terça-feira, 30 de junho de 2009

Sobre a Pedofilia


Foi divulgado um relatório sobre as situações de pedofilia ocorridas e detectadas em Portugal, nos últimos anos. As conclusões não são surpreendentes, mas vêm esclarecer um domínio sensível, e sobre o qual se escreve muito, embora por vezes com base em ideias-feitas.

Primeira conclusão – As principais vítimas são meninas, entre os 2 e os 9 anos. Infelizmente, tendo em conta o machismo que continua a aflorar na nossa sociedade, não surpreende.

Segunda conclusão – A maioria dos abusadores sexuais estão dentro da própria família, o que torna mais simples a ocultação do crime. São pais, tios, padrastos, que abusam da situação de vulnerabilidade da criança que vive junto de si, muitas vezes debaixo do mesmo tecto. Este grupo perfaz 51 %. O segundo grupo mais numeroso é composto por pessoas que, não sendo familiares directos, conhecem a criança e vivem próximos dela. Neste grupo, que perfaz 41 %, incluem-se vizinhos, professores, amigos da família. O terceiro grupo, com apenas 8 %, é composto pelos desconhecidos, que contactam com a criança na rua, ou através da internet.

Terceira conclusão – Foi também estudado o perfil típico do pedófilo. As conclusões apontam para um indivíduo entre os 30 e os 50 anos, de baixo nível de escolaridade, muitas vezes com problemas de alcoolismo.

Considero que as campanhas alertando para os perigos da pedofilia na internet são úteis, evidentemente. No entanto, o que este estudo nos diz claramente é que isso não chega. Há que fazer um esforço para melhorar as condições sócio-económicas da população, para aumentar a escolaridade, para encarar de frente o problema da dependência dessa droga legal que é o álcool. Há que tentar apoiar e reorientar, com ajuda psicológica, as vítimas de abusos sexuais, para que não interiorizem esses comportamentos e não venham a tornar-se futuros abusadores. Acima de tudo, há que actuar sobre a mentalidade que, como sabemos, é o mais difícil de mudar.


segunda-feira, 29 de junho de 2009

Parabéns, Saint-Exupéry!


No dia 29 de Junho de 1900, na cidade francesa de Lyon, nasceu Antoine de Saint-Exupéry. Piloto da aviação civil, acaba por morrer num voo de reconhecimento em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Deixou várias obras escritas, entre as quais "O Principezinho". É um dos livros mais belos que já li e reli. Disfarçado de livro infantil, na verdade é uma obra profundamente simbólica, que trata do conhecimento que temos de nós próprios e dos outros, e das relações e laços que conseguimos estabelecer entre nós.
Parabéns, Saint-Exupéry!
E obrigada por ter deixado o Principezinho entre nós!


Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

domingo, 28 de junho de 2009

O Planalto e a Estepe

De Pepetela, não é preciso dizer mais nada. Nome grande da literatura lusófona da actualidade, nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Passou pelo exílio, pela guerrilha, pela política; hoje é professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e dirigente de várias associações culturais. Além disto tudo, é um dos meus escritores favoritos. Recebeu o Prémio Camões em 1997.

Neste seu livro O Planalto e a Estepe, editado pela Editora D. Quixote, cruzam-se todas as referências da sua vida de luta e de sonhos a cumprir. Tendo como pano de fundo um amor que parece impossível mas que dura uma vida inteira, o protagonista, que fala na primeira pessoa, integra muitas das experiências de vida do próprio autor. Entretecida na luta pela libertação de Angola e na sua afirmação como país independente, ressalta a desilusão com o socialismo real e o internacionalismo proletário que servia de fachada aos conflitos da Guerra Fria.

Mas, acima de tudo, é um romance de amor. Um amor que surge em Moscovo, entre um estudante de Angola e uma estudante da Mongólia. Um amor de portas cerradas pelos interesses da política real e a mesquinhez das pessoas concretas. Um amor que, afinal, sobrevive a tudo até se poder manifestar plenamente, já no ocaso da vida (um pouco a fazer-me lembrar O Amor em Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Marquez).

E, a embalar todo o romance, o sabor africano da língua portuguesa, inventando novas palavras e novos “rítimos”, enquanto o seu protagonista cruza continentes.

Os Continentes são convenções,

apenas existem terras separadas por mares.

Nos bolsos dos seres marinhos há sempre montes de terra seca.

Nós desconseguimos de chegar aos bolsos aferrolhados.

Na loucura do pôr do sol, gaivotas gritam avisando rotas.

Uns poucos sabem traduzir os gritos das gaivotas.

Esses chegam a terra firme.

(Pepetela, O Planalto e a Estepe)

Imagens do Mundo


Ontem, fui ver a exposição das fotografias premiadas do World Press Photo 2009. É uma galeria impressionante, que nos leva de El Salvador ao Brasil, da Grécia à China, da Itália aos Estados Unidos da América. Desfilam à nossa frente imagens de animais em extinção, de desportistas em esforço, de cadáveres a boiar no rio ou soterrados num desabamento, transsexuais fazendo pose, pessoas comuns a lutar pela sobrevivência. São imagens deste nosso mundo, captadas por fotógrafos de imprensa. São impressionantes, questionam-nos e fazem-nos reflectir.
A exposição tem entrada gratuita e está em exibição no Museu da Electricidade, em Belém, até ao final de Julho.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Ainda estou acordado, só tenho a alma a dormir

(Este post faz parte da blogagem colectiva comemorativa do Dia Internacional de Combate às Drogas)

As drogas, como substâncias que induzem o adormecimento, a excitação ou a elaboração de fantasias e ilusões, são conhecidas e utilizadas pelo Homem desde sempre. Mesmo nas civilizações mais antigas encontramos vestígios da utilização dessas substâncias, por exemplo, antes de batalhas, ou em cerimónias religiosas. Basta lembrarmo-nos da famosa Pitonisa do Santuário de Delfos, que dava os seus oráculos embalada por ervas que eram postas a queimar no santuário. Ou das grandes orgias dionisíacas. Ou de tantos outros exemplos.

Qual é a diferença entre essas épocas e a actualidade? É que hoje as drogas são um produto comercial, como qualquer outro. Os grandes traficantes de droga não têm quaisquer considerações éticas ou religiosas. Não se preocupam com os estragos sociais e morais que causam. Traficam droga, como traficam armas ou crianças para a prostituição. No entanto, eles só vendem porque há quem compre o seu produto.

Por isso, eu defendo a “tolerância zero” face às drogas. Não há drogas leves e duras, há drogas. Todas, em maior ou menor grau, de forma mais passageira ou mais grave e duradoura, causam a mesma alienação de si próprio, o mesmo “deixar de ser”. E isso parece-me o mais triste: perdermos o respeito por nós próprios, desligarmos da vida e ficarmos dependentes, como vegetais.

É desse estado de alienação que fala a canção Logo que Passe a Monção que decidi incluir neste post. Foi composta em 1991 por Rui Veloso, um cantor de que gosto bastante, sobre uma letra de Carlos Tê, para o Álbum “Auto da Pimenta”. Nessa sua obra, Rui Veloso canta momentos da epopeia portuguesa dos Descobrimentos, alguns gloriosos, outros nem tanto, como a situação retratada nesta canção, dos marinheiros portugueses que andavam pelas terras do oriente e por lá ficavam, agarrados ao ópio. Foi da letra desta canção que retirei o título deste post.

Logo que Passe a Monção

Num banco de névoas calmas quero ficar enterrado
Num casebre de bambú na minha esteira deitado
A fumar um narguilé até que passe a monção
Enquanto a chuva derrama a sua triste canção

Sei que tenho de partir logo que suba a maré
Mas até ela subir volto a encher o narguilé
Meu capitão já é hora de partir e levantar ferro
Não me quero ir embora diga que foi ao meu enterro

Deixem-me ficar deitado a ouvir a chuva a cair
Que ainda estou acordado só tenho a alma a dormir
Como a folha de bambú a deslizar na corrente
Apenas presa ao mundo por um fio de água morrente

Nos arrozais morre a chuva noutra água há-de nascer
Abatam-me ao efectivo também eu me vou sem morrer
Para quê ter de partir logo que passe a monção
Se encontrei toda a fortuna no lume deste morrão

Ópio bendito ópio minhas feridas mitiguei
Meu bálsamo para a dor de ser
Em ti me embalsamei
Ópio maldito ópio foi para isto que cheguei
Uma pausa no caminho
Numa névoa me tornei

Peço desculpa pela péssima qualidade do vídeo, mas foi o único que encontrei no youtube. Convém ouvir a música seguindo a letra, sem ligar à imagem, que é má demais!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

São João



Quem disse que o São João é só no Porto?
São João Baptista é o santo padroeiro de Alcochete. A ele está dedicada a Igreja Matriz, de raiz manuelina e classificada como Monumento Nacional desde 1910. A ele são dedicadas as festas da vila, no seu dia se comemora o feriado municipal.
Não tendo a grandeza dos festejos da cidade do Porto, é uma festa singela mas cheia de tradições interessantes. Ontem, véspera do dia de São João, fez-se uma enorme fogueira no largo principal da vila, frente à Igreja. Os escuteiros fazem círculo, o Santo sai à rua para abençoar a fogueira. Depois, segue-se a festa popular. Há febras a assarem no largo. Toda a população está na rua. Os miúdos fazem estalar canas nas fogueiras que acenderam em cada rua.



Hoje é dia de procissão. O São João, no seu andor engalanado, é carregado pelos rapazes dos grupos de forcados. Vai da Igreja até ao rio e aí há-de abençoar - por intermédio do padre - os barcos que já estão junto ao cais, enfeitados para a ocasião. O final da festa é marcado pelo fogo-de-artifício, sobre o pontão do cais.
É a celebração do solestício, da luz, do início do Verão. É um pretexto para a partilha e o convívio. É uma afirmação de identidade.



terça-feira, 23 de junho de 2009

O Verão e Eugénio de Andrade


Como é que nunca coloquei aqui um poema de Eugénio de Andrade, um dos meus poetas favoritos? Como uma homenagem ao Verão recém-chegado, aqui fica um poema desse grande poeta, publicado no livro Branco no Branco, editado pela Limiar em 1984.

O terraço da casa era o prodígio,
nele passava o vento.
Eu começara a descobrir o corpo e tinha
a luz por confidente.

O tempo pousava devagar nos muros altos,
era verão, na minha insónia
ao mar oferecia os meus cavalos:
ao tocarem a água gritava de pavor,

ou talvez de amor, já não sei bem.
Viver então
era crescer com uma flor entre os dentes,
aprender a respirar com o perigo

de a pele estalar num clarão a cada passo.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O Verão e as frutas

Ontem, às seis horas da manhã, começou o Verão.
Não era por acaso que todas as civilizações da Antiguidade festejavam o Solestício de Verão. E em boa hora a Igreja Católica integrou esses festejos na sua liturgia, transmutando-os em festas de homenagem a santos que, independentemente do que fizeram na sua vida, continuam a ser celebrados com as plantas tradicionais e as fogueiras, como nas festas pagãs.
Compreendem-se os festejos, nesta época. É a altura do ano em que os dias são maiores, o sol brilha, tudo é mais luminoso. Colhem-se os frutos do ano de trabalho. Tudo parece mais simples, do vestuário às refeições. É a altura de preguiçar ao sol, de tomar banhos de mar, de conversar descuidadamente nas esplanadas, dos fins de tarde com cerveja e caracóis. Enfim, como cantava Ella Fitzgerald, "Summertime, and the living is easy..."
No entanto, ontem, dei comigo a pensar que o Verão trazia outra coisa fantástica: as frutas! Os morangos chegam cedo, a anunciar a época. Depois, pouco a pouco, vão fazendo a sua aparição as nêsperas, os pêssegos e as nectarinas, os damascos, e o restante cortejo, até às uvas e aos melões, lá para Setembro. Quem nunca abençoou a vida a comer figos colhidos directamente da árvore? Quem nunca matou a sede com uma fatia de melancia bem sumarenta? E as cerejas, haverá coisa melhor do que debicar cerejas deitada na relva, à sombra de uma árvore ou de um chapéu-de-sol?
Sim, bem sei que hoje em dia podemos comer estas frutas todo o ano. Vêm de sítios longínquos, viajam em câmaras frigoríficas e, quando chegam à nossa mesa, pêssegos, damascos e ameixas sabem todos exactamente ao mesmo, a borracha! Agora no Verão, alimentam-nos os olhos e a alma, sabem-nos à própria vida!

domingo, 21 de junho de 2009

Uma Música, Um Momento


(Este Post faz parte da blogagem colectiva Minha Música, Meu Momento)

Estávamos em 1974, 1975. Eu tinha toda a irreverência e ânsia de descoberta e autonomia de uma adolescente, levedada pelas ondas de liberdade que a Revolução dos Cravos tinha trazido a Portugal. Mergulhava na música com fervor, como se mergulha em tudo quando se tem 15 anos. Tinha uma boa relação com os meus pais que, tenho de o dizer, sempre tiveram uma santa paciência para me aturar. Mas, à minha ânsia de “outra coisa”, eles respondiam com o seu saber de experiência feito, que me parecia tremendamente castrador para as minhas asas que se abriam! Havia uma música que espelhava este conflito de gerações, tão eterno como o próprio fluir das gerações: “Father and Son” do Cat Stevens. Ainda hoje, por vezes, me lembro de passos desta canção, porque hoje sou eu que sou mãe de adolescentes!

Eu adorava o Cat Stevens, sabia todas as músicas de cor e tive um grande desgosto (como só se tem na adolescência!) quando ele abandonou a carreira e se converteu ao islamismo. Este vídeo, recorda o “Father and Son” e o Cat Stevens tal qual eu me lembro dele. Exactamente como estava no poster que eu tinha no meu quarto e que olhava, embevecida, até adormecer.

sábado, 20 de junho de 2009

O Mundo da Lusofonia


Sempre achei que valia a pena investir na aprendizagem da língua portuguesa. Eu sei que é uma língua difícil, porque é de origem latina, cheia de particularismos e complicações gramaticais. Também sei que para nós, é pouco usual valorizar o que é nosso, é muito mais português valorizar a galinha da vizinha, que parece mais gorda, mas nem sempre o é.
No entanto, sempre pensei que era pouco inteligente menosprezar uma língua que é falada por tantos milhões de pessoas pelo mundo fora. Porque o idioma português não é património exclusivo deste pequeno rectângulo à beira do oceano Atlântico. Na verdade, nós levámo-lo connosco na nossa expansão e hoje é património comum de um conjunto de nações que se distribui pela Europa, África, Ásia e América do Sul. Isto significa que é o idioma, não só deste jardinzinho à beira-mar, mas também de grandes economias emergentes como o Brasil e Angola.
Por qualquer razão difícil de entender, os nossos governantes acharam que o investimento no TGV nos aproximava mais do resto do mundo do que o investimento no Instituto Camões. Não estou tão certa: a língua é o veículo de comunicação e conhecimento por excelência. E nem vou aqui falar da importância da literatura lusófona, com a sua plasticidade, as suas ricas variedades, a sua grandeza.
Felizmente, o resto do mundo andava com mais atenção. Neste ano lectivo que está a terminar, cinco universidades chinesas tinham cursos de Língua e Cultura Portuguesa. Em alguns países europeus, existe o curso de Estudos Portugueses. E acabei de saber que há dezoito mil estudantes espanhóis a estudar a língua portuguesa no ensino secundário. Na Estremadura espanhola, inclusivamente, está a considerar-se a hipótese de tornar o português uma língua de aprendizagem obrigatória. Não se trata de preservar a língua junto das comunidades emigrantes, mas sim de a entender como uma mais-valia para quem trabalhar nas áreas do turismo, saúde, comércio, relações internacionais.
Eduardo Lourenço, um dos grandes pensadores da cultura, chamou à Língua Portuguesa “um continente imaterial disperso pelo mundo”, ao fazer o lançamento dos Segundos Jogos da Lusofonia, que irão decorrer em Lisboa, de 11 a 19 de Julho de 2009. Haverá participantes de 12 países lusófonos, do Brasil a Timor-Leste.
E viva a Lusofonia!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ainda o Magalhains!



Oh! Que pena!
Acabou o ano lectivo e o governo não conseguiu cumprir a sua promessa de entregar um computador Magalhães a cada criança do 1.º ciclo. Foi mais uma promessa por cumprir, não é?
Havia a esperança de que o Magalhães revolucionasse tudo, até as nossas estruturas familiares!




quinta-feira, 18 de junho de 2009

A Figueira da Foz e Jorge de Sena

Há umas três semanas atrás, fui almoçar à Figueira da Foz. Não fui de propósito, fui de caminho para outros lados, mas estorricava-se em Lisboa e soube muito bem passear pela avenida marginal figueirense com uns simpáticos 26º C. Gosto da Figueira da Foz, embora nada de especial me prenda a ela, não faz parte da geografia emocional da minha vida. Assim, foi com um olhar descomprometido que caminhei pela marginal e dei comigo a pensar em Jorge de Sena. É na Figueira da Foz que se desenrola a maior parte da história do seu livro “Sinais de Fogo”. Parece-me que vejo Jorge e Mercedes sentados num banco da avenida, combinando os seus encontros. Imagino que vejo o Rodrigues a surgir detrás de um barquito, na praia de Buarcos. Vejo as barracas na praia e relembro as saborosas descrições dos comportamentos na praia e das distinções sociais a eles associadas: alugar uma barraca significava uma coisa diferente de alugar um simples toldo! E destas considerações se alimentava a burguesia portuguesa nesses anos 30 do século XX, em que se desenrola o romance. E, embora o Jorge protagonista da história seja um alter-ego do próprio Jorge de Sena, e o romance uma espécie de parábola iniciática, para mim é, acima de tudo, uma vista panorâmica da sociedade portuguesa da época. Pelo menos, de uma fatia dessa sociedade, a burguesia que vai a banhos anualmente, para a Figueira da Foz. É a desmontagem de uma moral hipócrita e mesquinha, feita de preconceitos e desregramentos. É um retrato social do Portugal dos anos 30.

Vem isto hoje a propósito da doação feita pela viúva de Jorge de Sena à Biblioteca Nacional. É hoje, quinta-feira, a cerimónia, pela qual um importante acervo, composto de manuscritos, cartas, obras da biblioteca pessoal do escritor, passa para a posse da nossa Biblioteca Nacional. Sabendo-se que Jorge de Sena morreu em Santa Bárbara, Califórnia, onde leccionava, parece-me importante que o seu espólio volte para Portugal.

Para comemorar essa doação, aqui fica um pequeno poema de Jorge de Sena, que fui buscar ao site “Citador.pt”


Eternidade

Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo.

Jorge de Sena, in 'Perseguição'

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Mais uma razão para ir a Bruxelas

Embora goste muito de viajar e já tenha andado um pouco pela Europa fora, ainda não fui a Bruxelas. Não calhou! É evidente que tenho anotados, no meu bloco de notas "Must see before I die!" alguns locais nessa cidade, como o Museu da Banda Desenhada, onde mora o Tintim da minha infância, ou a Grande Place, que alguns consideram a Praça mais bonita da Europa.
Mas agora tenho mais uma razão para ir a Bruxelas: abriu este mês de Junho de 2009 o Museu Magritte. Este grande pintor surrealista belga é um dos meus favoritos e o museu foi instalado na casa (pertinho da Grande Place!) onde trabalhou durante 24 anos. Enquanto não posso lá ir pessoalmente, aqui fica o filme de apresentação do Museu, numa pequena viagem guiada por... cachimbos, chapéus-de-chuva e chapéus de côco, logicamente.
Não posso deixar de sorrir ao lembrar-me das acesas discussões que alguns destes quadros suscitaram, neste ano lectivo, quando estava a trabalhar com os alunos do 9.º ano as novas correntes artísticas do século XX. "Ceci n'est pas une pipe"?
Não há dúvida: há mais um conjunto de razões para ir a Bruxelas!


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Que lugar te faz sentir em casa?


(Foto: site da Câmara Municipal de Alcochete)

(Tema de Junho da Tertúlia Virtual)

Eu sinto-me em casa em qualquer lugar onde possa ser eu própria. Quando chego a um sítio e pouso a mala e fecho a porta e tiro as máscaras sociais todas. Não preciso de sorrir se não me apetecer e posso gritar se me der para isso. Sinto-me em casa se não precisar de pôr maquilhagem e controlar constantemente os meus gestos e as minhas palavras. Sinto-me em casa num lugar onde possa pôr os pés em cima da mesa para ver o meu programa de televisão preferido, enquanto como bolachas, e se achar graça rio, e se me emocionar choro.
Às vezes, sinto-me em casa sentada à beira-mar, ou caminhando sem destino por Lisboa, anónima no meio de toda a gente. Gosto de me sentir uma peça especial, única, camuflada no meio da multidão!
Mas o lugar que me faz sentir mais em casa, é aquele recanto do terraço onde tenho uma mesa, duas cadeiras e um chapéu de sol, e de onde vejo a Reserva Natural do Estuário do Tejo, ao longe o próprio Tejo, vejo melros, garças e, às vezes, flamingos. As minhas cadelas estão sempre sentadas aos meus pés. Aí, sinto-me em casa.

sábado, 13 de junho de 2009

Nos Passos de Pessoa


Hoje, 13 de Junho, é dia de Santo António, como toda a gente sabe. Neste dia, em 1888, nasceu outro português notável, a quem foi dado o nome de Fernando António, em homenagem ao Santo. Refiro-me a Fernando Pessoa, como também quase toda a gente sabe. Aproveitando esta efeméride, o SAL (Sistemas de Ar Livre) organizou um passeio pela Lisboa pessoana, a que chamou “Nos Passos de Pessoa”. Foi um passeio muito agradável, que se iniciou em frente ao Teatro de S. Carlos, junto ao prédio onde Fernando Pessoa nasceu e o seu pai ouvia os ensaios das óperas sobre as quais, depois, escrevia as suas críticas.



Passámos pelos cafés e espaços que frequentou e, a propósito deles, revisitámos locais significativos da cidade. Por muito que se conheça uma cidade, é sempre possível encontrar novos olhares, conhecer novas histórias, descobrir um recanto ou um significado diferente para o recanto onde já passámos dezenas de vezes.

Isto também acontece com Lisboa. Há muitas pessoas que dizem que conhecem Lisboa porque habitam no Cacém ou em Rio de Mouro e trabalham em Chelas ou Sacavém. Na verdade, a única coisa que conhecem é o IC 19 e a 2.ª Circular e, ao fim-de-semana, o Centro Comercial Colombo. De vez em quando, temos de ser turistas na nossa própria cidade.

Apetece-me terminar com um poema de Fernando Pessoa, relembrado hoje pelo guia da SAL.

LISBON REVISITED (1923) - ÁLVARO DE CAMPOS

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Metropolitano


Que me perdoem os indefectíveis adeptos dos transportes automóveis, mas eu, decididamente, prefiro o metropolitano. Por muitas razões: em Lisboa nunca há um sítio para estacionar quando precisamos dele; perdemos horas infinitas em filas de trânsito igualmente infinitas; de metro, acabamos por chegar onde queremos mais depressa e com menos ansiedade. Mas tenho de confessar que há outras razões, de que eu geralmente não falo. O automóvel faz-me sentir dentro de uma cápsula, isolada dos outros. Quem vive num prédio com garagem, pode sair de manhã para a sua cápsula, estaciona no parqueamento privativo da companhia onde trabalha, faz o seu dia de trabalho, sai, vai ao centro comercial, onde volta a estacionar no parque subterrâneo, faz as suas compras, ou vai ao cinema, ou faz qualquer outra coisa, e volta para casa, para a sua garagem. Pode passar dias inteiros sem interagir com os seus concidadãos, sem mesmo sentir a brisa da tarde ou o calor do sol, a não ser filtrado pelo ar condicionado do automóvel. Confesso que só de pensar nisso tenho um ataque de claustrofobia!


(Giacomo Balla, Velocidade abstracta)

Eu, como já disse, gosto de andar de metropolitano, ou de eléctrico, ou de comboio. Gosto da mistura de gentes que se encontra nos transportes públicos. Os seres humanos são um imenso campo de observação e há sempre coisas interessantes para observar. Quando me sento numa carruagem de metropolitano, são as pessoas que me despertam a atenção. No comboio, por exemplo, as pessoas olham para a paisagem que passa lá fora. No metro não, lá fora só há escuridão, não há para onde olhar. Eu gosto de olhar para as pessoas, imaginar o que fazem, para onde vão, o que pensam, como vivem. Geralmente, as pessoas que viajam sozinhas refugiam-se no jornal, ou no telemóvel, ou fixam um ponto indefinido, à sua frente. Evitam-se os olhares, ultrapassa-se esta proximidade forçada. Cada um cria um pequeno mundo fechado à sua volta, que às vezes abre brechas.

Há uns dias atrás, eu viajava na linha verde, em direcção à Baixa. A carruagem levava muita gente, incluindo turistas espanhóis, ou sul-americanos, que comunicavam ruidosamente entre os diversos bancos por onde se espalhavam. Numa das estações, entrou um homem cego a tocar acordeão. Provavelmente por um acaso, começou a tocar uma música sul-americana, uma daquelas antigas, que toda a gente conhece. Ouviu-se uma exclamação do grupo dos turistas, que começou a cantarolar. Primeiro só alguns, depois mais, por fim todo o grupo acompanhava o acordeonista cego. Os outros viajantes entreolhavam-se, alguns riam, outros começaram a trautear também os versos conhecidos. Criou-se um ambiente engraçado, de cervejaria alemã, ou café-concerto. Nos Restauradores, o acordeonista saiu, depois de receber algumas moedas. O grupo de turistas saiu também, ainda a arrastar restos da cantoria. Os outros viajantes voltaram para os seus pequenos mundos fechados. E eu saí no Rossio, pensando com os meus botões que, se tivesse vindo de carro, tinha perdido aquele momento especial.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Obrigada, Presidente Obama!


"Comunicado do presidente Barack Obama sobre o Dia de Portugal, Camões e as Comunidades Portuguesas

Os Estados Unidos e Portugal têm uma forte e longa amizade. Hoje, no Dia de Portugal, Camões e as Comunidades Portuguesas, as pessoas de origem portuguesa pelo mundo marcam a data da morte do maior poeta de Portugal, Luís Vaz de Camões. É conhecido que Camões, que viveu entre 1524 e 1580, é mais conhecido por seu poema épico, 'Os Lusíadas' - um tributo à idade de ouro das descobertas e explorações portuguesas. Esta Nação (Estados Unidos da América) beneficiou das inúmeras contribuições de luso-americanos. Neste Dia de Portugal, eu orgulhosamente mando os meus melhores desejos a todos os que celebram a cultura e a herança portuguesa nesta ocasião."

Não sei se o Presidente Obama manda esta mensagem a todos os países que comemoram o seu Dia Nacional, ou apenas àqueles que têm uma comunidade significativa a viver em terras do Tio Sam. Seja como for é simpático e é sempre agradável perceber que a cultura portuguesa é conhecida e apreciada (às vezes, só nos apercebemos disto fora de Portugal). As descobertas portuguesas, e personalidades como Camões e Vasco da Gama, são estudadas em todos os currículos de História Mundial. Fomos os pioneiros da globalização e, nesta época de homogeneização cultural, creio que devemos valorizar tudo o que fizemos de positivo - e foi bastante ao longo destes 800 anos - sem branquear o que fizemos de negativo: só assim podemos aprender com os erros e fazer melhor.

Sei que, por estes dias, não estamos na nossa melhor forma. Por isso mesmo, temos de conhecer e ter orgulho na nossa herança cultural e confiança em nós próprios e nas nossas capacidades.



terça-feira, 9 de junho de 2009

Relax!


Eu sei que estamos todos cansados, mas vêm aí dois feriados!
Aproveitemos para relaxar!


segunda-feira, 8 de junho de 2009

Um novo Museu dos Coches?

As pessoas que se mantêm atentas a estas coisas - que não são tantas como seria devido, já se sabe - foram surpreendidas pelo anúncio de que se preparava um novo edifício para alojar o Museu dos Coches. Confesso que, quando li esta notícia, fiz um esforço para me recordar de aspectos verdadeiramente negativos ou degradados do actual Museu. Não me lembrei de nenhum. Pelo contário, lembrei-me de ter também, aqui há tempos, lido a notícia de que estavam a ser feitas obras de recuperação do espaço do Museu. Não sei se serão as mesmas que, durante algum tempo, obrigaram as peças em exposição a encontrar um abrigo num edifício do Parque das Nações. Seja como for, houve obras! Justifica-se, depois das obras feitas, o transporte do riquíssimo acervo do Museu para outro local?

Dizia a dita notícia que o novo edifício seria uma obra de arquitectura projectada de raiz para o Museu. Permito-me opinar que qualquer obra de arquitectura moderna será, seguramente, menos adequada para a exposição dos coches do que o Real Picadeiro, onde actualmente se encontra. Um museu não se esgota nas peças que expõe. O ambiente em que as enquadra também conta. Recordo com muito prazer os pequenos concertos de sábado à tarde com que o Museu brindava quem o queria visitar nesses dias. Num desses dias, assitia eu na galeria a uma récita temática, com trechos de operetas, e lembro-me precisamente de pensar como aquele espaço era agradável e privilegiado. Tinha comigo uma estudante húngara, que estava deslumbrada por todo aquele envolvimento, a música, as pinturas, os coches, o próprio picadeiro! Outro espaço, mesmo feito de raiz, não pode ter o mesmo envolvimento, a mesma personalidade!

Estamos a falar do Museu mais visitado da cidade de Lisboa. Estou certa de que o que agrada aos turistas é o todo, não apenas algumas partes, por mais espectaculares que sejam as peças em exposição!

Amanhã, vota-se na Câmara Municipal de Lisboa a construção do novo museu. Sei que há movimentos de cidadãos, em Lisboa, que lutam pela preservação do actual Museu dos Coches. Espero que o bom-senso prevaleça e que o executivo camarário encontre outros locais onde investir o dinheiro que, ao fim e ao cabo, é de todos nós.

domingo, 7 de junho de 2009

As Maravilhas Portuguesas no Mundo

Neste dia 7 de Junho comemora-se mais um aniversário do Tratado de Tordesilhas que, no já longínquo ano de 1494, dividia o mundo conhecido mais o que haveria para descobrir, em duas metades: uma para Espanha, outra para Portugal. Na metade portuguesa ficou toda a África, parte do Brasil, uma grande parte da Ásia (até algum ponto, mal definido durante muito tempo!).
A partir daí, a história é mais um menos conhecida. Espalhamo-nos por todos os continentes, procurando aventura e conhecimento, mas principalmente produtos para comerciar. Misturamo-nos com os nativos das diversas regiões, criámos muitas mestiçagens. Também criámos um império que tardou em perceber que o mundo tinha mudado.
Entre as mestiçagens de que fomos protagonistas, quero destacar a mestiçagem cultural, de que o Brasil é, provavelmente, o melhor exemplo. Por todo o lado, deixámos palavras, modos de viver, toponímia, construções, muitas vezes inovadoras nas suas técnicas construtivas e nos materiais utilizados. O resultado está aí: a votação para as 7 Maravilhas Portuguesas no Mundo mostra-nos o que de mais perene os portugueses deixaram em tantos países, do Uruguai ao Irão, através de três continentes diferentes.
O anúncio original dizia, com alguma graça, que, se os portugueses tivessem ido à Lua, não teriam deixado apenas pégadas. Uma breve viagem pelo site da organização desta votação mostra que, independentemente das considerações morais ou éticas que possamos fazer sobre o estabelecimento do império português, temos uma herança a manter, a valorizar, e de que nos devemos orgulhar. Uma forma de o fazer é votar nestes monumentos, quase todos considerados património da Humanidade. Ainda o pode fazer, por pouco tempo, pois os resultados serão divulgados no dia 10 de Junho. Eu já votei. Neste dia de outras votações, apetece-me fazer apelo a este voto.
Não conheço a maioria destas maravilhas, mas tenho pena. Para quem gosta tanto de viajar como eu, talvez seja um bom objectivo para os próximos anos!

Compromisso: não voto PS!


Pois claro!


sábado, 6 de junho de 2009

Sam, o Koala


Este Koala foi encontrado em situação de desidratação, durante os grandes incêndios que devastaram a Austrália este ano, e que causaram cerca de 200 mortos entre os humanos e um número quase incontabilizável de mortos entre os animais. Sam, o nome com que foi baptizado este koala, salvou-se graças a um bombeiro, que lhe deu de beber e o ajudou a segurar a garrafa de água já que o koala tinha a pata ferida com queimaduras. 

Diz-se que os países se definem pelo modo como tratam os animais. As pessoas também.



sexta-feira, 5 de junho de 2009

Uma Viagem ao Mundo dos Poemas

De vez em quando, tenho de ir ao sótão seleccionar e arrumar todas as coisas que lá vamos acumulando, brinquedos, livros escolares, papéis diversos, e outras milhentas coisas que por lá ficam, à espera que alguém vá algum dia olhar para elas e descobrir-lhes novamente uma utilidade. Estava a arrumar uma pequena estante que lá tenho, atafulhada de revistas e jogos dos miúdos, quando encontrei um pequeno livro chamado “Uma Viagem ao Mundo dos Poemas”. Foi organizado e editado, com o apoio da Câmara Municipal, por uma professora de História e Língua Portuguesa da minha escola; nesse pequeno livro juntam-se os poemas feitos por uma turma de 6.º ano, num ano lectivo já bem passado!

Alguns poemas são deliciosos e não resisto a transcrevê-los. A Fabiana que, segundo conta o livrinho, tinha 11 anos e gostava de acabar com a pobreza, a caça e, se pudesse, não deixava que queimassem e cortassem árvores, escrevia:

Raio de sol

 Ilumina o mundo

Raio de sol

 Ilumina a terra

Raio de sol

 Ilumina o meu coração

Assim, poderei ver o dia

 Até na escuridão.

 

O Tiago também tinha 11 anos e afirmava que, se governasse, a primeira coisa que fazia era proteger as crianças e acabar com a guerra. No seu poema, falava da paz:

 

Havia paz em todo o mundo

Se houvesse paz

No teu coração

No meu coração

E no coração de cada homem

Que governa o mundo.

Paz é união

É ter um coração universal

A palpitar em cada homem.

 

Deliciei-me a ler os poemas e fiquei a pensar que hoje em dia, com tantas grelhas, planificações e relatórios, talvez não haja já disponibilidade para editar livros de poemas dos alunos. A minha colega Maria do Carmo Lavrado cansou-se e já está reformada. Mas aquilo que ela escreveu na introdução a este livro, em Fevereiro de 2000, continua actual e a fazer-nos reflectir:

“(Este livro) aí está a atestar o tesouro escondido que existe no coração de cada criança. É este tesouro que cada educador, cada adulto responsável, tem o dever sagrado de não deixar perder-se no turbilhão e na desilusão da vida concreta, feita de egoísmo, de ambição desmedida, de falta de amor e de solidariedade, que se tornou apanágio da nossa sociedade. Deixar perder este tesouro, é cavar o fosso onde se podem sepultar as gerações vindouras, porque um mundo onde falta a paz, a solidariedade, a liberdade, o amor… é um mundo desumano e onde não há humanidade, o homem não tem lugar.”

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Já ninguém morre de amor

Depois de ter lido “Enquanto Salazar dormia”, de que gostei bastante, tinha alguma curiosidade em relação a este último livro de Domingos Amaral. O título pode dar-nos a ideia de uma espécie de romance cor-de-rosa, mas não é assim, não é um texto lamechas.  É um livro bem construído que, de uma forma interessante e atractiva, conta a história de quatro homens da família Palma Lobo, quatro homens de gerações diferentes, unidos por um destino comum, uma tendência para os amores avassaladores e destrutivos. Há imagens excessivas, como excessivos são certos amores: o funeral fictício, o homem enforcado com gatos e cães, o outro que morre a fornicar para exorcisar a imagem da mãe. O romance cruza oceanos, já que encontramos os Palma Lobo nos vários palcos em que encontramos portugueses, entre Portugal, o Brasil e Angola. Mas o romance cruza também o Portugal do século XX, pois a história daquela família vai-se entrelaçando com a história portuguesa, com a evolução e as convulsões do país, tal como acontece com a história de cada um de nós.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Ainda o Buçaco


O Palace Hotel fica no Buçaco, mas o Buçaco não é só o Palace Hotel. E eu não era eu se não andasse por todo o lado, a procurar tudo o que pudesse ser interessante.

Para começar, a Mata do Buçaco. Área protegida, foi mandada plantar pelos frades da Ordem dos Carmelitas Descalços, que aí construíram um convento no início do século XVII, o Convento de Santa Cruz, de que hoje pouco resta. A Mata vale bem um passeio, com tempo para apreciar os recantos, a vegetação densa, com destaque para os imponentes cedros: alguns desses cedros datam do século XVII e estendem-se para o céu como colunas formidáveis. Por toda a zona envolvente do hotel, encontram-se também ermidas e pequenas capelas, assim como uma interessante Via Sacra. Infelizmente, todas apresentam o mesmo ar de abandono, sujas, sem iluminação, com as imagens partidas. Os percursos pedestres também não estão bem sinalizados, levando a enganos frequentes. Há dois miradouros que vale a pena procurar, o das Portas de Coimbra, bem perto do Hotel, e o da Cruz Alta, um pouco mais longe mas a merecer a caminhada. Quando o tempo está claro, consegue ver-se até ao mar, até à Figueira da Foz. No entanto, convém levar água, pelo menos, pois só existe um quiosque na Cruz Alta e está fechado. Muito imponente e bem localizado, com um panorama fantástico, o Monumento à Batalha do Buçaco só é visitado por acaso, por quem for a passar e der por ele. Não há indicações prévias, nem qualquer explicação. A única coisa que encontrei junto ao monumento foi um saco de uma Churrasqueira, com os restos de um qualquer piquenique. Começamos a aperceber-nos da falta que aqui faz um Centro de Interpretação e, de regresso ao hotel, não resisto a conversar com o solícito funcionário da Recepção sobre este assunto. Ele explica-me que o edifício está alugado pela organização hoteleira, mas que a zona envolvente não é da sua jurisdição. Acrescenta ainda que foi criada uma fundação para preservação de toda a zona do Buçaco, com um projecto muito interessante, que englobava a recuperação das capelas e dos circuitos pedestres e a criação do Centro de Interpretação, entre outras coisas. A Fundação apresentou o projecto à União Europeia e foi aprovado o financiamento, mas entretanto, após guerras intestinas entre os diversos ministérios e organismos envolvidos, o prazo para utilização desses dinheiros expirou. Portanto, a incompetência e a inércia falaram mais alto. Sem comentários!


Uma surpresa agradável é o Museu do Moinho, incluído no Circuito dos Moinhos. Situado já no concelho vizinho de Penacova, o caminho até lá ladeia a Serra do Buçaco e é de uma grande beleza. Passamos por encostas atapetadas de fetos e grandes bosques de pinheiros e ciprestes. O Museu está localizado no alto da Portela de Oliveira, tem um acervo interessante e está muito bem cuidado. Ao lado, há um café com uma esplanada sobre a serra que, só por si, merece a viagem.

Voltamos para casa com beleza nos olhos e uma regueifa dentro do porta-bagagens, porque os sabores também constroem as recordações.

(Hoje, propositadamente, utilizei a grafia moderna; dantes, Buçaco escrevia-se Bussaco)