão até um ano.
Não posso senão aplaudir uma tal medida, que só peca por tardia. O treino dos cães para essas competições ilegais e as próprias lutas só mostram o que os seres humanos têm de pior: o gosto pela violência, o divertimento conseguido através do sofrimentos de outros, a insensibilidade. Qualquer simples pesquisa na internet mostra imagens e videos dessas lutas e vê-se claramente o estado deplorável em que os pobres animais ficam: quando não morrem, os cães ficam muitas vezes com grandes feridas e desfigurados. E, no entanto, estes videos são vistos e revistos muitas vezes, e não é seguramente por compaixão. O que leva um ser humano a tratar desta maneira os animais que mais nos amam, fielmente, incondicionalmente? Não consigo ter resposta para esta pergunta mas, na falta de outra, tem de ser o Estado a dar claramente uma resposta legal.
Um país define-se pela forma como aí se tratam os animais. Acho que temos dado passos na direcção correcta, que é a da humanidade e do respeito pelos seres que convivem connosco. Ainda há outras situações que, na minha opinião, merecem reflexão: todos conseguimos pensar em algumas situações em que toleramos o sofrimento dos animais em nome, simplesmente, da nossa diversão! Eu acredito que podemos sempre melhorar. Ontem, demos um passo na estrada certa.

(Imagem retirada de noticias.pt.msn.com)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Fim de férias



(Desfiladeiro de los Beyos)

Fim das férias, regresso a casa.
Abro a caixa do correio, que está atafulhada de folhetos a oferecerem "tudo para o regresso às aulas"! Os papéis em cima da minha secretária também solicitam a minha atenção e falam de regresso ao trabalho.


(Fuente Dé)

O sol já se põe bem mais cedo e a noite, tal como a manhã, vem acompanhada por um ventinho frio, que pede uma camisola de manga comprida.
Há cada vez menos andorinhas nos beirais.


(San Vicente de la Barquera)

Ainda é Agosto, mas já começa a cheirar a Outono!

Cantábria - Agosto de 2009 (Fotografias de Teresa Ferreira)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Piaf


Descobri que hoje é o Dia da Juventude e que, para assinalar a efeméride, o governo português decidiu dar descontos em espectáculos a jovens entre os 16 e os 25 anos. Para dar a minha contribuição, vou sugerir um espectáculo: Piaf, um musical encenado por Filipe LaFeria, sobre argumento de Pam Gems.

Conta, como é evidente, a história da vida de Edith Piaf, essa extraordinária cançonetista parisiense, que encantou o mundo inteiro com a sua voz e a sua expressividade, entre os anos 40 e 50. Depois de muitos amores atribulados, e presa de uma grande instabilidade emocional, acaba a carreira e a vida demasiado cedo. Mas as suas interpretações ficarão para sempre connosco, simbolizando o encanto de Paris, na época em que Paris era, realmente, a cidade que marcava a cultura do mundo ocidental.

O espectáculo está muito interessante, não ocultando as fases mais negras da vida da cantora. Mas o ponto mais alto são as extraordinárias interpretações de Vanda Stuart, cuja voz e postura em palco se aproximam muito da própria Edith Piaf.

Agora que vou de férias (desta vez férias a sério, com a família!), haverá melhor maneira de me despedir do que com a voz da própria Piaf?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Crónicas de Jerusalém - III



Sábado é o dia sagrado dos judeus, o Shabat, por isso foi o único dia em que não trabalhámos. Aproveitámos o tempo livre para descer até ao Mar Morto - cerca de 400 metros abaixo do nível do mar - e visitar as ruínas da fortaleza de Massada.

(Subindo no funicular para Massada)

Massada é uma fortaleza e um palácio, mandado construir por Herodes o Grande no cume de um enorme e altíssimo penhasco no deserto, mesmo junto ao Mar Morto. Pode-se subir a pé, e parece que há muitos que o fazem, mas o calor era abrasador e subimos de funicular. Foi nessa fortaleza que se refugiaram os últimos resistentes judeus, quando da Grande Rebelião contra os Romanos, cerca de 70 d.C. (ou Era Comum, como chamam os judeus). E foi aí que decidiram suicidar-se quando, depois de um duríssimo cerco, a derrota já era inevitável. Visitámos a sala onde foram encontrados os pedaços de cerâmica, ostrakon, com os nomes dos últimos sobreviventes, onde tiraram à sorte o nome do que ajudaria os outros e cometeria o suicídio em último lugar. Quando os Romanos entraram em Massada, só restavam duas mulheres e uma criança.

(Vista sobre o deserto e o Mar Morto, do alto da fortaleza)

Hoje, acima de tudo, Massada é um símbolo da resistência dos judeus. Há turmas de jovens que aí vão comemorar o seu bar mitzvah e os soldados fazem aí o seu juramento de defesa do Estado de Israel. E, por todo o lado, a mesma frase: Massada não voltará a cair!
Depois, para descontrair, banho no Mar Morto. Banho no Mar Morto? Não, banho numa sopa salgada e meio oleosa, com uma temperatura de cerca de 35º C. Ok, valeu pela experiência. Agora, dêem-me as minhas belas praias atlânticas, se faz favor!


(Mulheres muçulmanas tomam banho no Mar Morto; em primeiro plano, as rochas cobertas de sal)


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Goodbye Lenin


As férias também servem para pôr em ordem as leituras que não tivemos tempo de fazer ou os filmes que não tivemos tempo de ver. Para os filmes com mais razão ainda, já que eles são exibidos ao contrário do nosso ritmo normal de vida. Isto é, os filmes bons são, geralmente, exibidos no inverno, especialmente entre Janeiro e Março, antes da entrega dos Óscares. Mas, pelo menos para mim que sou professora, essa altura do ano é de muito trabalho, com projectos a desenvolver e trabalho acumulado que, muitas vezes, extravasa para o fim-de-semana. Não consigo ir ao cinema tanto quanto gostaria e fico sempre com filmes em atraso. Pelo contrário, no Verão, quando temos algum tempo livre, é raro encontrar um filme bom em exibição. É então altura de repescar os filmes que não houve tempo para ver. Foi o caso de Goodbye Lenin!
Filme alemão de 2003, realizado por Wolfgang Becker, a acção desenrola-se na antiga Alemanha de Leste, entre os finais dos anos 80 e o início dos anos 90, isto é, retrata o período de contestação e decadência do regime comunista da RDA, depois a queda do Muro de Berlim, até à unificação alemã. É todo um processo de mutação económica, social mas também das mentalidades, que se opera na Alemanha dessa época.
A mudança dá-se em todo o país, menos num pequeno apartamento de Berlim onde Alex constrói uma encenação de um país ainda sob regime comunista para evitar emoções fatais à mãe, recém-saída de um ataque cardíaco e de uma situação de coma. A encenação de Alex torna-se cada vez mais complexa, até acabar por se tornar, talvez, no retrato do país onde Alex gostaria de viver. É uma comédia que pode ser vista como um filme histórico. Ou é um filme histórico disfarçado de comédia. Seja como for, é um excelente filme, que nos faz sorrir e reflectir.



sábado, 8 de agosto de 2009

Crónicas de Jerusalém - II



O Muro das Lamentações é um sítio estranho. Pensamos que o conhecemos bem, das imagens que vamos vendo na televisão. Mas é bastante diferente, visto e vivido ali mesmo. Começamos a vê-lo ao longe e a perceber a massa humana junto dele. No topo da grande praça fronteira ao Muro, um controlo policial: já estamos a ficar habituados, revista, passa as malas... A praça é grande, mas o recinto que dá acesso ao Muro é muito mais pequeno. Do lado direito, é o recinto das mulheres; do lado esquerdo é o dos homens.


O recinto dos homens é, talvez, o triplo do das mulheres, por isso, eles rezam tranquila e espaçosamente, enquanto elas se acotovelam num espaço exíguo. Ainda por cima, as mulheres trazem cadeiras e carrinhos de bebé, rezam balançando o corpo ou recuam após rezar junto ao Muro - sempre de frente para o Muro, em sinal de respeito - o que torna o espaço apertado e confuso. Na zona masculina, entretanto, o espaço abunda e os homens rezam cantando. Machismo, em versão judia ortodoxa?

(A minha mão no Muro das Lamentações)

Perto do hotel, há um souk colorido e animado, onde compram e vendem tanto judeus como árabes. Tirei algumas fotografias, mas as fotografias não conseguem captar os pregões gritados dos homens, nem o cheiro intenso das frutas e das especiarias.


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Crónicas de Jerusalém - I


Quando se chega a Jerusalém, a primeira impressão é a de uma cidade cor de areia. Todos os edifícios são da mesma cor, a cor da areia, a cor do deserto.
Mas esse é o único sinal de homogeneidade. Percebemos rapidamente que é uma cidade de contrastes, onde o antigo coabita com o moderno e o amor coabita com a morte.

Jerusalém é considerada cidade santa por três religiões, judaísmo, cristianismo, islamismo, e aí existem monumentos sagrados para milhões de crentes das três fés. Devia ser uma cidade de paz, no entanto...
Há dois grupos de pessoas que encontramos um pouco por todo o lado: soldados e judeus ortodoxos. O que nos chama mais a atenção, logo que chegamos, são os soldados, em todas as ruas e praças, tanto rapazes como raparigas, já que o serviço militar é obrigatório para ambos os sexos entre os 18 e os 20 anos. É estranho entrar numa loja e ver rapariguinhas a experimentar brincos, ou a comer um hamburguer, com uma metralhadora a tiracolo.
Sendo aqui o centro da Terra Prometida, Jerusalém é também a cidade israelita onde vive um maior número de judeus ortodoxos. Distinguem-se bem, com os seus fatos pretos que parecem fora de moda, camisa branca e as franjas do xaile de oração a aparecerem por baixo do casaco. Na cabeça, um chapéu preto ou, no mínimo, a simples kipah . As mulheres judias ortodoxas também se distinguem bem, com as suas saias pretas, camisas direitas e cabelos escondidos atrás de um lenço, uma pequena boina ou até uma peruca, já que a mulher casada só deve mostrar o cabelo ao marido.

Tirei muitas fotografias a pessoas, homens e mulheres, soldados ou religiosos. De início, são desconfiados, mas depois de perceberem as nossas intenções, tornam-se simpáticos e conversadores, contam sobre as suas tradições e maneira de viver e até gostam de posar para a fotografia!


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Em Trânsito

Sim, realmente estou em trânsito, entre duas saídas do país: acabei de regressar de uma viagem de trabalho a Jerusalém, que também me deu muito prazer, e irei brevemente de férias com a família, que a vida não é só trabalhar, não é?
A partir de amanhã, vou postar algumas Crónicas de Jerusalém, dando conta do que os meus óculos do mundo captaram dessa realidade tão complexa e fascinante que é a Cidade Santa.
Entretanto, para todos os habitantes desta igualmente fascinante blogosfera, de quem tive algumas saudades, deixo abraços carinhosos e... grátis!
Campanha Free Hugs!