sábado, 25 de julho de 2009

Férias, finalmente!

Finalmente, este ano de trabalho terminou e entro no período a que chamamos férias. Vão ser umas férias com trabalho, ou um trabalho de férias, como queiram, já que vou para Jerusalém fazer um curso. Durante aproximadamente um mês, vou andar mais afastada do blogue, mas vou andar por aí, como dizia o outro!
Entretanto, deixo os meus amigos e visitantes com uma música que expressa bem a minha boa disposição do momento.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Porque você tem um blogue?


Não quero ir de férias sem responder ao desafio da Vanessa, do blogue "Fio de Ariadne": Porque você tem um blogue?
Esta questão fez-me pensar, voltar atrás, àquele momento das férias da Páscoa em que decidi pedir ao meu filho: "Ensina-me a criar um blogue!"
"É fácil, mãe!" e lá me ensinou a procurar um modelo, a tratar o texto, a importar filmes e imagens... enfim, depois fui aprendendo sozinha. O que me levou a isso? A resposta impõe-se na minha cabeça: a total saturação do meu trabalho, a necessidade de evasão. Sou professora e este ano lectivo foi particularmente difícil para todos os professores. Grandes alterações na legislação, imposição de modelos de avaliação e gestão muito penalizadores para todos e, no meio, os alunos e nós todos cada vez com menos paciência para aquilo que é, verdadeiramente, a nossa missão. Participei em todas as lutas e manifestações mas, num dado momento, atingi a saturação. Não aguentava ouvir mais falar sempre das mesmas coisas. E resolvi criar um blogue. O objectivo era distrair-me, abstrair-me dos problemas da escola, através de outras pessoas, outras conversas. Atingi esse objectivo e outros, que nem imaginava. O que é que eu ganhei com o blogue?
  • A evasão do dia-a-dia. Todos os dias me distraía a pensar no que ia escrever no blogue, todos os dias encontrava coisas diferentes e interessantes sobre as quais escrever.
  • O enriquecimento humano. Encontrei pessoas fascinantes, que gostavam das mesmas coisas que eu, ou com as quais tinha coisas em comum, e que enriqueceram e continuam a enriquecer os meus dias. Há blogues que eu sigo diariamente, com muita ternura e amizade.
  • Um pretexto para escrever. Sempre gostei de escrever. A minha vida sempre girou muito à volta da escrita e dos livros. Mas, muitas vezes, pensava: para quê escrever? Para arquivar numa pasta do computador? Para guardar na gaveta? O blogue deu-me outra razão: para partilhar. Para ler e dar a ler.
Talvez, afinal, seja essa a razão última para criar um blogue e a mais rica de consequências: a partilha!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

As Cinzas de Angela

Com 78 anos, Franck McCourt não resistiu mais a um cancro de pele de que sofria há anos e faleceu em Manhattan. Para muitas pessoas, é um nome com pouco significado. Não era um escritor que estivesse na moda, não publicava nada há algum tempo. Talvez por isso, a sua morte passou quase despercebida, nada de demonstrações públicas (ia dizer histéricas!) de pesar, como quando da morte de Michael Jackson, por exemplo. No entanto, a vida e a obra deste homem têm um valor muito particular, porque simbolizam uma época e um sonho.

Franck McCourt é conhecido principalmente pelo seu romance As Cinzas de Angela. Romance assumidamente auto-biográfico, nele McCourt narra a sua infância miserável nos bairros pobres de Limerick, na Irlanda. Filho de emigrantes irlandeses nos Estados Unidos da América, a família vê-se obrigada a regressar à Irlanda nos anos 30, na época da Grande Depressão. Mas em Limerick, nos anos 30 e 40, a vida é muito difícil, com o peso da fome, da violência, da tuberculose, da miséria. Também da humidade, que o autor considera responsável pela religiosidade da população, que se acotovelava nas igrejas à procura de um pouco de calor e de conforto. E também dos ingleses, que os irlandeses odiavam ao ponto de quase desejarem a vitória nazi, durante a 2.ª Guerra Mundial.

Diz Franck McCourt no início do seu romance:

Quando penso na minha infância, pergunto a mim próprio como consegui sobreviver. É claro que foi uma infância infeliz: se tivesse sido feliz, dificilmente teria valido a pena. Pior do que qualquer vulgar infância infeliz é a infância infeliz de uma criança irlandesa, e, pior ainda, de uma criança irlandesa e católica.

É um livro tocante, às vezes triste, muitas vezes de uma candura desarmante, porque nos mostra um mundo desapiedado pelos olhos de uma criança que faz o que pode para sobreviver e encontrar o seu caminho. Franck não desiste nunca porque tem um sonho: voltar para os Estados Unidos da América. Este sonho comanda-lhe a vida, pelo menos a partir da adolescência. Acabará por atingi-lo, e volta para Nova York com 18 anos, encerrando o período da sua vida abrangido por este livro.

A sua luta por um lugar ao sol na grande metrópole americana dará origem a outro romance Esta é a minha Terra, na minha opinião uma obra menos interessante e original do que As Cinzas de Angela. Este livro, através do qual eu presto a minha homenagem ao autor, apresenta uma prosa comovente e poética, mas ao mesmo tempo enérgica e com momentos de verdadeiro humor. Com esta obra, McCourt ganha o prémio Pulitzer de 1997, além do National Book Award.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Há 40 anos, o Homem na Lua


Lembro-me bem. Eu e a minha irmã, pasmadas, de olhos pregados na televisão. No pequeno ecrã preto e branco passavam imagens estranhas, que pareciam saídas de um filme fantástico. A minha tia-avó mais nova dizia: “Se eu alguma vez imaginei ver isto!” E a minha tia-avó mais velha resmungava: “Isto é tudo mentira, como é que o Homem pode ir à Lua?” E nós as duas, de olhos pregados na televisão.

Nós e mais uns quantos milhões de pessoas à volta do mundo. Faz hoje 40 anos que o Homem pisou a Lua pela primeira vez. E, numa época de confrontos e guerra fria, só a China escolheu ignorar totalmente o acontecimento. A quase totalidade dos países do mundo seguiu com entusiasmo e assombro o feito pioneiro dos astronautas americanos. A própria União Soviética, rival dos americanos na corrida ao espaço, faz grandes reportagens consagradas à missão Apollo e Podgorny, presidente do Soviete Supremo, presta homenagem aos três astronautas.

O lançamento da nave Apollo 11 tinha atraído milhares de pessoas para a Flórida. Muitos são convidados, altos dignitários americanos e de outros países. Cinquenta e cinco países, entre eles três da Cortina de Ferro, enviaram representantes. Todos os países da Europa ocidental estão representados, excepto Portugal.

A missão da nave Apollo 11 representava o culminar de uma corrida ao espaço que se tinha iniciado em 1957, quando os soviéticos lançaram o primeiro satélite Sputnik para o espaço. Logo no ano seguinte, os Estados Unidos da América criaram a NASA, a agência espacial americana, e procuram acompanhar ou ultrapassar a União Soviética na exploração do espaço. Mas o primeiro homem a orbitar a Terra é soviético, Yuri Gagarine. E a primeira mulher também, Valentina Terechkova, símbolo de um século que trouxe a igualdade de oportunidades às mulheres, pelo menos numa parte do mundo. Quando os astronautas Armstrong e Aldrin passeiam no Mar da Tranquilidade lunar e aí colocam uma bandeira americana, esse acto é o símbolo de uma vitória nesse teatro de guerra tão particular que era a exploração espacial.

Mas para mim e para a minha irmã, que naquele dia estávamos presas ao ecrã da televisão e aos passos lentos e leves daqueles estranhos homens de escafandro, como para os outros milhões de pessoas que assistiam àquele acontecimento pelo mundo fora, e que nada sabíamos de política, era a demonstração da capacidade humana que ali estava, o querer e o sonho transformados em acto. E todos sentíamos que era realmente, como se ouvia na transmissão televisiva, “um passo gigante para a Humanidade”.


Aldrin fotografado por Armstrong (que se vê reflectido na viseira do capacete) no mar da Tranquilidade, em Julho de 1969. Entretanto, o terceiro astronauta, Collins, faz a órbita da Lua. (Fotografia do Google)


domingo, 19 de julho de 2009

A beleza das placas toponímicas



Confesso: tenho uma paixão secreta por placas toponímicas!

Há quem considere que uma placa toponímica é uma coisa sem importância, que apenas dá um nome a uma coisa, neste caso uma rua, ou um beco, ou um largo, um sítio na cidade. Dá jeito para os carteiros e pouco mais. Até podiam ser apenas números, como em Nova York.
Nada mais errado. As placas toponímicas dizem muito sobre a evolução do local e sobre quem lá vive. Vou dar alguns exemplos.

Há placas que valem apenas pela sua beleza e contam coisas sobre o gosto de quem as fez.

(Alcochete)
Algumas fazem referência a serviços que já ali não existem.

(Alcochete)
Outras recordam pessoas que já ninguém consegue identificar.

(Alcochete)
Há algumas que, na sua evolução, reflectem a evolução política do próprio país.

(Tomar)
Outras reflectem uma ideia de progresso, que deve ser expressa na seriedade dos nomes.

(Tomar)
Há placas que de sérias não têm nada, e ninguém sabe de onde vêm aqueles nomes!

(Lisboa - Alfama)
E há aquelas que, no próprio material de que é feita a placa, prestam homenagem a quem é ali nomeado.

(Lisboa - Baixa)
Restam algumas dúvidas? Temos de prestar mais atenção às nossas placas toponímicas!

(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)



sexta-feira, 17 de julho de 2009

Cinco momentos para passar em câmara lenta


Há uma semana atrás, a Marta (do blogue havidaemmarta.blogspot.com) desafiou-me a pensar em cinco momentos da minha vida dignos de serem passados em câmara lenta. Eu aceitei o desafio e tenho andado a pensar em todos esses momentos (e em quais poderia registar publicamente!).

Então, aí vão:

  • O dia em que o meu filho nasceu. Depois de tanto tempo a tentar e a falhar, finalmente tinha o meu filho nos braços. Foi o dia mais feliz da minha vida.
  • O momento em que colocaram a minha filha recém-nascida sobre o meu peito e, ao olhá-la, tive um ataque de amor e protecção leonina que durará para sempre.
  • A primeira viagem de que me recordo. Tinha seis anos e viajava pelas ilhas dos Açores. Ao chegar ao Corvo, o barquinho em que vinhamos a terra atravessou um mar vermelho do sangue da baleia acabada de apanhar e as pessoas, sérias e de fato domingueiro, esperavam as notícias do vapor. As impressões dessa viagem marcaram para sempre a minha alma andarilha.
  • A primeira vez que ouvi a frase "Gosto de ti". Estava sentada na pastelaria ao pé do liceu e as mãos apertavam nervosamente o copo de coca-cola.
  • O momento em que festejei os meus cinquenta anos de vida, ao lado do meu companheiro de há mais de vinte. Foi o momento de reequacionar a minha vida e achei que tinha valido a pena e continuava a valer!
Cinco momentos dignos de passar em câmara lenta, retirados do filme da minha vida.

Porque são cinco momentos, vou passar o desafio a cinco amigas. E porque este blogue é tão luso-brasileiro, vou escolher três amigas portuguesas - a Rosa, a Fátima e a Natália - e duas amigas brasileiras - a Chica e a Ana Paula. Vamos ver quem aceita o desafio.

Dunas de Merzouga - Marrocos (Foto de Fernando Ferreira)


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Comunicação


Este post integra-se na blogagem colectiva da Tertúlia Virtual - 1.º aniversário: um ano, um fim. Desta vez o tema é livre e eu aproveito para demonstrar o valor da Tertúlia para a espécie humana.

Parque das Nações, duas horas da tarde. Como tantas vezes acontece, aproveito um tempinho livre para passear um pouco ao longo do rio. Sento-me no meu recanto preferido, perto do Lago das Tágides, debaixo de uma grande buganvília carregada de flores de um rosa vivo.

Está uma rapariga sentada num banco ao lado do meu. Parece nervosa, fala ao telemóvel (foi o que me chamou a atenção, ela parece estar alheada do mundo, sem se preocupar se alguém ouve a sua conversa, o que é completamente comum hoje em dia! – somos constantemente bombardeados pelas conversas de toda a gente). Deve falar com uma amiga, diz que “ele é insensível, podia ter vindo comigo, em vez disso estou aqui sozinha!” Depois de desligar, volta a pegar no telemóvel vezes sem conta, olha, mexe nas teclas, abre e fecha a tampa, depois pega num cigarro, acende-o, olha para um lado e para outro.

Eu olho em frente e sinto-me serena. O rio está ali, sempre igual e sempre diferente. De repente, o espanto dentro de mim: um peixe salta na água, volta a saltar, três, quatro vezes, uma imagem de alegria e vitalidade. Olho para a rapariga pelo canto do olho: continua nervosamente a mexer no telemóvel. Tenho vontade de lhe dizer: “Pára! Olha à volta, deixa o mundo entrar!” Continuo a olhar para o peixe, uma faixa prateada a saltar na água, indiferente às gaivotas!

Todas estas reflexões se passam entre mim e os meus botões, como se dizia antigamente, já que esta ideia de que nunca podemos estar sozinhos, nem mesmo a pensar, já não é nova: pelo menos os botões têm de lá estar! E dou comigo a pensar que somos mesmo seres gregários! E como a comunicação é importante para a nossa espécie! E como a Tertúlia Virtual nos vai fazer falta.

(Fotografia de Tony Maroussis)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Postal de Lisboa VII - O Cais das Colunas



Cais das Colunas (Fotografia de Teresa Diniz)

Já há tempos que andava com vontade de ir ao recém-recuperado Cais das Colunas, na Ribeira das Naus (que bem que me sabe escrever estes nomes, nomes com espessura histórica, que trazem consigo o cheiro de fardos de pimenta e canela!).
Durante anos, o Cais das Colunas desapareceu, ou, mais precisamente, as colunas do cais desapareceram. As obras do metropolitano habituaram-nos a não olhar para o rio: só se viam tapumes, entulho e máquinas. As águas estavam sujas e viam-se as coisas mais estranhas a boiar! O próprio Terreiro do Paço perdeu a sua nobreza, constantemente pejado de carros e eléctricos e autocarros e peões a acotovelarem-se para atravessar nas passadeiras. Durante anos, foi simplesmente um grande parque de estacionamento.
Lembro-me que, durante anos, eu e os meus filhos cumprimos um ritual de Natal que consistia em ir à Baixa ao fim da tarde, num qualquer dia de Dezembro, para pasmarmos com as iluminações das ruas (o deslumbramento era parte integrante desse ritual). Depois, comprávamos waffles de chocolate na Rua Augusta e terminavamos o tour, invariavelmente, no Terreiro do Paço, com as mãos e as bocas todas lambuzadas de chocolate, cheios de protestos porque não havia nem um banquinho para nos sentarmos.
Agora continua a não haver banquinhos (com excepção daqueles coloridos, horrorosos, com uma árvore portátil, que povoam o passeio em frente do terminal fluvial), porque o Terreiro do Paço está novamente em obras. Só que, desta vez, parece que a ideia é devolver a Praça aos lisboetas e transeuntes em geral. Agradeço e espero pelo fim de mais estas obras com uma esperança sorridente.
O Cais das Colunas, finalmente, voltou para o seu lugar. Se o Terreiro do Paço é a sala de visitas de Lisboa, o Cais das Colunas é a porta de entrada, é a cidade que nos abre os braços.
O espaço é grande e agradável, com bancos de pedra que seguem a linha ondulada do cais. Há pessoas a passear, a ver o rio, pombos e gaivotas esvoaçam por ali. Há muitos turistas, a fotografar tudo. Uma senhora persegue um pombo com uma máquina fotográfica, mas o pássaro está mal-humorado, não há meio de ficar quieto e fazer uma bonita pose para a fotografia. E eu posso, finalmente, sentar-me num banco, encher o olhar de rio e sentir, na minha imaginação, o cheiro da pimenta e da canela que deram o nome ao Paço que o rei D. Manuel aqui construiu um dia.

Cais das Colunas (Fotografia de Teresa Diniz)

domingo, 12 de julho de 2009

O Dia Mundial contra o Trabalho Infantil e Miguel Torga

Hoje, 12 de Julho, é o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil. "O trabalho infantil é toda a forma de trabalho exercido por crianças e adolescentes, abaixo da idade mínima legalpermitida para o trabalho,de acordo com a legislação laboral de cada país."

Não me agrada registar esta data, porque significa que o respeito pelos direitos da Infância ainda não é uma constante, neste nosso mundo. Nos países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, pelo contrário, é até um facto muito comum, quantas vezes voluntariamente ignorado pelos respectivos governos. Sabemos que nas sociedades agrárias, em tempos mais recuados, as crianças ajudavam os adultos nos trabalhos do campo ou no cuidado com os animais. Entretanto, as sociedades industrializadas aproveitaram e exploraram essa mão-de-obra disponível por um baixo preço. Felizmente, a sociedade evoluiu e hoje, na maior parte dos países, aceita-se que o lugar das crianças é na escola e, não menos importante, no parque infantil.

As crianças têm o direito de aprender, mas também têm o direito de ter tempo para brincar, para sonhar, para não fazer absolutamente nada. Têm o direito de não ser abandonadas em frente da televisão, têm o direito a usufruir de cuidados médicos e materiais, mas também de carinho e disponibilidade por parte dos adultos. Têm o direito de ser crianças. Só assim poderão vir a ser bons adultos.

A propósito desta data, deixo aqui um poema de Miguel Torga. É a minha forma de comemorar o dia.

Parque Infantil

Joga a bola, menino!
Dá pontapés certeiros
Na empanturrada imagem
Deste mundo.
Traça no firmamento
Órbitas arbitrárias
Onde os astros fingidos
Percam a magestade.
Brinca,
Na eterna idade que eu já tive
E perdi,
Quando, por imprudência,
Saltei o risco branco da inocência.

Miguel Torga, Diário VII, 1956


sexta-feira, 10 de julho de 2009

Lagarinhos


(Este texto integra-se na blogagem colectiva “As Férias na minha Terra” proposta pela Susana, do blogue “Aldeia da Minha Vida”)

Por vezes, durante alguns dias, troco o estuário do Tejo pela paisagem serrana desta aldeia da Beira Alta, berço de alguns familiares do meu marido. Não seria capaz de viver aqui, sou demasiado urbana. No entanto, gosto da pureza ingénua da aldeia. Gosto de acordar com o som do sino da igreja. Gosto de abrir a janela de manhã e ver os cumes da Serra da Estrela, coroados de neve, ou de nuvens, ou banhados de sol. Gosto das casas de granito, sólidas, sérias, fiáveis. Gosto do forno comunitário da aldeia, onde a prima Rosita ainda sabe cozer pão e bôlas de carne. Na Primavera, gosto dos campos e encostas polvilhados com os tufos de florinhas brancas da urze, como uma neve tardia. Gosto dos cães da serra. Gosto dos caminhos ladeados de pinheiros e delimitados por pedras centenárias.

Lagarinhos / Abril 2009 (Foto de Fernando Ferreira)

E, imperdível mesmo, gosto do arroz de carqueja e da feijoada à moda dos pastores da Serra da Estrela do restaurante “O Júlio”, em Gouveia, que por acaso não me paga a publicidade!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Leonard Cohen, I'm your fan!

Leonard Cohen vem actuar no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, dia 30 de Julho. Adoro este velho senhor da música, mas não estarei em Lisboa nesse dia. Como compensação, já levei para o carro os 4 CDs que tenho de Leonard Cohen - e continuo a não me cansar de o ouvir!

Para os sortudos que o vão ver e ouvir ao Pavilhão Atlântico, aqui está um video de Leonard Cohen cantando "I'm your man" (uma das minhas canções favoritas, não há dúvida), com a vantagem de que vai passando a letra. Assim, podem ir ouvindo enquanto treinam as vozes para o concerto!

terça-feira, 7 de julho de 2009

O Cerco a Jerusalém


Neste mesmo dia 7 de Julho, mas no já longínquo ano da graça de Nosso senhor Jesus Cristo de 1099, Godofredo de Bulhões chegava às portas de Jerusalém. Decorria a primeira Cruzada. Depois do pregão feito pelo Papa, toda a Cristandade se levantou num impulso entusiástico para libertar o Santo Sepulcro das mãos do infiel. É claro que, no século XI, o mundo infiel estava, em muitos aspectos, mais desenvolvido do que a Cristandade, mas isso que importava para aqueles espíritos movidos pela fé, mas também pela ganância de dominar novos territórios e novas riquezas?

Na 1.ª Cruzada, assim como nas que se lhe seguiram, cometeram-se atrocidades indescritíveis, em nome de Cristo e da sua Igreja. Mas conquistou-se Jerusalém. Por algum tempo, até Saladino a reconquistar para o mundo muçulmano. Nessa época, tal como hoje, Jerusalém representava o centro da fé, o prémio supremo. Disputada por três religiões, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, Jerusalém era considerada o centro do mundo, nos mapas da Idade Média.

Jerusalém - Porta de Damasco (Fotografia do site israeljerusalem.com)

Se Deus me ajudar, Deus, Elohim, Alá - tantos nomes para a mesma necessidade de sagrado - lá estarei em Jerusalém no fim deste mês, para fazer um Curso sobre Ensino do Holocausto.

Também comecei o meu cerco a Jerusalém.

Um blogue de cara lavada



Deve ser efeito do calor e do verão, mas apeteceu-me pôr um visual mais fresco no meu blogue. Aceitam-se comentários ao novo visual.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O Humor Britânico


Escrevia Bill Bryson, no seu livro sobre a Grã-Bretanha, de que falei ontem:

“…ainda me espanto e impressiono com a qualidade de humor que se encontra nos lugares mais inverosímeis – lugares onde era impossível acontecer noutros países. Encontramos esse tipo de humor na linguagem dos vendedores das barracas, e no procedimento habitual dos artistas de rua – o tipo de pessoas que fazem malabarismos com paus a arder em cima de “bicicletas” de uma só roda, e que conseguem dizer piadas acerca deles próprios e de pessoas escolhidas no meio da audiência – e também nos espectáculos de pantomimas do Natal, nas conversas de pubs e nos encontros com estranhos em locais isolados.”

Confesso que, se há característica de que eu gosto nos ingleses é precisamente esse tipo de humor que encontramos na situação mais inesperada. Um humor sarcástico, feito de trocadilhos e de alusões a pessoas ou situações reconhecíveis. Um humor irresistível. Recordo várias situações: um artista de rua em Bath; um mágico de rua em Covent Garden; um beefeater que nos orientou numa visita guiada na Torre de Londres e nos fez chorar a rir com as descrições das prisões e execuções; mas, acima de todos eles, o guia do nosso passeio no rio Tamisa.

Estávamos no verão de 2006 e passeava com a família por Londres. Do cais de Westminster, olhávamos os barcos que sobem e descem o Tamisa e, como qualquer turista, decidimos fazer a viagem. Havia várias hipóteses: a maioria dos barcos ía só até às portas do Tamisa (como chamam às comportas que controlam o caudal do rio) mas nós resolvemos ir até Greenwich. Logo que passámos as bilheteiras e vimos o barco, ficámos desmoralizados: era o barco mais velho que estava no cais, com uma pequena zona coberta e bancos de madeira, corridos, no exterior. Caía uma chuvinha intermitente, a que já nos estávamos a habituar, e preparámo-nos para a viagem. Logo que o barco largou do cais, ouviu-se uma voz ao microfone a dar-nos as boas-vindas, e a explicar que não era guia profissional, mas ía tentar dar-nos umas dicas sobre o que íamos vendo. E, realmente, ele falou de tudo um pouco: tinha uma história para cada ponte, para cada monumento; cada ponto do percurso dava origem a uma piada. Tinha uma graça natural e todos no barco riam com gosto. Víamos passar por nós os belos barcos que subiam o Tamisa, com todos os passageiros sérios, a olhar obedientemente para a direita e para a esquerda, e já ninguém tinha pena ou quereria trocar.


Chegados a Greenwich, saímos do barco e fizemos tudo a que tínhamos direito: vimos o veleiro Cutty Sark, que na altura ainda não tinha ardido, apreciámos a Queen’s House e o Royal Naval College, visitámos o Real Observatório Astronómico, tirámos fotografias com um pé em cada hemisfério terrestre. Chegada a hora de regressar a Londres, procurámos o velho barco, já não queríamos outro. À entrada, o nosso guia foi avisando: “Preparem-se para uma viagem completamente diferente: tudo o que viram do lado direito, está agora do lado esquerdo, e vice-versa!” Não sei como, mas ele continuava a ter reportório, as histórias e piadas sucediam-se. Rimos novamente até Westminster. Antes de sairmos, ainda teve tempo de avisar: “Podem contribuir com algumas moedas para o meu bem-estar. Se não quiserem dar nada, não são obrigados, mas lembrem-se que sou eu que vos ajudo a sair do barco!”

domingo, 5 de julho de 2009

Crónicas de uma pequena ilha


Para mim, que gosto de ler e de viajar, há um género de literatura absolutamente irresistível: a literatura de viagens. Passei pelo Bruce Chatwin – Na Patagónia ainda é um dos livros da minha vida – e confesso que o Gonçalo Cadilhe é o meu herói secreto: ele faz o que eu gostaria de fazer na vida, viajar e escrever sobre isso!

Descobri há pouco tempo outro “narrador de viagens” muito agradável. Chama-se Bill Bryson, e é um americano que viveu vários anos na Grã-Bretanha, trabalhando como jornalista. Conhecia Bill Bryson como o autor da Breve História de quase tudo, uma viagem divertida por quase tudo, dentro das ciências. Este livro, Crónica de uma Pequena Ilha, editado pela Bertrand, conta as peripécias de uma viagem que o autor faz pela Grã-Bretanha, incluindo aqui a Inglaterra, a Escócia e o País de Gales. É um livro encantador, com passagens profundamente cómicas, porque Bill Bryson conhece bem os ingleses e aponta os seus pequenos tiques e idiossincrasias com muito humor. Também é um livro terno, de quem, mesmo olhando de fora, ama aquele país, a sua história, as suas paisagens. O autor não hesita em criticar o que está mal, por exemplo, a destruição de património histórico para construir blocos de escritórios descaracterizados, ou a falta de coordenação dos transportes públicos. Mas também descreve os aspectos simpáticos e atraentes do modo de vida britânico, mesmo quando lhe causam estranheza, com o hábito das caminhadas ou, evidentemente, o humor britânico.

É um livro agradável de ler, especialmente para quem conhece também a Grã-Bretanha. As nossas escolhas de visitas podem não ser as mesmas – por exemplo, em Liverpool o que mais me interessou foi visitar Mathew Street e os lugares ligados ao início da carreira dos Beatles, que Bill Bryson completamente ignorou, interessando-se por outros aspectos da cidade. Gostos aparte, é um livro interessante, que nos dá um outro lado, muitas vezes pouco visível, dos ingleses e da sua pequena ilha.

Liverpool/ 2006 (Foto de Fernando Ferreira)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Património da Humanidade

Palácio de Monserrate - Sintra (Foto de Fernando Ferreira)

O reconhecimento de um património histórico ou natural, a nível mundial, é feito pela UNESCO. Portugal tem 13 sítios ou conjuntos classificados, 12 do Património Histórico, 1 do Património Natural ( a Floresta Laurissilva da Madeira). Aí estão eles, acompanhados do ano em que foi feita essa declaração.
  1. Centro Histórico de Angra do Heroísmo (Açores) - 1983
  2. Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém (Lisboa) - 1983
  3. Mosteiro da Batalha - 1983
  4. Convento de Cristo (Tomar) - 1983
  5. Centro Histórico de Évora - 1986
  6. Mosteiro de Alcobaça - 1989
  7. Paisagem Cultural de Sintra - 1995
  8. Centro Histórico do Porto - 1996
  9. Sítios de Arte Rupestre do Vale do Côa - 1998
  10. Floresta Laurissilva da Ilha da Madeira - 1999
  11. Centro Histórico de Guimarães - 2001
  12. Região Vinhateira do Alto Douro - 2001
  13. Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico (Açores) - 2004

Mosteiro dos Jerónimos - Lisboa (Foto de Fernando Ferreira)

Neste momento, está em estudo a candidatura de mais um sítio, a Universidade de Coimbra.
Pelo mundo fora, há muitos outros sítios e monumentos criados pelos portugueses e considerados património da Humanidade, mas já estão no espaço geográfico de outros países. Recordo aqui, quase ao acaso, a Colónia do Sacramento, único monumento classificado no Uruguai, ou a Fortaleza de Mazagão, com a sua maravilhosa Cisterna, que é um dos monumentos mais visitados de Marrocos.

Titanic - A Exposição


Hoje, tive de ir à Praça dos Restauradores e aproveitei para espreitar a exposição “Titanic”, que está patente na Estação do Rossio.

Para mim, é sempre um deslumbramento passar na Estação do Rossio, com a sua bela fachada neo-manuelina, num estilo tão em voga no nosso século XIX. Confesso que, da fachada, só não gosto daquela figurinha que representa D. Sebastião, porque… não gosto de D. Sebastião! Se houvesse um ranking para os piores reis de Portugal, ele estaria porventura num dos lugares cimeiros.

Quanto à exposição, foi uma boa surpresa. Está muito bonita, cativante. Vemos objectos que foram encontrados juntamente com o navio naufragado: objectos pessoais, óculos, peças de roupa, malas de mão; também objectos do próprio navio, enormes panelas, centenas de pratos, pedaços dos ornamentos das salas. Podemos tocar num pedaço do casco do próprio Titanic e num bloco enorme de gelo, que simula o iceberg que o afundou. Vemos as imagens das requintadas salas de convívio da primeira classe e entramos nos quartos dos passageiros e da tripulação, reconstituídos com a sua mobília original. Nas paredes, fotografias de pessoas reais, com as suas histórias de vida ou de morte, sempre marcadas por aquela viagem de 1912.

Os próprios bilhetes da exposição são pequenas cópias dos bilhetes da White Star Line; no verso de cada um, a identificação e a história de um dos passageiros. A mim, calhou-me Elizabeth Dean que, com apenas 9 semanas, viajava com os pais e o irmão, em 3.ª classe, para os Estados Unidos da América. Sobreviveu e morreu recentemente, no Reino Unido.

Todos sabemos o que aconteceu ao Titanic. A dois dias do final da viagem, um rombo provocado por um iceberg enviou-o para o fundo do mar. Todos sabemos também que não havia botes salva-vidas em número suficiente e que foi dada primazia aos passageiros da 1.ª classe. A atestá-lo, lá está no final da exposição a lista dos sobreviventes e falecidos; na 3.ª classe, a lista é quase interminável. A diferenciação social na Europa do início do século XX era enorme. E hoje?

Esta exposição sobre o desastre do Titanic leva-me a pensar noutro desastre, ocorrido esta semana: a queda de um avião das linhas aéreas do Iémen, que voava para as ilhas Comores. O avião já não podia voar no espaço europeu, por falta de segurança, no entanto, fora da Europa não tinha restrições. Teremos de concluir que, no que diz respeito à segurança, continua a haver seres humanos de 1.ª, 2.ª e 3.ª classe?

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Desafio

Na sequência da declaração da Cidade Velha de Santiago, em Cabo Verde, como Património Mundial da Humanidade, de que falei ontem aqui, resolvi fazer um desafio a quem me visita: quem sabe quais são os sítios portugueses declarados pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade? Não falo de vestígios portugueses no mundo, mas sim do património de Portugal.
Vou dar uma ajuda: são 13 sítios, 12 de património construído, 1 de património natural.
Deixo este desafio até ao fim de semana. Alguém quer responder?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

As Pegadas de Portugal no Mundo

(Forte de São Filipe - portugalnotavel.com)

Já tenho falado deste assunto aqui no blogue. Os portugueses andaram por todo o lado, descobriram meio mundo, comerciaram com a outra metade e, pelo meio, foram deixando os seus vestígios: a língua, a religião, os costumes e muitas construções. Efectivamente, nunca nos bastou o mero contacto casual, episódico. Sempre gostámos de nos misturar com as populações, de lançar raízes. Construímos fortalezas, igrejas, feitorias, mas também casas, núcleos urbanos que, por vezes, foram desaparecendo, engolidos pelo progresso. Alguns ficaram, porém, e atestam hoje da nossa presença em locais tão distantes como Mazagão, Santiago ou Malaca.
A que propósito vem isto?
A UNESCO, durante a reunião do Forum Mundial que decorreu em Sevilha, anunciou que a Cidade Velha de Santiago, em Cabo Verde, foi declarada oficialmente Património Mundial da Humanidade.

Foi a primeira povoação edificada pelos europeus, neste caso pelos portugueses, nos trópicos e primeira capital de Cabo Verde, quando era chamada de Ribeira Grande. A cidade nasceu e desenvolveu-se por conta do tráfico de escravos.

Entre os vários pontos de interesse na ilha destacam-se: o pelourinho erguido em 1520; a igreja manuelina de Nossa Senhora do Rosário, construída em 1495, que é a mais antiga igreja colonial do mundo; a Rua Banana, que vai ter à igreja, e que foi a primeira rua de urbanização portuguesa nos trópicos; as ruínas da Sé Catedral, de onde se alcança um belo panorama para o oceano Atlântico, que demorou quase 150 a ser construída, entre 1555 e 1693 e que ficou muito danificada pelos ataques de piratas franceses em 1712; o Forte Real de São Filipe, que domina a cidade do alto dos seus 120 metros, construído em 1590 para defender a colónia portuguesa dos ataques dos franceses e ingleses; e as ruínas do Convento de São Francisco que foi construído em meados do séco XVII e teve o mesmo destino da Sé Catedral.

Para além do património edificado, a paisagem natural com a vista sempre solene do Oceano Atlântico, o verde da vegetação, a geologia vulcânica e o canhão da Ribeira, deverão ter sido também importantes para a classificação da UNESCO.


A população saiu à rua para festejar. O Presidente da República de Cabo Verde considerou esta inclusão da Cidade Velha no Património Mundial da Humanidade como "uma valorização da história cabo-verdiana e das origens do povo cabo-verdiano". E eu acho que Portugal também deve festejar. Depois da Ilha de Moçambique, no ano passado, é agora a vez de outra das nossas "pegadas" ser considerada Património Mundial.

Fizemos algumas coisas bem feitas!


(Agradeço ao blogue www.portugalnotavel.com algumas das informações constantes neste post)